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    Luca Reis Ferreira     Atividades ilícitas que atravessam fronteiras são tão antigas quanto a invenção do sistema internacional moderno, como a pirataria e o tráfico de escravos (Pereira; Jordão, 2020 apud Andreas; Nadelman, 2006). O termo “crime organizado transnacional” (COT), no entanto, origina-se da identificação do crime como ameaça global durante o governo Bill Clinton, cimentando a crescente atenção dada aos ilícitos transnacionais nos anos 1970 e 1980 (Pereira; Jordão, 2020). Já naquele momento, a relevância de Myanmar na dinâmica do crime internacional chamava a atenção da mídia ocidental (Bernstein; Kean, 1996).     Há décadas, o COT vinculado ao Sudeste Asiático ocupa analistas experientes de segurança internacional (Emmers, 2003), sobretudo pelos impactos decorrentes do tráfico no Triângulo Dourado. A região montanhosa, que compreende Tailândia, Myanmar e Laos, possui um vasto histórico de atividades ilícitas, hoje ampliadas em escala e sofisticação pela instabilidade política em Myanmar (UNODC, 2024a). Desde 2021, a erosão da ordem doméstica myanmarense impulsionou a convergência entre múltiplos delitos, fomentando um ecossistema criminoso ainda mais complexo.     Nesta análise, argumentarei que os desafios históricos que Myanmar enfrenta no combate ao crime organizado foram agravados pelo golpe de Estado de 2021. Tendo em vista a necessidade de problematizar abordagens que delimitam o COT à análise dos grupos criminosos (Pereira; Jordão, 2020), considero que uma interpretação mais adequada das atividades ilícitas transnacionais exige relativizar a dicotomia imposta entre Estado e atores criminosos. A conjuntura de Myanmar, aqui analisada desde uma lente internacional, proporciona uma oportunidade de avançar nessa interpretação. A erosão doméstica como catalisadora do crime     Recentemente, o processo político de Myanmar tem sido marcado por eleições gerais e retomada das atividades parlamentares (Myanmar’s…, 2026). Mas em vez de representarem avanços da institucionalidade em um Estado historicamente frágil, tais procedimentos visam consolidar, sob uma fachada civil, o regime que tomou o poder em fevereiro de 2021 (FIDH, 2026). Liderada desde então pelas forças armadas do país (Tatmadaw), a nação localizada no Sudeste Asiático passou por severa erosão institucional e tornou-se um dos centros globais de operação do crime organizado transnacional.     Após a deposição forçada do governo democraticamente eleito e a instalação da junta militar, protestos irromperam por todo o país, os quais evoluíram para formas coordenadas de resistência em uma guerra civil prolongada (Fumagalli, 2022). Desde então, agentes do crime aproveitam-se do vácuo de poder para profissionalizar suas atividades, em um processo agravado pela forma como os militares mobilizam atores extra-estatais contra civis e perdem o controle das áreas fronteiriças. O fim do experimento democrático de Myanmar também passa pela incapacidade da oposição de reconstruir instituições sem a influência dos militares (Fumagalli, 2022), o que paradoxalmente dificultou a constituição de um aparato de repressão capaz de lidar com o crime organizado.     Desde a erosão doméstica causada pelo golpe, a fragmentação do território e a violência armada contribuem significativamente para o avanço do COT na região. A contestação de territórios substitui o centro da governança de uma autoridade central estabelecida por um conjunto de atores interessados na operacionalização da economia ilícita e seus lucros, favorecendo relações promíscuas entre Estado, agentes de segurança, dissidentes, milícias e outros atores domésticos (ISP, 2026). Paralelamente, atores internacionais, como os governos da Tailândia e da China, optam por coordenar a segurança das fronteiras também com a resistência armada (Thiha, 2025), diluindo distinções entre agentes públicos e privados.     No âmbito das Nações Unidas, a atuação diante da erosão democrática tem sido limitada pelo bloqueio do eixo sino-russo a quaisquer medidas internacionais coercitivas sobre a junta militar governante (Plunkett; Tansey, 2024). Assegurando o Tatmadaw como aliado e exemplo internacional de dissidência iliberal, China e Rússia foram denunciadas por Thomas Andrews, Relator Especial da ONU em Myanmar, por transferirem armas para o país com pleno conhecimento de que seriam utilizadas para atacar civis (OHCHR, 2022). Além de claramente violar o direito internacional, a dupla contribui de forma indireta para o tráfico de armas no país, dada a forte correlação dessa atividade com mercados criminosos (MacBeath, 2025) e os altos níveis de corrupção das forças armadas.     No mesmo sentido, iniciativas regionais pautadas pela ASEAN, como o Consenso de Cinco Pontos, foram incapazes de restabelecer a arquitetura de segurança regional pré-golpe (Mun, 2025). Ao enquadrar o COT como um risco secundário decorrente do conflito, e não como motor da crise, inviabilizou-se a possibilidade de reformular a lógica de segurança coletiva no Sudeste Asiático e pressionar a junta a seguir protocolos de governança transnacional. Nesse cenário, a inoperância das instâncias multilaterais frente aos efeitos gerados pelo golpe de Estado de 2021 tem produzido uma perigosa permissividade diante do crime organizado myanmarense, cujas atividades hoje convergem em escala alarmante. Drogas, golpes digitais e tráfico humano: elementos de um ecossistema criminoso     Estabelecendo-se como um dos epicentros globais do crime organizado transnacional, Myanmar convive com a intensificação da atividade de milícias pró e antigoverno, altos níveis de insegurança na vida social e a ausência de capacidade institucional para coibir violações ao Estado de Direito (IBAHRI, 2022). Nos últimos cinco anos, essa dinâmica é observada especialmente pela convergência de delitos como os golpes digitais, o tráfico de pessoas e o fluxo transfronteiriço de drogas, que se retroalimentam em um ecossistema de proporções únicas em todo o mundo. A saber, dentre 193 países analisados no último relatório anual da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC, 2025), Myanmar figura como a nação com o maior índice de criminalidade e a pior resiliência contra criminosos.     