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      O PET-REL tem o prazer de anunciar a publicação da Revista Petrel (ISSN 2675-777X) volume 9, número 2, edição de agosto de 2026, dedicada a explorar o amplo e diverso tema "Autoritarismo Digital: Um novo regime de poder global?". Esta edição reúne análises estudantis que exploram como as tecnologias digitais vêm transformando as formas contemporâneas de exercício do poder, ultrapassando a dimensão tradicional da vigilância para alcançar plataformas privadas, soberania tecnológica, desinformação, conflitos, fronteiras, gênero, inteligência artificial e memória coletiva. Ao reunir diferentes experiências nacionais e perspectivas sobre as relações entre Estados, empresas e infraestruturas digitais, a coletânea busca compreender como esses processos reconfiguram conceitos fundamentais das Relações Internacionais, como soberania, segurança, autoridade e legitimidade. Convidamos todos a mergulhar nessas discussões e a refletir criticamente sobre as novas arquiteturas que vêm moldando o poder político no mundo contemporâneo. Leia a Revista Petrel hoje e junte-se a nós neste debate.   Revista Petrel "Autoritarismo Digital: Um novo regime de poder global?"   Apresentação: Para além da vigilância: autoritarismo digital e as novas arquiteturas do poder Daniel Jatobá (Tutor PETREL/UnB) O delírio como refúgio social: a psicodinâmica do medo e a ascensão do autoritarismo digital no QAnon  Anna Luiza Fagundes (PETREL/UnB) e João Gabriel Luz (UnB) Entre Algoritmos e Aventais: a ascensão das tradwives no ecossistema do conservadorismo digital   Bethânia Soares Pina (UnB) e Maria Eduarda S. P. Santos (PETREL/UnB) Narrativas à venda para a desinformação eleitoral: do caso francês ao esloveno  Celine Assami Kano (UnB) e Maria Eduarda Caglia Bragança Amendoeira Nunes (UnB) Entre tribunais e plataformas: a disputa pela autoridade na era das Big Techs  Bárbara Gonçalves (PETREL/UnB) e Luísa Ribeiro (PETREL/UnB) Regulando Plataformas Digitais: A Economia Política das Big Techs   Vitório Domingues (UnB) e Mateus Reschke (UnB) Integração digital na Amazônia brasileira: o poder infraestrutural do Estado e sua relação no caso da Starlink  Gabriel Munir (UnB) e Matheus Felipe Barbosa (UnB) Como o colonialismo de dados afeta as infâncias e adolescências no Brasil?  Letícia Taveira Cabral (UnB) Entre a independência e a submissão: a Índia como laboratório do autoritarismo digital  Daniel Vianna (PETREL/UnB) The co-production of digital authoritarianism in China’s surveillance systemLuca Reis Ferreira (PETREL/UnB) O avanço do reconhecimento facial na segurança pública brasileiraJuliana Jaegger (PETREL/UnB) É preciso estar atento e forte: tecnoautoritarismo e as eleições brasileiras de 2026João Pedro Fraim Monteiro (UnB) e Victor Gomes Normandio (UnB) Apagão e apagamentos: a estratégia de repressão dos protestos no IrãGabriel Boaventura (PETREL/Unb) e Bianca Pinheiro (PETREL/UnB) Conflitos, minorias e limites de formar e guardar memória coletiva no digitalCarolina Bastos (PETREL/UnB) The Securitization of Connectivity: Tactical Internet Shutdowns as an Emerging Instrument of DigitalNícolas Alves Martins Fernandes (UnB) A Desertificação Digital no Sahel: o Processo de Desinformação Sistemática em Mali, Burkina Faso e Níger Enzo de Oliveira Feliciano (UnB) e Viviani Ananias Vieira (UnB) Repressão sem Fronteiras: Gênero e Autoritarismo Digital no IrãRaíssa Pankush (PETREL/UnB) e Yasmin Taia (PETREL/UnB) O Autoritarismo Digital Emiradense e a Criminalização da RealidadePedro Marcelo (UnB) e Lívia Manso (UnB) Technofascism in plain sight: Surveillance Capitalism and the Palantir caseCecília Dias (PETREL/UnB) and Júlia Melo (UnB) Tecnologia e securitização: o controle de refugiados no novo Pacto europeuAna Luiza Saramago (UnB) e Julia Machado (UnB)

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    por Daniel Vianna    Há quem diga que sempre mudamos a forma de agir para nos adaptarmos ao ambiente em que estamos inseridos. Parece ser um mecanismo natural do ser humano, uma conduta inconsciente para preservação da sanidade.  O roteirista estadunidense Dan Erickson capturou essa tendência em seu extremo na série “Ruptura”, lançada em 2022. Na história, acompanhamos um grupo de funcionários da Lumon Industries, empresa que executa um método para isolar as memórias de seus empregados no ambiente do trabalho, fazendo com que esqueçam de suas vidas externas. Ao se submeterem ao processo, também chamado de ruptura, as memórias do ambiente de trabalho se esvaem assim que o expediente se encerra. A vida segue e as consequências de seus ofícios não se manifestam em suas consciências. Afinal, como se impactar por algo que não se vê e sobre o qual não se reflete? A cinematografia se torna tão mais assustadora quanto bela à medida em que vemos a realidade emular o lúdico, ou mais precisamente, o distópico. A conjuntura observada no Irã não revela apenas o palco de uma tragédia humana, mas a profusão de novos métodos de planejamento e execução de movimentos militares.    O estado da arte: onde os cegos afiam suas lâminas.   O atual conflito no Irã se iniciou no dia 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel lançaram um ataque coordenado a vários alvos no território iraniano, incluindo líderes políticos e militares (CNN Brasil, 2026). O pretexto afirmado foi a necessidade de contenção do programa nuclear iraniano e a redução da influência militar do país na região. Após o ataque, o Irã retaliou com centenas de mísseis e drones contra Israel e bases estadunidenses no Golfo, transformando o que era um atrito limitado em um conflito aberto de impactos globais. Até meados de abril, a mídia estatal iraniana afirmou que mais de 3 mil pessoas — entre homens, mulheres e crianças —  foram mortas em ataques (CNN Brasil, 2026).     Nessa arena, observa-se o progressivo distanciamento entre os executores e suas vítimas e, mais além, a artificialização de processos decisórios inteiros, a despeito de seus resultados potencialmente catastróficos.  A partir de tal recorte, esta análise tem por objetivos examinar a utilização de inteligências artificiais nos aparatos bélicos estadunidenses, além de refletir sobre os futuros impactos da despersonalização das táticas de guerra no Oriente Médio.     Do conforto do lar, faço ruir suas estruturas: o caminho para a frieza.   A manipulação remota de aparatos militares não é novidade. Os primeiros drones2 foram utilizados no início do século XX, às alturas da Primeira Guerra Mundial (Chamayou, 2015). Naquele contexto, o máximo que a tecnologia pôde realizar foi a construção de pequenas aeronaves controladas via rádio, incapazes de agregar na atuação operacional de conflitos (IWM, 2025). A partir desse episódio, o passar das décadas trouxe consigo a evolução frenética das possibilidades de utilização de drones e esgarçou, paulatinamente, o fio ético e humano que vinculava minimamente o executor a suas vítimas. A virada de chave na cristalização do distanciamento operacional como método militar costumeiro dos Estados Unidos se deu na deflagração dos atentados de 11 de setembro de 2001(Adelman; Kieran, 2020). A partir de tal episódio, os EUA passaram a utilizar ferramentas de controle remoto de forma ostensiva em suas incursões militares, especialmente nas ocorridas no Oriente Médio. Iraque e Afeganistão, por exemplo, foram laboratórios para o refinamento de tecnologias de drones estadunidenses (BBC News, 2019). Até esse ponto, a leitura realizada pelo filósofo francês Grégoire Chamayou dá conta de abarcar a extensão da ferida que a utilização de tais ferramentas abriu no tecido ético da humanidade. Em sua principal obra, “Teoria do Drone”, Chamayou identifica que a manipulação de tais artefatos permite “projetar poder sem projetar vulnerabilidade” (2015). Nesse recorte, a tecnologia converte o combate em uma caça unilateral, revestida por um conjunto de “amortecedores morais” que distorce as perspectivas éticas existentes em um conflito e constrói uma compartimentalização leviana do ofício de matar. Assim como ilustra Erickson e pontua Chamayou, os operadores de drones oscilam abruptamente entre um “eu-de-guerra” e um “eu-de-paz”(Chamayou, 2015). A ruptura torna-se, portanto, a única via para suportar um cenário tão atroz. E quando a equação recebe a incidência da inteligência artificial (IA), a automação se empodera e o processo decisório se distancia radicalmente de qualquer freio civilizatório. Os olhos se fecham radicalmente, as reflexões cessam e a morte se converte em um mero ativo estatístico.   Palco da artificialização extrema e testemunha da iniquidade.   A abordagem estratégica utilizada pelo Departamento de Guerra dos Estados Unidos é um dos pontos críticos do conflito insistentemente sustentado no Irã. Pete Hegseth, secretário de Guerra dos EUA e símbolo da pouca competência da administração de Donald Trump, veio a público para defender que as Forças Armadas estadunidenses se consolidem como uma força de combate “prioritariamente baseada em IA” (BBC, 2026). E é esse ímpeto inepto que se observa nos ataques às estruturas iranianas.  A imersão da Casa Branca no emprego de IA em ataques ao regime iraniano é resultado de um processo iniciado em 2017, quando o então Departamento de Defesa criou o “Projeto Maven”, uma parceria estreita entre o governo e as big techs estadunidenses para aplicar o aprendizado de máquina à operação de drones (Probasco, 2024). O aliado mais astuto da mesa é Peter Thiel, dono da empresa Palantir e um dos baluartes da utilização massiva de dados para fins militares. Nessa cadeia, as informações colhidas pelo império de Thiel são processadas e manipuladas por empresas de IA generativa, como Anthropic e OpenAI (Meireles, 2026). Sob tal ótica, a celeridade operacional dos Estados Unidos observada no Irã, manifestada no alto volume de alvos atingidos em um curto período de tempo — aproximadamente mil em apenas 24 horas —, não está assentada na competência de oficiais norte-americanos (The Washington Post, 2026). O suporte de ferramentas de inteligência artificial atua como fator determinante no processo decisório, acelerando a análise de dados e, acima disso, a seleção de alvos (The Washington Post, 2026).  Ao se eximir da responsabilidade humana de identificar e localizar alvos, interpretar a legalidade da movimentação e orientar execuções, incumbências delegadas à IA a partir do Projeto Maven (Probasco, 2024), o agente assume uma função quase mecânica, fabril. Antes, oficiais precisariam identificar os alvos a olho nu em imagens captadas por satélites, cruzando-as com outras informações para evitar erros. Agora, nota-se a expansão do cinismo em relação à morte, catalisada pelo fato de que até mesmo a reflexão estratégica diante dos dados se faz cada vez mais inútil. Dessa forma, o “eu-de-paz” transita impassível entre os escombros da morbidez, encoberta pelas camadas de amortecimento moral fornecidas pela máquina. A título de demonstração, os bombardeios de 28 de fevereiro a Teerã mataram ao menos 175 civis, a maioria crianças, ao atingir uma escola (The New York Times, 2026). Apesar do fato de que os Estados Unidos não tenham assumido a responsabilidade pelas mortes, o conjunto de evidências reunido pelo jornal The New York Times indica que o prédio foi alvo de um ataque de “precisão” (The New York Times, 2026).  Até 2013, o prédio da escola fazia parte da base naval da Guarda Revolucionária do Irã3, mas sua função é desvinculada da instituição política e militar desde então (The New York Times, 2026). As crianças e os professores da escola estavam em aula no momento em que suas vidas foram ceifadas. O articulador do plano dificilmente será identificado e punido. E o episódio retrata o resultado da despersonalização das táticas de guerra: a confiança cega em um algoritmo evidentemente incapaz de absorver lastros humanos e éticos; a conversão de vidas em elementos estatísticos. A despeito da testemunha dos fatos, o Pentágono sustenta que a atuação da máquina se limita à emissão de sugestões operacionais. No entanto, conflitos internos no governo estadunidense depõem contra essa narrativa.  