Na medida em que a permissividade internacional impera e a ordem doméstica permanece fraturada, redes ilícitas aproveitam-se da fragmentação para aumentar sua influência na economia local, aliciar a população e ampliar o escopo das suas atividades. Devido à expansão do COT, uma abordagem estritamente repressiva, via intervenções ostensivas nas áreas mais afetadas, tende apenas a empurrar as atividades criminosas para outras áreas do país e transbordar nos Estados fronteiriços (ISP, 2026). Uma série de fluxos globais é estimulada a partir da desterritorialização dessa atuação e, mesmo que a arquitetura de segurança regional avance, a “jurisdição de alto risco” de Myanmar oferece uma rota de escape aos mais diversos grupos criminosos (FATF, 2022).     Se a imagem histórica de milícias e grupos armados pode ser de dispersão, hierarquias desordenadas ou vínculos exclusivamente étnicos e familiares, esse retrato certamente não espelha a dinâmica vigente do crime organizado na região. Atuando em lógica e proporções industriais, os grupos que se especializam em cibercrimes se expandiram em Myanmar por meio da criação de centrais de golpes digitais com um grau de profissionalização elevado. Suas atividades incluem a administração de propriedades com infraestrutura fortificada, a emissão de contratos de trabalho falsos, o emprego de Inteligência Artificial (IA) generativa para criar identidades falsas e permitir traduções simultâneas, o uso de deepfakes para aperfeiçoar a credibilidade de extorsões e a aplicação de táticas de vigilância que permitem monitorar vítimas e recrutar perfis específicos (UNODC, 2024b).     Sob marcos regulatórios insuficientes, criminosos aproveitam-se da insegurança social e financeira dos myamarenses, agravada desde o golpe de Estado, e gradativamente passaram a utilizar a população para atrair nacionais dos países vizinhos. Do ponto de vista do entorno regional, esse processo se relaciona a um nível insuficiente de literacia digital, sendo identificada a dificuldade dos usuários da internet em distinguir entre informações verdadeiras e falsas quando são abordados nesses esquemas, impactando tanto governos quanto populações (IISS, 2024). Não por acaso, a baixa maturidade digital dos países mais pobres do Sudeste Asiático converge para um baixo engajamento institucional em investigações internacionais sobre resiliência cibernética e para uma alta vulnerabilidade civil frente aos esquemas golpistas (Pacific Forum, 2025; Nwal; Myint; Nwal, 2025).   Mapa dos centros de golpes digitais identificados em Myanmar até 2025.  Fonte: Australian Strategic Policy Institute.     A força de trabalho nas centrais de golpes, antes composta principalmente por cidadãos dos Estados limítrofes, já é transcontinental, contendo vítimas de 22 países de regiões como a Ásia Central, o Leste Europeu, a África e a América Latina (INTERPOL, 2023; UNODC, 2024). De acordo com a ONU, ao menos 120 mil cidadãos estrangeiros foram sequestrados e forçados a entrar nas indústrias de crimes cibernéticos e apostas on-line, atuando em fraudes de empréstimos e investimentos, oferecimento de falsas promessas de emprego e lavagem de dinheiro com criptomoedas (Beach, 2025; Zan; Min, 2025). Percebe-se, portanto, um alto grau de convergência entre os delitos, onde o tráfico de pessoas está intimamente relacionado aos desdobramentos na esfera dos golpes digitais.     Enquanto laboratório internacional do crime organizado, a sub-região do Grande Mekong, que compreende Myanmar, China, Camboja, Laos, Tailândia e Vietnã, hoje vê uma acentuação do fluxo transfronteiriço de drogas. Há evidências de que, em múltiplas zonas fronteiriças, milícias e agentes formais de segurança cobram taxas para proteger as centrais golpistas e, em troca, obtêm receitas para movimentar substâncias ilícitas, financiar armamentos e consolidar posições territoriais disputadas (MacBeath, 2025). Internamente, a junta militar de Myanmar, no contexto de sanções internacionais e instabilidade nos centros urbanos, limitou o comércio de bens essenciais nas áreas fronteiriças e impôs uma série de restrições nacionais à importação, o que em contrapartida sufocou a economia formal e contribuiu para que a população fosse cooptada em atividades relacionadas aos golpes digitais e ao tráfico de drogas e armas (ISP, 2026).     Segundo estimativas do UNODC (2025a), o cultivo da papoula do ópio em Myanmar entrou em tendência de alta a partir de 2021. A planta, fonte primária de drogas como morfina e heroína, é uma das peças de um mercado ilícito aquecido, que hoje ultrapassa o entorno regional imediato e alcança países como o Japão e a Austrália (Peter, 2025). Dado o cenário interno de guerra civil e as repercussões diretas na atividade agrícola, esse aumento sugere a recente sofisticação do cultivo. Mais do que isso, o dado remete ao conceito de dilatação espacial dos mercados (Cepik; Borba, 2011), processo típico do COT onde ocorre o afastamento geográfico entre o produtor da matéria-prima traficada e o consumidor final.   Gráfico de barras da produção potencial anual de ópio em Myanmar. Fonte: United Nations Office on Drugs and Crime.     A dinâmica do tráfico internacional de drogas advindas do Triângulo Dourado também vem sofrendo alterações desde 2021. Impulsionados particularmente pelo estado de Shan, em Myanmar, a produção e o tráfico de substâncias ilícitas sintéticas na região, como metanfetamina e cetamina, aumentaram exponencialmente, o que é indicado por um número maior de conflitos e maiores quantidades apreendidas (Doyle, 2025). Indicando a intenção dos grupos criminosos de expandir o mercado de consumo de drogas sintéticas, a diversificação da distribuição por rotas que perpassam diferentes países é notável, envolvendo Malásia, Camboja, Indonésia, Índia e as Filipinas (UNODC, 2025b). Desde o Triângulo Dourado, as redes ilícitas se proliferam como produto de uma governança frágil, que molda a ação de migrantes, agentes fronteiriços e atores do crime.     Sabe-se que a complexa associação entre o COT e as forças políticas locais insere a junta golpista e a burocracia do Estado de Myanmar em uma série de relações obscuras, mas já parcialmente atestadas (Routray, 2023), ligando o financiamento das forças armadas ao tráfico de drogas. Futuras investigações sobre o tema hão de prover maior clareza sobre o papel ativo do Tatmadaw na economia ilícita, para além de uma tolerância calculada a partir de fins estratégicos, como já acontece com outros atores regionais. Considerações finais     Notoriamente, a transformação de Myanmar em um epicentro de atuação do crime organizado transnacional provocou desafios ainda não totalmente compreendidos, quanto menos respondidos, pela comunidade internacional. Elementos desse ecossistema criminoso, como o grau de convergência entre delitos, os vínculos de dependência formados sobre as comunidades locais e as relações entre instituições falidas, instâncias multilaterais paralisadas e agentes corruptos obscurecem a nossa capacidade de delinear soluções à crise. Atores externos deverão agir desde a complexidade desse quadro, priorizando o bem-estar da população civil antes de seus interesses imediatos.     Por fim, esta análise se dispôs a contribuir para a compreensão da dinâmica do crime e sua relação com a conjuntura myanmarense, a qual exemplifica a necessidade de incorporar outros atores para melhor interpretar o COT. Ainda, os obstáculos a nível humanitário, social e econômico intensificados pela atividade criminosa merecem maior atenção internacional, para além das páginas inertes de relatórios de organizações intergovernamentais. Nesse meio-tempo, entre drogas ilícitas e esquemas golpistas, entre governo e milícias, entre fuzis e teclados, o crescimento do crime organizado transnacional associado a Myanmar continuará a exigir esforços analíticos de internacionalistas. Nota:  A responsabilidade pelo conteúdo final desta análise de conjuntura é exclusiva do autor. O uso de Inteligência Artificial Generativa se limitou ao processo de investigação de referências (Perplexity AI e Google NotebookLM), comparação entre referências selecionadas (Google NotebookLM) e ao apoio na revisão textual (Google Gemini). Referências ANDREAS, P.; NADELMANN, E. Policing the Globe: Criminalization and Crime Control in International Relations. Oxford: Oxford University Press, 2006. BEACH, H. Drugs, Scams and Sin: Myanmar’s War Has Made It the Global Crime Capital. The New York Times, 2 jan. 2025. Disponível em: https://www.nytimes.com/2024/12/31/world/asia/myanmar-drugs-crime.html. Acesso em: 9 abr. 2026. BERNSTEIN, D.; KEAN , L. 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      O PET-REL tem o prazer de anunciar a publicação da Revista Petrel (ISSN 2675-777X) volume 8, número 1, edição de abril de 2026, dedicada a explorar o amplo e diverso tema "Nações Desunidas: Os Dilemas das Instituições Multilaterais diante de Conflitos Contemporâneos". Esta edição, composta inteiramente por textos de autoria estudantil, reflete sobre os limites contemporâneos da governança institucional global para mitigar os conflitos entre Estados, considerando as dimensões política, econômica e humanitária. Em um contexto de enfraquecimento do multilateralismo, de disputas geopolíticas e de reconfiguração da lógica de segurança coletiva, esta coletânea busca ampliar o debate e incentivar uma reflexão crítica sobre as fraquezas e as contradições das instituições multilaterais. Convidamos a todos a mergulhar nessas discussões, ampliando seu entendimento sobre um dos mais significativos dilemas contemporâneos. Leia a Revista Petrel hoje e junte-se a nós na reflexão sobre essas questões críticas.     Apresentação: Nações Desunidas? Disputas e reconfigurações na ordem internacional Daniel Jatobá (Tutor PETREL/UnB) A ONU fala, o mundo não escuta: a crise performativa da diplomacia global  Giovanna Regina Alves da Silva (UnB)  Mais que uma ameaça, um desafio: a irrupção da ordem internacional pela extrema direita   Cecília Dias (PETREL/UnB) Sistema Fora do Ar: o Multilateralismo na Era da Ciberguerra   Maria Eduarda da Silva P. dos Santos (PETREL/UnB) Multilateralismo em disputa: a instrumentalização das instituições por EUA e Rússia e a fragmentação da ordem global  Douglas Freitas de Oliveira Silva (UnB) e Isadora Higa Hassum (UnB)  O fim de uma era? Instrumentalização, desdolarização e a busca por resiliência monetária no BRICS+   Amanda Rodrigues (UnB) e Carolina Bastos (PETREL/UnB) O multilateralismo da União Europeia diante da guerra híbrida com a Rússia  Helena Giusti (UnB) e Henrique Fernandes (UnB) “Homem ao Mar”: como pequenos Estados Insulares navegam nas incertezas de um multilateralismo exausto  Enzo de Oliveira Feliciano (UnB) O regionalismo é uma alternativa? A Aliança dos Estados do Sahel diante na ineficácia da ONU na região  Letícia Serrão (UnB) e Carla Iasmin Queiroz (UnB) A nova guerra sem bandeira: crime organizado e a erosão da governança multilateral na América LatinaJuliana Jaegger (PETREL/UnB) Enquanto Bukele grita, a OEA se calaGabriel Boaventura (PETREL/UnB) Crise Tarifária Trump–Petro (2025): Migração, Soberania e a Erosão do Acordo de Livre Comércio Colômbia–EUAJoão Gabriel Oliveira Luz (UnB) e Laryssa Aparecida Pereira Silva (UnB) From management to agency: is regional conflict resolution the answer for Haiti?Lenira Oliveira (PETREL/UnB) A ONU como instrumento de poder: paralisia no conflito iemenitaAnna Luiza Fagundes (PETREL/UnB) Paz no Reconhecimento: o desinteresse em prevenir e solucionar o genocídio palestinoBianca Pinheiro (PETREL/UnB) e João Paulo Urbano (PETREL/UnB) Conflitos em Curso: a Rivalidade Indo-Paquistanesa e o Controle dos Recursos Hídricos Júlia Medeiros (UnB) e Nicolas Koeller (UnB) Sudão: um retrato da crise do multilateralismo globalBárbara Gonçalves (PETREL/UnB) e Luísa Ribeiro (PETREL/UnB) Análise de Conjuntura: uma proposta de questões orientadoras e critérios de qualidade  Daniel Jatobá (Tutor PETREL/UnB)  