Em seu contrato com o governo estadunidense, a Anthropic inseriu a condição de que suas ferramentas não fossem utilizadas para vigilância de civis ou aplicadas em armas totalmente autônomas (Meireles, 2026). Em contrapartida, o Departamento de Guerra exigiu que a empresa habilitasse o acesso irrestrito ao seu modelo de IA, o Claude. Caso contrário, o vínculo contratual seria suspenso. E Donald Trump assim o fez. Os circuitos de defesa passaram a ser regidos pelos algoritmos da OpenAI, que se curvou diante dos planos de Hegseth e Trump para desumanizar os planos militares dos EUA no Irã e em outras frentes, como na Ucrânia e em Gaza. A empresa não é a única presente no novo acordo: o Pentágono também anunciou a inserção da SpaceX, da Microsoft, da Oracle, da Nvidia, entre outras, nos planos operacionais dos Estados Unidos (CNN Brasil, 2026).   Nos encontraremos entre os lados da ruptura?   Nesse cenário, é evidente que o Irã não apenas se consolidou como um elemento chave para as leituras geopolíticas atuais, mas também como terra fértil para as novas tendências das relações internacionais, especialmente no que diz respeito à natureza dos conflitos. A inteligência artificial passou a ditar o ritmo da guerra, e as agressões entre Estados Unidos, Israel e Irã nos sinalizam que a nova doutrina veio para ficar (Jornal Opção, 2026). As novas tecnologias furaram velozmente a bolha dos EUA e se expandem diuturnamente por entre as estruturas de defesa de atores centrais. Na conjuntura em apreço, Israel e Irã também têm implementado, em menor escala, o aprendizado de máquina em suas operações. Como em uma corrida, a tendência é que as demais peças do tabuleiro internacional não se acomodem em suas novas desvantagens e busquem aplicar condutas semelhantes. Diante disso, surge um debate inadiável: quais são os freios necessários para mitigar a despersonalização da guerra?  A discussão atravessa primariamente a necessidade de pavimentar os caminhos para a identificação dos responsáveis morais e jurídicos por operações ilícitas regidas por inteligências artificiais. O vácuo de responsabilidade gerado pela autonomia da máquina exige que a comunidade internacional explore recursos para restabelecer o controle humano sobre o algoritmo e garantir que as consequências recaiam sobre os culpados (Boothby, 2025). Os olhos devem ver e o coração deve sentir.  Ademais, há de se reconhecer a complexidade de uma questão que não somente se expande, mas também se entremeia nas mais diversas fileiras da sociedade. A tática de guerra sobrepuja a dimensão político-militar e se atrela umbilicalmente no escopo de atuação de grandes empresas. Sob as batutas de donos de grandes big techs, a razão de ser do conflito supera os critérios geopolíticos e embarca em um novo tipo de mercado, mais sofisticado e sutil. Enquanto o mercado armamentista enfrenta problemas crônicos de discrição, o mercado algorítmico se manifesta tanto nas redes sociais que consumimos todos os dias, quanto na morte de crianças inocentes. As mesmas empresas que nos oferecem soluções revolucionárias, revelam a face mais miserável da humanidade. Os lados da ruptura, o “eu-de-guerra” e o “eu-de-paz”, se encontram, mas não se reconhecem. A observação da conjuntura em questão indica que o combate à desumanização do outro passa pelo processo de compreensão de que, apesar de não haver imaculados entre as partes conflitantes, o respeito aos limites éticos e morais da guerra é inegociável. Sob esse ângulo, o futuro aponta para limites cada vez mais sensíveis, no Oriente Médio e no mundo, e a reflexão humana, por sua gradativa escassez, deve se tornar um ativo cada vez mais precioso na definição dos rumos que seguimos e da forma que enxergamos o outro.   Notas  [1] Esta análise utilizou recursos de inteligência artificial para apoio na prospecção bibliográfica. O conteúdo do material é de inteira responsabilidade do autor. [2] Termo utilizado no léxico militar estadunidense para se referir a qualquer objeto que pode ser controlado à distância, seja terrestre, marítimo ou aéreo. [3] A Guarda Revolucionária do Irã (oficialmente, Corpo da Guarda da Revolução Islâmica - IRGC) é uma organização militar paralela às forças armadas regulares do país, estabelecida em 1979 após a Revolução Islâmica. Sua diretriz primordial é a defesa do sistema teocrático e a prevenção de dissidências internas ou de interferências estrangeiras. Atualmente, a organização exerce profunda influência não apenas no aparato de defesa governamental, controlando, a saber, o programa de mísseis balísticos e as operações navais no Golfo Pérsico, mas também nas esferas política e econômica iranianas.   Referências  ADELMAN, Rebecca A.; KIERAN, David. Remote warfare: new cultures of violence. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2020   BBC NEWS. Como o uso de drones mudou o cenário dos combates no Oriente Médio. BBC News Brasil,  18 set. 2019. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-49748760. Acesso em: 6 de  maio de 2026.BBC NEWS. Pentagon says US military will be an ‘AI-first’ fighting force. BBC News, 1 maio de 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/cy02gjq2987o. Acesso em: 9 maio 2026   BOOTHBY, Bill. AI warfare and the law. Newport, RI: Stockton Center for International Law, U.S. Naval War College, 2025. (International Law Studies, v. 104). ISBN/ISSN 2375-2831.   CHAMAYOU, Grégoire. Teoria do drone. Tradução de Célia Euvaldo. São Paulo: Cosac Naify, 2015.   CNN BRASIL. Mais de 3 mil iranianos foram mortos durante a guerra, diz mídia estatal. CNN Brasil, 11 abr. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/mais-de-3-mil-iranianos-foram-mortos-durante-a-guerra-diz-midia-estatal/. Acesso em: 6 de maio de 2026.   CNN BRASIL. Pentágono fecha acordo com 8 big techs após ter deixado de lado Anthropic. CNN Brasil, 3 maio 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/negocios/pentagono-fecha-acordo-com-8-big-techs-apos-ter-deixado-de-lado-anthropic/. Acesso em: 10 maio 2026.   FOLHA DE S.PAULO. Guerra no Irã consolida Oriente Médio como laboratório de uso de IA em conflitos. Folha de S.Paulo, 7 mar. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/03/guerra-no-ira-consolida-oriente-medio-como-laboratorio-de-uso-de-ia-em-conflitos.shtml. Acesso em: 6 maio 2026.   FOLHA DE S.PAULO. Análise do New York Times liga ataque a escola no Irã aos Estados Unidos. Folha de S.Paulo, mar. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/03/analise-do-new-york-times-liga-ataque-a-escola-no-ira-aos-estados-unidos.shtml. Acesso em: 9 maio 2026.   G1. Nos EUA, uso de inteligência artificial na guerra no Oriente Médio vira disputa na Justiça. G1 – Jornal Nacional, 11 mar. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/03/11/nos-eua-uso-de-inteligencia-artificial-na-guerra-no-oriente-medio-vira-disputa-na-justica.ghtml. Acesso em: 9 maio 2026.   IMPERIAL WAR MUSEUMS (IWM). A brief history of drones. Imperial War Museums, Londres, 2025. Disponível em: https://www.iwm.org.uk/history/a-brief-history-of-drones. Acesso em: 6 de maio de 2026.   JORNAL OPÇÃO. Quem comanda o atual conflito no Oriente Médio é a Inteligência Artificial. Jornal Opção, 14 mar. 2026. Disponível em: https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/geopolitica-colunas-e-blogs/quem-comanda-o-atual-conflito-no-oriente-medio-e-a-inteligencia-artificial-801396/. Acesso em: 10 maio 2026.   PROBASCO, Emelia S. Building the Tech Coalition: how Project Maven and the U.S. 18th Airborne Corps operationalized software and artificial intelligence for the Department of Defense. Washington, DC: Center for Security and Emerging Technology, ago. 2024.  Disponível em: https://cset.georgetown.edu/publication/building-the-tech-coalition/. Acesso em: 9 maio 2026.   The Washington Post. Pentagon leverages AI in Iran strikes amid feud with Anthropic. Washington, D.C., 4 mar. 2026. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/technology/2026/03/04/anthropic-ai-iran-campaign/. Acesso em: 5 de maio de 2026. Gmail Signature Generator

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      Projeto transnacional de repressão de gênero: articulações culturais e políticas  Carolina Bastos¹   Em março de 2026, foi aprovado no Senado Federal o projeto de lei 896/2023, que equipara crimes motivados por misoginia ao crime de racismo, tipificado na lei 7.716/1989, como resposta institucional a uma onda de feminicídios, estupros e agressões de gênero tomarem os noticiários no país (Agência Brasil, 2026). Nas redes sociais, entretanto, a reação ao PL se materializou em campanhas de desinformação e teorias conspiratórias, que inflaram críticas e polarizaram o debate público (Agência Brasil, 2026). Em 2019, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) igualou homofobia e transfobia ao crime de racismo, reconhecendo omissão legislativa, e em 2023, quando enquadrou crimes contra a comunidade LGBTQIAPN+ como injúria racial (STF, 2019; STF, 2023), presenciou-se dinâmica similar de tensionamento político e ideológico.  A reação a essas tipificações legais indica forte correlação entre gênero, sexualidade e condução da prática política. Por envolverem questões tão intrínsecas à identidade, à relação grupal e à convenção social, tais disputas pouco teriam como escapar das arenas políticas, e isso transcende o cenário brasileiro, configurando um movimento global, transversal, supremacista e antidemocrático. Essa articulação combina práticas culturais e políticas a fim de manter hierarquias sociais que beneficiam grupos dominantes específicos, manifestada por uma massa crescente que repete discursos repressivos de pautas de gênero (Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025). Nesse ínterim, faz-se necessário entender essa tendência repressiva de gênero e suas ramificações, em vista de compreender a articulação do retrocesso democrático, do autoritarismo e do extremismo no âmbito internacional.   Gênero como construção social e categoria analítica Segundo Juan-Torres, Livingston e Chandra (2025), diferente de sexo biológico, categoria baseada no dimorfismo corporal humano, gênero denota uma construção social, calcada em processos de formação, internalização, reprodução e reafirmação social de expectativas identitárias. O conceito, entretanto, é disputado na literatura feminista. Joan Scott (1989) aborda-o como um elemento constitutivo das relações sociais e uma forma inicial de relação de poder. Já Judith Butler (apud Ton, 2018) caracteriza-o a partir de performance e performatividade, demandando uma constante estabilização e recalibração, de forma que não há gênero antes de sua prática performática. Ainda, María Lugones (2020) descreve gênero como parte de um sistema colonial/moderno, construído em profunda interligação com a Colonialidade do Poder de Quijano. Dada tal pluralidade e densidade simbólica, gênero situa-se no topo da escala de inexatidão conceitual e evoca normas sociais e culturais, expectativas de longa data, emoções fortes e tensões sociais e culturais. Dessa maneira, na medida em que sua fluidez conceitual é contrastada com hierarquias sociais rígidas, viabiliza-se sua instrumentalização política, com a propagação de narrativas que enquadram reivindicações de direitos relacionados a gênero e sexualidade como ameaças diretas aos privilégios do grupo hierárquico dominante. Ainda, tal amplitude possibilita sua segmentação conforme as conveniências de cada fim político e cada conjuntura nacional, tornando os ataques e o enrijecimento de hierarquias sociais e relações de poder específicos e direcionados (Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025). Estabelece-se, portanto, “repressão de gênero” como um conceito que engloba mais do que o cerceamento de direitos femininos — inclui-se todo o arcabouço que oprime indivíduos e comunidades em razão de gênero e sexualidade, isto é, medidas que afetam a liberdade corporal e relacional desses grupos, tal como a rescisão de direitos reprodutivos e de autonomia sobre transições de gênero.   