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    Carolina Bastos¹   O ciclo eleitoral e as eleições de 2025 representaram um momento conturbado na política tanzaniana. O país tem sido marcado, por décadas, pela primazia de uma lógica de consenso e união nacional, fundamentada na ideologia do ujamaa, propagada por Julius Nyerere, primeiro presidente do país, após a independência e consolidada pela dominação política de um só partido mesmo após a institucionalização do multipartidarismo. Com essa visão enraizada na própria cultura e vida social da Tanzânia, qualquer forma de dissenso e discordância eram entendidas a partir de uma lente de traição nacional, a qual beneficiava a harmonia em detrimento de qualquer contestação e conflito. Entretanto, esta análise argumenta que o cenário eleitoral do país em 2025 representou um sério questionamento da totalidade do consenso tanzaniano. Marcadas por uma alegada repressão, pela exclusão da oposição e por protestos populares violentos e inesperados, as eleições culminaram em uma ruptura com a lógica histórica de concordância. O conflito político e as contestações às estruturas políticas e institucionais do país deixam de ser escondidas e passam a tensionar, cada vez mais, um governo dominante que pode ter sua hegemonia política contada.   A construção do consenso como questão identitária A Tanzânia se tornou um sistema multipartidário de eleições em 1992, pelo efeito de pressões internas e externas. Anteriormente, o país adotava um sistema unipartidário, no qual eleitores votavam seus representantes dentro do partido dominante Chama Cha Mapinduzi (CCM, Partido da Revolução em português). Entre os determinantes internacionais do processo de instalação do multipartidarismo estavam o ambiente internacional de colapso de sistemas unipartidários na Europa e na África, além de pressões exercidas por instituições financeiras internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. No cenário doméstico, as elites urbanas, em especial, já não viam benefícios na estrutura unipartidária que centralizava conflitos verticais dentro do próprio partido (Whitehead, 2000). Em um panorama geral, o sistema unipartidário, apesar de restringir competição horizontal e oposição partidária, havia sido diligente na aplicação de eleições recorrentes, quinquenais desde 1965, e permitido, até certo ponto, contestações civis. Entretanto, construiu-se um sistema em que visões alternativas à legitimidade do partido dominante eram vastamente desconsideradas. Esse processo, em combinação à improbabilidade de reformas dentro de um mesmo partido, geraram um histórico de apatia política que, até certo ponto, permaneceu mesmo após a abertura para oposição partidária (Whitehead, 2000). Historicamente, a Tanzânia priorizou harmonia política e união nacional em detrimento da contestação, do questionamento e do dissenso (El Ouassif, 2025). Julius Nyerere, primeiro presidente do país e fundador do partido que viria a ser o CCM, e seus aliados propagaram a ideologia do ujamaa como projeto nacional após a independência tanzaniana em 1961 e a unificação com Zanzibar em 1964. Ujamaa, palavra em swahili que pode ser traduzida como relação ou vida familiar, era entendida por Nyerere como a base do socialismo africano, um conjunto de valores que destacam a importância comunitária, a igualdade e a participação social na construção nacional (Boesl, 2023). Esse ideário perpassou a construção política nacional do país, de forma a criar uma cultura que priorizasse a coesão, a disciplina coletiva e a uniformidade. O dissenso, então, foi equalizado à deslealdade e à ameaça aos valores nacionais, e foi institucionalizada uma estrutura oposta à competição em favor da manutenção da estabilidade. Criou-se uma cultura e uma lógica de consenso que encobria toda a vida política do Estado (El Ouassif, 2025). Assim, mesmo entre 1992 e 2025, após a instauração do multipartidarismo, o CCM mantém sua centralidade política, ganhando sucessivas eleições presidenciais com altas margens contra seus opositores (El Ouassif, 2025). Fundamentado no progresso e desenvolvimento nacional e trabalhando em prol de uma unidade uniforme que excluía a oposição por vias institucionais e técnicas, em vez de crises comedidas, o partido foi capaz de manter a lógica do consenso, colocando-se no papel de propagador do desenvolvimento e da estabilidade. “Não podemos permitir que as pessoas tornem político tudo e qualquer coisa, todos os dias. Quando iremos trabalhar e construir a nação?”, disse John Magufuli, presidente tanzaniano entre 2015 e 2021, à oposição e à população após sua eleição para presidência em 2015 (The Citizen, 2016). Construiu-se, portanto, em um longo processo histórico, um cenário em que levantar debates políticos amplos e críticos à estrutura consensual seria semelhante a contestar o desenvolvimento nacional, prática que se tornou intrínseca à nação tanzaniana como unidade nacional.   Primeiro mandato de Hassan e perpetuação estrutural Samia Suluhu Hassan assumiu o posto da presidência da Tanzânia em 2021, após a morte inesperada de Magufuli no mesmo ano. Seu mandato foi marcado por avanços em setores estratégicos, desenvolvimentos de infraestrutura e indústria, crescimento e estabilidade econômica, avanços na igualdade de gênero e uma resposta efetiva à saúde e à pandemia da COVID-19 (Magasi, 2024). No debate político, Hassan herdou um sistema arquitetado em torno do partido CCM, e procurou maneiras de equilibrar desestabilidades políticas internas e externas que haviam sido formadas ao longo dos últimos mandatos, a fim de manter sua centralidade (El Ouassif, 2025). Nessa conjuntura, começou um processo de recalibração do partido e da configuração política. A presidente incentivou a volta de figuras marginalizadas durante o governo de Magufuli, como o antigo ministro Bernard Membe, que havia sido expulso do partido por má conduta ética e, em sua percepção própria, por ameaçar a autoridade do líder ao almejar a nomeação para a corrida presidencial, e trabalhou em prol da reconciliação e coesão interna sem desestabilizar a hierarquia partidária (El Ouassif, 2025; Ng'Wanakilala, 2020). Sua retórica, ainda, foi marcada por discursos de inclusão e reconhecimento de necessidades populares, um pragmatismo não-convencional centrado no povo, criando uma imagem carismática e uma conexão com a população e com o progresso material do país (Zhang, 2023). Além disso, permitiu o retorno ao país de exilados políticos líderes da oposição, como Tundu Lissu e Godbless Lema, e uma abertura para discussão cívica e midiática maior, avanços que foram vistos internacionalmente como sinais de normalização política democrática. Nesse âmbito, renovou relações com parceiros de desenvolvimento e aumentou a atuação em órgãos regionais e multilaterais no sentido de uma diplomacia voltada ao desenvolvimento social e econômico (El Ouassif, 2025). Entretanto, esses avanços não foram acompanhados de reformas institucionais que vinham sido clamadas por setores da população e pela oposição. O governo de Hassan manteve um relativo controle da ordem política e perpetuou o consenso como fundamento nacional, trabalhando para desqualificar processual e retoricamente aqueles que desafiam a legitimidade sistêmica e partidária (El Ouassif, 2025). Assim, apesar da abertura em alguns setores, a governante foi capaz de mantê-la controlada e comedida para que não se chocasse com o consenso político. Por tal contexto, a recalibração de Hassan durante seu primeiro mandato exerceu um papel de reconstrução da imagem tanzaniana como ator cooperativo, democrático e moderado, mesmo enquanto preservava uma estrutura de ordem doméstica de centralidade política unipartidária. Assim, enquanto reforçava sua legitimidade política, minimizava desafiantes do consenso, de forma que oposição seria aceitável desde que construída a fim de manter seu poder, viabilizando uma conjuntura em que, por exemplo, apenas candidatos que não fossem ameaças reais a sua hegemonia fossem mantidos na corrida eleitoral de 2025. Segundo El Ouassif (2025), essa estratégia, ao mesmo tempo que garante estabilidade e continuidade, também limita o surgimento de uma política sintética e competitiva na medida em que a dissidência é gerenciada via inclusão seletiva ou restrições procedimentais. Assim, perpetuou a lógica consensual tanzaniana de “acomodar, absorver e reformular o dissenso” (El Ouassif, 2025, p. 6) dentro de limitações predispostas como aceitáveis.   Eleições de 2025, protestos e quebra identitária Nos últimos meses do processo eleitoral, o governo tanzaniano recebeu críticas da oposição e da comunidade internacional em relação a questões envolvendo direitos humanos. Em junho, especialistas independentes apontados pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas expressaram preocupação com o tratamento que vinha sendo conferido a ativistas, membros da oposição e jornalistas, que incluía, alegadamente, prisões e desaparecimentos forçados, intimidação e tortura. Nesse viés, urgiram com as autoridades para que parassem de esconder informações pertinentes aos casos e às vítimas e investigarem os responsáveis (OHCHR, 2025). Já a Anistia Internacional, movimento que atua na defesa dos direitos humanos, elaborou um relatório de pesquisa, lançado em outubro deste ano, logo antes das eleições gerais, em que se afirma haver uma séria crise de direitos humanos no país, com esta se estendendo, pelo menos, desde as eleições de 2020. Entre os apontamentos principais estão um arcabouço jurídico que permite a limitação da reunião e movimentação da oposição e de discursos alternativos, além de desaparecimentos forçados e mortes, tortura, acusações políticas e detenções incomunicadas (Amnesty International, 2025). Internamente, a oposição também levantou questões referentes à justa competição no processo eleitoral à medida em que partidos alternativos ao CCM foram barrados procedimentalmente da corrida. Tundu Lissu, líder do principal partido de oposição, Chama cha Demokrasia na Maendeleo (CHADEMA, Partido para Democracia e Progresso, em português), foi preso em abril de 2025 sob acusações de traição após pedir por reformas e eleições mais livres, e seu partido foi impedido de promover qualquer outro candidato ao recusar a assinatura do código de conduta oficial. Ainda, Luhaga Mpina, candidato presidencial do partido ACT Wazalendo, outro grande concorrente, foi desclassificado da corrida pela comissão eleitoral sob citação de violações procedimentais internas do partido (El Ouassif, 2025; CNN, 2025; Amnesty International, 2025). Sem concorrência significativa, o CCM esteve com seu caminho livre para reeleger Hassan a um segundo mandato no dia 29 de outubro de 2025. Entretanto, as eleições trouxeram consigo grandes levantes populares, inesperados e atípicos no país. Protestos foram organizados pela geração mais nova, que já não se vê representada pelo partido dominante, e tomaram as ruas do país na semana