Articulação repressiva cultural e política A repressão de gênero no âmbito internacional não opera de maneira isolada na esfera institucional. Pelo contrário, o processo se estrutura a partir de uma combinação calculada de mudanças culturais e instrumentalização política. Cultura, tal como gênero, é um conceito debatido, mas pode ser interpretada, entre outras perspectivas, como “um modo de vida — englobando ideias, atitudes, línguas, práticas, instituições e estruturas de poder” (Nelson; Treichler; Grossberg, 1992 apud Alvarez; Dagnino; Escobar, 2018). Nesse cerne, ao alterar-se a cultura, alteram-se também aspectos fundamentais da construção e manutenção política. A rigidez no ideário cultural se transforma em rigidez nas experiências sociais e políticas, tornando práticas normalizadas culturalmente passíveis de aceitação e institucionalização no fazer político, mesmo quando prejudiciais a um grupo ou à sociedade. Assim, cultura e política se reforçam mutuamente. Frente a isso, agentes políticos utilizam estrategicamente meios culturais para concretizar seus interesses, liderando processos que visam moldar o senso comum e alterar o imaginário social ao redor da política, da identidade e dos valores orientadores (Kooistra, 2024; Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025). Nessa conjuntura, a mudança cultural firma-se como uma estratégia intrínseca ao retrocesso democrático. Agentes autoritários, em forma de grupos de interesse, partidos, indivíduos e instituições, estabelecem referenciais, personalidades influentes e organizações intelectuais e educacionais que visam legitimar ideias extremistas. Nesse processo, mesmo em ambientes não tradicionalmente percebidos como políticos, ideias autoritárias são inseridas na vivência cotidiana, normalizando práticas opressivas no longo prazo. As estratégias conectadas às pautas de gênero, em especial, possuem grande alcance e efetividade, por inflarem afetos caros à população, de forma que se impulsionam internacionalmente movimentos culturais demandantes de hierarquias sociais e papéis de gênero rígidos (Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025). No ambiente virtual, em que conversas íntimas com sentimentos individuais e recompensas instantâneas de engajamento são viabilizadas, a dinâmica se revela de maneira ainda mais direta. Por meio da divulgação midiática de conteúdos coordenados, são estabelecidos ideários que reforçam noções fixas de gênero, sua complementaridade e seu binarismo, que colocam a mulher em um papel social submisso e que relegam a comunidade LGBTQIAPN+ a um papel inexistente. Em consequência, apoiando-se em uma ótica construída de proteção da nação contra ameaças fabricadas midiaticamente, desestabiliza-se a democracia, justificam-se práticas repressivas contra grupos minoritários, oportunizam-se tomadas de poder desmedidas e eliminam-se mecanismos de controle do poder Executivo (Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025). A chamada “machosfera”, subcultura online que apela para homens jovens e que difunde ideais misóginos, patriarcais, anti-feministas e supremacistas, ilustra essa engrenagem, mobilizando massivamente a submissão feminina a partir de afetos coletivos. Essa rede de perfis e influenciadores restringem perspectivas de masculinidade, retratando homens como vítimas de transformações sociais, normalizam violência contra mulheres e radicalizam ideologias extremistas e repressivas (UN Women, 2025). Seu alcance já é instrumentalizado por grandes atores políticos, como exemplificado pela participação do presidente estadunidense Donald Trump em podcasts da esfera durante sua campanha eleitoral e pela permissão de retorno aos Estados Unidos concedida aos influenciadores auto-denominados “ultra-masculinos” Andrew e Tristan Tate, investigados na Romênia por tráfico humano, coerção sexual e casos de estupro e agressão (Gilbert, 2025; Twohey; Kwai, 2025). Paralelamente, o crescimento das plataformas de “trad wives”, do inglês “esposas tradicionais”, direciona os esforços autoritários ao público feminino. Ao documentar personas que performam uma feminilidade idílica, submissão a seus maridos e responsabilidade total dos cuidados dos filhos e da casa, os perfis rejeitam o feminismo contemporâneo e encorajam mudanças ideológicas e paradigmáticas, pedindo por um retorno da mulher aos limites da realidade doméstica. Omite-se os perigos documentados da dependência total civil e financeira de mulheres a seus maridos, que envolvem abusos e rigidez de obrigações de gênero (Allen et al., 2026). Ainda, o fenômeno enrijece noções sobre o controle sobre as mulheres, suas decisões e seus corpos, e possibilita a instrumentalização do feminino contra outros grupos marginalizados (Allen et al., 2026; Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025). A partir da crescente expansão dessas redes, é possível perceber mudanças no ideário e no engajamento do público com perspectivas repressivas de gênero. Gradativamente, esses influenciadores, nacional e internacionalmente, moldam o pensamento de audiências jovens, que passam a repetir esses discursos, gerando ambientes de maior extremismo e cerceamento de direitos. Interligam-se, portanto, com a vida política da população, que passa a ser cada vez mais permissiva com práticas autoritárias. Dessa maneira, apoiadas nas aberturas estabelecidas no meio cultural, lideranças autoritárias instrumentalizam discursos de gênero a fim de incitar reações determinadas na população. Segundo Bjarnegård e Zetterberg (2026), tal atuação varia entre a exploração de medos, ansiedades e inseguranças da população por meio do enquadramento de ativismo de gênero como contrário à tradição e à soberania nacional, de modo a justificar o retrocesso democrático e a repressão de gênero; e a cooptação de avanços em pautas de gênero como meio de transparecer progressismo e ideais liberais democráticos, enquanto diverge-se a atenção de práticas autoritárias. Nações se conectam e alinham estratégias, de forma que constroem uma tendência global de líderes autoritários que oprimem direitos de populações marginalizadas enquanto celebram quaisquer avanços em pautas superficialmente progressivas, tornando gênero símbolo e sinal a ser manipulado por atores internacionais. O resultado prático dessa articulação é um retrocesso geral de garantias fundamentais de gênero conquistadas nas últimas décadas. Nos Estados Unidos, a derrubada do direito constitucional federal ao aborto pela Suprema Corte em 2022 relegou sua regulação ao nível estatal, o que levou a uma involução de legislações locais referentes a direitos reprodutivos, mas não diminuiu os casos de aborto reportados (Mascarenhas, 2024). Ainda, direitos de pessoas transgêneros vêm sendo cada vez mais cerceados no país, com a institucionalização de medidas como o banimento de pessoas trans do serviço militar e competições esportivas e a proibição de cuidados de afirmação de gênero para menores. No Reino Unido, a exclusão de mulheres trans de espaços exclusivamente femininos, como banheiros públicos, foi aprovada em 2025. Nos dois países, agentes políticos afirmam a existência de apenas dois gêneros no âmbito civil e legal, definidos pelo sexo designado ao nascimento, ignorando a experiência e a vivência trans e desenquadrando sua transição legal. Ainda, retratam essa comunidade como ameaça à nação, às mulheres e às crianças e de narrativas de medo e ansiedade alavancadas por transfobia, homofobia e desconhecimento (Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025; Sarmento, 2025). Esse padrão repressivo de gênero se replica internacionalmente. Por exemplo, entende-se um efeito similar na saída da Turquia da Convenção de Istambul — Convenção do Conselho da Europa para a Prevenção e o Combate à Violência Contra as Mulheres e a Violência Doméstica — em 2021, sob a alegação de uma “incompatibilidade com valores tradicionais”, denúncia replicada por autoridades búlgaras, e de normalização da homossexualidade e ameaça aos papéis de gênero tradicionais e às estruturas familiares, acusações repetidas por lideranças húngaras (Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025; Bjarnegård; Zetterberg, 2026). A Bulgária e a Hungria, diferentemente da Turquia, que saiu, nunca ratificaram o acordo, assinado pelos países em 2016 e 2014 respectivamente (Treaty Office, 2026). Por fim, governos com tendências autoritárias expandem o controle estatal sobre os direitos identitários e reprodutivos da população por meio de medidas que marginalizam a comunidade LGBTQIAPN+ e grupos feministas. Tal processo é claro na Rússia, que baniu “propaganda homossexual” em 2012 e extendeu a proibição para discussões referentes à orientação sexual e à identidade de gênero em 2023 e para “propaganda childfree”, em 2024; e na Bulgária, que proibiu a “propaganda LGBTQIAPN+” em 2024 (Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025). Em cenários recentes de polarização política e ascensão conservadora ao poder, presenciam-se fenômenos políticos mundiais de tendência à repressão de gênero e à relativização dos direitos de populações marginalizadas. Dessa forma, expande-se a fragilidade social, de modo que temáticas de gênero, em vez de consideradas fundamentais à saúde e à vivência de indivíduos, são retratadas como meras construções ideológicas de controle e doutrinação.   Repressão de gênero como retrocesso democrático Finalmente, é importante entender gênero, em todas as suas facetas, interpretações e sensações efetivas, a partir de uma lente interseccional. Como afirma Lugones (2020), há uma exclusão histórica, teórica e prática da mulher não-branca de lutas feministas e, mesmo que na modernidade eurocêntrica e capitalista existam processos universais de racialização e generificação, estes processos são heterogêneos, dicotômicos e hierárquicos. Em vista disso, mulheres e membros da comunidade LGBTQIAPN+ de cor sofrem opressões estruturais sobrepostas, e a luta e conquista de direitos não é nivelada ou uniforme em todos os âmbitos de repressão. Na construção de narrativas opressoras, a própria interseccionalidade entre gênero, raça, etnia, religião e cidadania torna-se ferramenta para fins autoritários. A transformação nos papéis de gênero tradicionais, os direitos reprodutivos e a diversidade de gênero são deliberadamente enquadrados como ameaças existenciais para a reprodução da raça e da religião (Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025). Sustenta-se, sob esse entendimento, que apenas a volta para papéis rígidos poderia assegurar o legado da nação e de seus valores.   