que seguiu as votações. Em resposta, uma grande onda de violência foi vista. Protestantes foram reprimidos, feridos, mortos e presos, além de submetidos a toques de recolher. Ainda não há números oficiais, mas as Nações Unidas citam centenas de mortos, enquanto a oposição e ativistas de direitos humanos citam mais de 1000. A internet e algumas redes sociais foram restringidas entre 29 de outubro e 3 de novembro, e a população ficou no escuro enquanto eram contados os votos e os mortos. Centenas de pessoas envolvidas nas demonstrações foram denunciadas por crimes pela promotoria, incluindo 145 acusadas de traição (CNN, 2025; OHCHR, 2025; The EastAfrican, 2025; Amnesty International, 2025). Os resultados das eleições, em que Hassan foi eleita com 97,66% dos votos, trouxeram grandes dúvidas e ceticismo quanto à validade e transparência do processo eleitoral. A União Africana e a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) criticaram a transparência da vitória eleitoral, negando seu atendimento aos padrões democráticos aceitos e citando fraude eleitoral, repressão e falhas sistêmicas. Além disso, o CHADEMA rejeitou os resultados e afirmou sua completa fabricação (BBC, 2025; The EastAfrican, 2025). Na constituição tanzaniana, a decisão eleitoral, depois de anunciada, não pode ser contestada judicialmente, independente das falhas que tenham sido apresentadas ao longo do processo (The EastAfrican, 2025). Nesse ínterim, a presidente tomou posse logo no dia 2 de novembro, em uma cerimônia fechada ao público, reforçando, em seu discurso de aceite, sua legitimidade e a validade das eleições, renegando qualquer interferência externa no país (The Guardian, 2025). A crise que seguiu as eleições tanzanianas representa uma ruptura profunda com a lógica do consenso e da estabilidade historicamente intrínseca à política do país. O dissenso — durante décadas entendido como traição nacional e antítese do projeto político e identitário formulado a partir da ideologia do ujamaa e concretizado pela dominação política do CCM — deixou de ser comedido. As discordâncias já não podem, ou não devem, ser enquadradas como ameaças à coesão nacional e, portanto, controladas, ainda mais quando são profundas e instigam quebras na percepção da população. Agora, a desarmonia já não opera nos bastidores nem se limita a murmúrios isolados: ela é aberta, articulada e carrega consequências significativas tanto no debate público quanto na arena institucional. Manifesta-se nas ruas, nas redes sociais e em críticas de figuras políticas e internacionais relevantes. Esse novo clima de contestação desafia diretamente o imaginário de um país unido sob um único projeto político, questionando a suposta inevitabilidade do consenso. Este cenário pode ser interpretado, em partes, como efeito de uma virada geracional, em que a juventude, mais conectada ao exterior e cética em relação aos limites determinados, já não aceita a totalidade do CCM e seu empenho político no país (BBC, 2025), percebendo o que era celebrado antes por sua estabilidade como repressão e estagnação. Todavia, seria evidente, mesmo que não fosse notável a centralidade jovem nos protestos, que a histórica identidade política tanzaniana construída no consenso e na apatia está sob crescente tensão. A oposição já se faz mais ouvida a ponto de ser excluída da corrida eleitoral, e atores internacionais já não apoiam a Tanzânia por seu cumprimento democrático e sua abertura. Embora ainda seja cedo para afirmar que esse modelo está superado, torna-se cada vez mais claro que seus pilares já não são indiscutíveis. A crise pós-eleitoral expôs rachaduras no arranjo social tanzaniano, as quais apontam para um futuro no qual o conflito político, longe de ser reprimido, deve ser reconhecido como parte legítima da vida democrática.   Considerações finais A crise que segue a reeleição da presidente Hassan para um novo mandato na Tanzânia indica, antes de tudo, um severo descontentamento populacional com o estado político do país, e um empenho do partido dominante em manter sua centralidade política e sua dominação da lógica cultural tanzaniana. A estratégia de recalibração da governante, embora eficaz em setores como a diplomacia e na recuperação de quadros partidários, demonstrou ser insuficiente para conter tensões acumuladas pela falta de competição e pelas restrições democráticas, determinando um fracasso da inclusão seletiva frente ao ímpeto eleitoral de 2025. A onda de violência e a rejeição dos resultados eleitorais, tanto internamente quanto por observadores internacionais, revelam que o mecanismo de "acomodar, absorver e reformular o dissenso" (El Ouassif, 2025) chegou a seus limites. A discordância, agora manifestada abertamente, é articulada por uma nova geração que não compartilha mais a apatia política histórica nem aceita a equivalência entre o CCM e a estabilidade nacional. O desafio imposto pela crise de 2025 é, portanto, de natureza estrutural e identitária. Embora o CCM tenha garantido a continuidade do seu poder, o entendimento social que sustentava sua colocação está prejudicado. É questionável se o sistema dominante será capaz de incorporar o conflito como elemento legítimo da democracia ou se intensificará alguma forma de repressão. No entanto, a visibilidade e a escala da contestação pós-eleitoral sugerem que o retorno à lógica e à ordem do consenso indiscutível será, no mínimo, insustentável a longo prazo. As considerações futuras para o país, dessarte, exigem reformas que permitam a emergência de uma política sintética e genuinamente competitiva.   [1] Esta análise considerou os eventos até 29 de novembro de 2025, e eventuais mudanças significativas no desenrolar dos acontecimentos correlatos desde então não foram consideradas pela autora.   Referências ANAMI,  L. AU condemns Tanzania elections as undemocratic, urges reforms. The EastAfrican, 06 nov. 2025. Disponível em: https://www.theeastafrican.co.ke/tea/news/east-africa/au-condemns-tanzania-elections-as-undemocratic-urges-reforms-5254764. Acesso em: 13 nov. 2025.   ASSOCIATED Press. What to know about a disputed election in Tanzania, where single-party rule is being challenged. CNN, 31 out. 2025. Disponível em: https://edition.cnn.com/2025/10/31/africa/tanzania-opposition-dispute-election-intlhttps://edition.cnn.com/2025/10/31/africa/tanzania-opposition-dispute-election-intl. Acesso em: 15 nov. 2025.   NG'WANAKILALA, F. 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  • Destaques

    Maria Eduarda S. P. Santos A partir de 2024, a emergência de um novo cenário monetário internacional passou a ganhar força, impulsionada pelo avanço da desdolarização e pela ascensão de moedas alternativas ao dólar no comércio global. Nesse contexto, a China tem promovido um redesenho da arquitetura financeira internacional, tendo o yuan como protagonista e a Nova Rota de Seda como principal instrumento geoeconômico. A hegemonia do dólar, construída desde o acordo de Bretton Woods em 1944 e reforçada com o sistema do petrodólar nos anos 1970, baseia-se na liquidez da moeda americana, na profundidade do mercado financeiro dos EUA e na centralidade institucional de mecanismos como o SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication no inglês ou Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais no português), sistema que tem como principal função permitir a troca de informações bancárias e transferências financeiras entre as instituições financeiras de dois países ou mais. No entanto, como apresentado por Bandeira (2024), esses fundamentos começaram a ser corroídos por dinâmicas recentes que aceleraram a busca por um sistema mais multipolar e resiliente. O projeto da Nova Rota da Seda, ou BRI, do inglês, foi lançado oficialmente em 2013, e evoluiu de um mega projeto de infraestrutura física para um ecossistema estratégico de integração financeira. Wong (2023) aponta que em sua nova fase, a BRI serve como plataforma para expansão da utilização do yuan em contratos bilaterais com países da Ásia Central, África, América Latina e Oriente Médio. Essa mudança está atrelada à construção de uma infraestrutura institucional paralela, como o CIPS (Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços), que oferece uma alternativa ao SWIFT e viabiliza liquidações fora do circuito dolarizado. Desse modo, essa análise de conjuntura busca examinar o atual estágio do processo de desdolarização à luz da ascensão econômica da China e da crescente projeção internacional do yuan como moeda de comércio. Buscando avaliar em que medida essa dinâmica pode representar uma transição rumo a uma nova arquitetura monetária global, capaz de desafiar, ou mesmo substituir, a centralidade do dólar no sistema internacional. A Construção de um Sistema Financeiro Alternativo: A Ascensão do Yuan no Sul Global O impulso por trás da desdolarização resulta da convergência entre fatores geopolíticos, econômicos e institucionais. A China, diante do aumento recente do uso político e militar do dólar pelos Estados Unidos, sobretudo por meio de sanções econômicas e congelamento de reservas internacionais, passou a intensificar sua busca por autonomia monetária. A atribuição de tarifas de importação feita pelos EUA, conhecida como “Tarifaço”, por exemplo, gerou forte comoção entre as economias mundiais, gerando uma alta procura de alternativas de mercados consumidores pelo mundo. Nesse cenário, a estratégia chinesa para consolidar o yuan como alternativa viável é multifacetada. Ela envolve, de um lado, o fortalecimento de acordos bilaterais com liquidação em moedas locais e, de outro, a atuação em fóruns multilaterais, como o BRICS. A adesão de países como Egito, Irã, Etiópia e Arábia Saudita ao grupo, em 2024, reforça o caráter geoeconômico do bloco, que passa a desempenhar papel ativo na construção de um ecossistema financeiro alternativo. Nesse sentido, iniciativas como o BRICS Pay — plataforma que “busca integrar moedas nacionais dos países-membros, permitindo a liquidação direta das transações, sem necessidade de intermediários ocidentais” (Bueno, 2025) — e os avanços no desenvolvimento de uma moeda digital comum entre os membros refletem a tentativa de institucionalizar mecanismos de liquidação fora do circuito dolarizado. O fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e os acordos de swap — estes sendo definidos por Ana Tereza Lopes Marra de Sousa e William Daldegan (2020) como o comprometimento de uma autoridade monetária em troca uma moeda nacional, que seja emitida por ela, por outra moeda, que deverá ser emitida e avalizada por alguma outra autoridade monetária — entre bancos centrais do BRICS também caminham nessa direção, promovendo uma infraestrutura que permite transações em moedas locais, sem passar por Nova York ou Londres. Por outro lado, a resposta dos Estados Unidos à ofensiva chinesa tem sido predominantemente reativa e marcada pela intensificação de sanções. Essa postura, no entanto, tem efeitos paradoxais: embora procure defender a centralidade do dólar, contribui para aprofundar a percepção de vulnerabilidade associada à dependência da moeda americana. Segundo dados do FMI e do World Gold Council de março de 2025, a participação do dólar nas reservas globais caiu para cerca de 57%, o menor nível desde os anos 1990. Esse declínio gradual revela uma tendência estrutural de diversificação cambial, acelerada pela reconfiguração das alianças econômicas globais e pelo avanço das alternativas monetárias promovidas pela China e seus aliados. No plano geopolítico, a disputa entre Estados Unidos e China molda a arquitetura financeira emergente. Enquanto os EUA apostam na centralização regulatória e em sua rede de alianças para preservar