As tendências culturais e políticas de instrumentalização do gênero, nesse meio, precisam ser compreendidas como vetores que abrem caminhos para uma repressão de direitos mais brandos de quaisquer grupos contrários ao projeto de nação daqueles dominantes e privilegiados. Por meio de normatizações e rearranjos culturais coordenados, estruturas autoritárias testam e expandem, progressivamente, os limites de tolerabilidade da prática antidemocrática. Ao mesmo tempo em que a machosfera e as “trad wives” pregam por uma submissão da mulher perante o homem, também propagam a superioridade racial branca, a legitimidade religiosa cristã e a inconformidade da população LGBTQIAPN+ e quaisquer indivíduos que desviem dos padrões estabelecidos como formas ideais de família e relação social. A regressão massiva de garantias ligadas a gênero e a popularização na cultura mainstream de conteúdos que disseminam misoginia, homofobia e papéis de gênero enrijecidos indicam, pois, uma aceitação social e uma movimentação de coalizões políticas em prol da repressão de liberdades conquistadas, de uma mais profunda e definida divisão social e de uma mais imóvel hierarquia social. Em consequência, criam-se condições institucionais que favorecem práticas autoritárias de restrição de liberdades e de direitos em benefício a essa estrutura social. Essa dinâmica repressiva e articulada, longe de ser exclusiva de qualquer país, demonstra um projeto transnacional de desmoralização e retrocesso democrático, por meio da opressão sistêmica de grupos historicamente marginalizados.   Notas [1] Esta análise utilizou a inteligência artificial Gemini do Google para revisão textual e auxílio na sintetização. Todo o conteúdo é de responsabilidade da autora.   Referências bibliográficas   ALLEN O. 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  • Destaques

    por Yasmin Freitas Taia       Em agosto de 2025, foi aprovado, no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (CSNU, em inglês), o último mandato da Força Interina das Nações Unidas do Líbano (UNIFIL, em inglês), com permanência até dezembro de 2026 e retirada de pessoal durante o ano de 2027 (UNIFIL, 2026). Tal decisão ocorreu devido à escalada de conflitos entre Israel e o grupo armado Hezbollah no Líbano, passando a responsabilidade total para o exército libanês. No entanto, muitos fatores devem ser analisados para compreender as consequências do fim desta Missão de Paz da ONU para o Líbano e para o Oriente Médio como um todo. A escalada do conflito no Líbano está diretamente ligada aos ataques realizados entre Israel e Estados Unidos contra o Irã em 2025, visto que o Hezbollah é um dos integrantes do chamado Eixo de Resistência do Irã e está estabelecido no sul do Líbano. Nesse contexto, a decisão do CSNU está vinculada aos interesses das grandes potências e à crise do multilateralismo que enfraquece a atuação da ONU e de suas missões de paz. Porém, a retirada dos capacetes azuis será um agravante da violência na região, retirando o único órgão internacional responsável por relatar infrações aos acordos de paz e de violação dos direitos humanos.   A Formação da UNIFIL e a Instabilidade Histórica do Sul do Líbano A Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL), criada em 1978 após a invasão de Israel ao sul do Líbano para expulsar a Organização de Libertação da Palestina (OLP), é uma das missões de paz da ONU mais longevas, (Paes, 2018). Nesse sentido, seus principais objetivos são o apoio ao governo libanês para restaurar a sua autoridade, a desmobilização de grupos armados não estatais e o impedimento da entrada de armas ilegais (O Globo, 2025). Contudo, o encerramento do mandato sinaliza uma transição arriscada. Ao transferir a responsabilidade pela segurança para um exército libanês ainda limitado, a retirada da ONU ameaça reabrir o espaço para as mesmas lógicas de força que motivaram a criação da missão há quatro décadas Paralelamente à instabilidade cíclica, o conceito de segurança “absolute security”, apresentado pelo ex-brigadeiro-general do exército israelense Udi Dekel, é atrelado à estratégia militar utilizada por Israel desde os ataques realizados no dia 7 de outubro pelo Hamas (Dekel, 2026). A partir desse conceito, o país busca eliminar de forma absoluta qualquer forma de ameaça, como a presença do Hamas na Palestina, as capacidades balísticas e nucleares do Irã e a permanência do Hezbollah no Líbano, sendo considerado um fracasso qualquer conquista parcial. Dessa forma, a busca por neutralizar ameaças através da força que justificou as invasões ao Líbano, evidenciando que a UNIFIL nasceu e permanece como um mecanismo multilateral para uma guerra contínua. Como contrapeso direto à Israel e à influência dos EUA no Oriente Médio, o Irã formou o “Eixo de Resistência”, uma rede  composta por grupos armados — como Hezbollah (Líbano), Houthis (Iêmen) e milícias xiitas (Iraque) —, funcionando como um “polvo” (Day, 2025). Tal analogia explica-se pela independência de movimentos de cada tentáculo sem ser necessário consultar o cérebro de forma direta. Na aliança iraniana, essa dinâmica reflete-se na autoridade de cada grupo para realizar seus ataques e manobras políticas sem recorrer diretamente ao Irã (Day, 2025). Nesse contexto, a recente decisão, realizada no dia 2 de março de 2026 pelo Hezbollah, de abrir uma nova frente de conflito contra Israel, na fronteira com o Líbano, teve como um dos objetivos o comprometimento com o Irã de desestabilizar o inimigo comum. Logo, a escalada de conflitos no Líbano, que resultou no fim do apoio e pressão política para o encerramento da UNIFIL, está relacionada com a disputa entre Israel, junto aos EUA, e o Irã.   Raízes da Instabilidade: O Histórico de Invasões e a Necessidade de Mediação Em 2000, foi estabelecido pela UNIFIL a “Linha Azul” a fim de delimitar uma área de 120 quilômetros que garantisse a retirada total das tropas israelenses (CNN Brasil, 2024), frente ao conflito fronteiriço histórico entre Israel e o Líbano. Nesse cenário, as tropas da Missão de Paz cumprem um papel fundamental de fiscalização das fronteiras e de manutenção da paz. Atualmente, a missão é composta por 7.478 peacekeepers de 47 países (UNIFIL, 2026) e as operações são realizadas em uma área de 1.060 km² entre a Linha Azul e o Rio Litani (CNN Brasi, 2024l).  