a preeminência do dólar, a China oferece a promessa de uma ordem mais descentralizada, com menor imposição política atrelada às relações econômicas. Deste modo, países como a Rússia, o Irã e a Venezuela, que enfrentam isolamento financeiro imposto pelo Ocidente, têm se integrado a sistemas alternativos como o CIPS, estabelecendo interconexões que reforçam a viabilidade técnica de um sistema desdolarizado. Dessa forma, o contexto político interno dos Estados Unidos adiciona um elemento de incerteza. As atitudes do presidente recém-reeleito, Donald Trump, trouxeram à tona visões sobre o papel internacional do país, e, embora o novo governo tenha sinalizado continuidade na defesa do dólar como moeda hegemônica, sua capacidade de conter o avanço de soluções alternativas permanece limitada diante da crescente autonomia financeira de atores estratégicos. Com essa visão, a desdolarização emerge não apenas como uma resposta a sanções ou como instrumento de poder econômico da China, mas como expressão de um novo arranjo sistêmico, no qual múltiplos centros de emissão e regulação monetária coexistem. O processo ainda é assimétrico e fragmentado, mas caminha para um ponto de inflexão que poderá redefinir os fundamentos da governança financeira internacional nas próximas décadas. Um Sistema Monetário em Transição: Substituição ou Convivência? É perceptível que a desdolarização não representa, até o momento, a substituição abrupta do dólar por outra moeda. A lógica predominante é a da coexistência assimétrica e da diversificação estratégica. O dólar permanece amplamente dominante em contratos financeiros globais, títulos soberanos e nas reservas da maioria dos bancos centrais do G7. Sua resiliência está ancorada na confiança institucional do sistema financeiro ocidental, na liquidez de seus ativos e na profundidade de mercado dos EUA. Contudo, o crescimento do yuan é inequívoco. Sua participação no comércio internacional aumentou, especialmente nos fluxos Sul-Sul, envolvendo países que mantêm relações privilegiadas com a China. No comércio entre China e Rússia, por exemplo, o yuan já supera o dólar como moeda de referência. Nos contratos com Arábia Saudita, Irã e Brasil, observa-se o mesmo padrão emergente de uso da moeda chinesa. A substituição gradual do dólar se manifesta de forma mais visível nos contratos bilaterais e nos sistemas de pagamento paralelos. O avanço do yuan, nesse sentido, não é apenas funcional, mas também simbólico: representa a rejeição de uma ordem financeira centralizada no Ocidente e a tentativa de construir uma nova gramática monetária baseada na multipolaridade. Ainda assim, a moeda chinesa enfrenta obstáculos consideráveis. A participação do yuan nas reservas globais é ainda modesta, e o mercado financeiro chinês permanece relativamente fechado, com limitações à livre conversibilidade da moeda e persistente intervenção estatal. A confiança internacional na estabilidade do yuan ainda está em construção e a transparência regulatória é uma questão sensível para investidores estrangeiros, uma vez que “ainda, os mercados internacionais e as Empresas Multinacionais sentem-se mais confortáveis em transacionar com o dólar” (Nakai, 2003). A disputa entre dólar e yuan também se estende ao plano tecnológico. Enquanto os Estados Unidos permanecem hesitantes na implementação de uma moeda digital soberana, temendo seus efeitos sobre o sistema bancário tradicional, a China avança com o e-CNY (Yuan Digital), ampliando sua integração com redes comerciais da BRI. Essa assimetria pode acelerar a adoção do yuan digital como instrumento de liquidação transfronteiriça, sobretudo em regiões onde a presença chinesa é estrutural. Considerações Finais: Em um Bordado a China Costura sua Presença no Sistema Financeiro  A desdolarização promovida pela China por meio da Nova Rota da Seda constitui um movimento estratégico que visa redesenhar as bases do sistema monetário internacional. Ao fomentar acordos de liquidação em moedas locais, investir em infraestrutura de pagamentos alternativa e promover o yuan como instrumento de comércio e reserva, Pequim desafia diretamente a centralidade do dólar. Contudo, a substituição plena do dólar é improvável no curto prazo. A moeda americana ainda goza de vantagens estruturais profundas, como a confiança de mercado, o tamanho da economia dos EUA e a inércia institucional do sistema financeiro global. O que se observa, portanto, é uma reconfiguração gradual, na qual o dólar cede espaço em determinadas frentes, especialmente no Sul Global, enquanto o yuan consolida seu papel como moeda regional e funcionalmente relevante. A verdadeira disputa em curso não é apenas monetária, mas geopolítica: trata-se de duas visões concorrentes de governança global. O dólar representa um modelo liberal e descentralizado, vinculado ao livre mercado e às instituições de Bretton Woods, já o yuan, por sua vez, carrega uma proposta mais estatal, regulada e orientada por interesses estratégicos. A trajetória dessa disputa moldará, nas próximas décadas, os contornos da nova ordem econômica internacional. Referências   BANDEIRA, P. L. S. 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Manuais

Com o acontecimento do nosso Laboratório de Análises de Relações Internacionais (LARI), e, consequentemente, a preparação do boletim de conjuntura, o PET-REL aproveita para tornar público o manual de análises e referências ABNT.

 

Com o manual, todos os acadêmicos que desejarem, após o LARI, publicarem em Petrel - Boletim de Conjuntura com uma análise de autoria própria, poderá guiar-se a partir dele.

 

Para acessar o Manual de Análises e Referências, basta clicar aqui.

 

Caso queira acessar a versão mais atualizada deste manual, por favor acesse nosso Mini-Guia de Escrita de Análise de Conjuntura.

 

 

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