O cessar-fogo que estava vigente até a recente escalada do conflito em março de 2026, teve mediação dos Estados Unidos e foi definido em 2024 (G1, 2024). O acordo envolve a retirada de tropas israelenses do sul do Líbano, o distanciamento do Hezbollah da fronteira com Israel, e o fim de qualquer tipo de ataque armado entre as partes (G1, 2024). Apesar deste suposto entendimento entre as partes, Israel violou o acordo e realizou o ataque mais mortal desde o último cessar-fogo, que resultou na morte de mais de 300 pessoas, incluindo ao menos 30 crianças, e em mais de 1.223 feridos (CNN, 2026). Assim, a contradição entre o discurso israelense de absolute security e a continuidade das operações militares representa um desfio para a estabilidade do Líbano. Apesar da retórica oficial de Israel ser de apoio ao Estado libanês contra o Hezbollah, a realidade operacional das agressões demonstra que a própria atuação israelense constitui o principal motor para a escalada de violência na região. A ideia de “segurança absoluta” manifesta-se quando as Forças de Defesa Israelenses declaram que as operações tinham enfoque no Hezbollah, mas realizam ataques em áreas civis provocando danos e mortes (CNN, 2026). Diante disso, o presidente estadunidense Donald Trump se manifestou contrário à postura extremamente ofensiva de Israel, e solicitou maior discrição nas suas atuações (CNN, 2026). No entanto, a ausência de medidas coercitivas dos EUA demonstra a passividade estratégica e que o objetivo não era de fato barrar a atuação israelense, mas sim gerir a repercussão política internacional. Diante dessa lacuna na mediação das grandes potências, a UNIFIL assume um papel indispensável no monitoramento do conflito. A proteção de civis constitui um dos mais relevantes papéis da missão, por meio da qual se realiza a vigilância diária de possíveis violações ao cessar-fogo, buscando a garantia de segurança das populações locais e a entrega de ajuda humanitária. Apesar do cessar-fogo ter sido acordado entre as partes, as forças armadas libanesas relataram violações diárias por Israel, que confirmou mais de 500 ataques aéreos sob o argumento de serem alvos do Hezbollah (OHCHR, 2025). Ademais, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos verificou, até outubro de 2025, 108 casualidades civis — sendo elas 71 homens, 21 mulheres e 16 crianças —, e o  sequestro de pelo menos 16 civis libaneses pelas forças armadas israelenses (OHCHR, 2025). Por outro lado, também houve violações pelo Líbano, que foi responsável pelo incidente de 4 projéteis disparados em direção ao Irã, que desencadeou o deslocamento de 30.000 civis do norte de Israel; no entanto, não houve vítimas (OHCHR, 2025). A partir desses dados, a UNIFIL consolida-se como o único pilar institucional capaz de atuar contra a violência no território, sendo indispensável para os relatórios imparciais de eventuais causalidades e proteção dos civis. Diante da paralisia diplomática das grandes potências, a Força Interina das Nações Unidas no Líbano emerge como principal órgão neutro na região, que realiza multifunções para garantir o bem-estar da população local e para a manutenção da paz. Dessa forma, sua permanência é o que garante o suporte militar e a capacitação técnica necessária para que o exército libanês se fortaleça. Nesse sentido, a decisão do fim dessa missão de paz foi definida diante de um cenário de conflitos de interesses por parte das potências globais e da crise da ONU. Logo, a ausência dos peacekeepers no Líbano é uma variável preocupante para a estabilidade do Oriente Médio como um todo.   A UNIFIL como Instrumento de Mediação e Proteção Civil A Resolução 2790 (2025) foi a mais recente renovação da UNIFIL, pelo Conselho de Segurança da ONU, que estabelece o fim de seu mandato em dezembro de 2026 e a retirada do pessoal a partir de 2027 (UNIFIL, 2025). Nesse sentido, a Resolução 1701 (2006), que estabelece a delimitação da Linha Azul, o suporte das partes e a cessação de hostilidades, deve continuar sendo implementada para a manutenção da paz até 2027 (UNIFIL, 2025). A decisão realizada no ano passado ocorreu em um cenário de forte pressão, principalmente pelos Estados Unidos, que vêm cortando os fundos destinados à missão e argumentando que o Líbano deve ser o único ator responsável pela sua própria segurança (Al Jazeera, 2025). Com isso, é possível ver que um dos principais propulsores para a crise do multilateralismo da ONU é o corte financeiro e a descredibilização de sua autoridade, principalmente pelos EUA. Aliado aos Estados Unidos, Israel foi outro apoiador relevante para o fim da UNIFIL, acusando-a de falhar em impedir as ameaças do Hezbollah e a intensificação do conflito, principalmente após o ataque do Hamas à Israel em outubro de 2023 (Al Jazeera, 2025). Entretanto, longe de sinalizar uma estabilização, o fim próximo da Missão coincide com uma nova escalada de conflitos que expõe a fragilidade da segurança regional. De acordo com as autoridades do Líbano, os ataques israelenses desde 2 de março de 2026 resultaram na morte de 2.618 pessoas e forçaram o deslocamento de mais de um milhão de pessoas (Al Jazeera, 2026). Toda essa escalada do conflito, mesmo diante do anteparo institucional da UNIFIL, já é preocupante e mostra que agora não é o momento de retirar um ator tão relevante para a promoção da estabilidade no Líbano. Nessa perspectiva, o Embaixador da China nos Estados Unidos, Fu Cong, reavaliou o cenário de inexistência de um cessar-fogo eficaz na região e defende a necessidade de uma reavaliação da decisão do CSNU sobre o fim do mandato da UNIFIL (Al Jazeera, 2026). Dessa forma, a relevância estratégica da China reside na busca para consolidar-se como uma potência global com influência para equilibrar as pressões apresentadas por Israel e pelos EUA no CSNU. Nesse contexto, Pequim compreende que a estabilidade do Oriente Médio é necessária para defesa de seus interesses econômicos, principalmente por causa das rotas de energia e comércio.  Entretanto, apenas o estabelecimento de um novo acordo de paz ou de acordos bilaterais não será suficiente para o monitoramento das violações e de conflitos armados entre os países.Tal insuficiência justifica-se pelo fato de a UNIFIL constituir o único mecanismo internacional permanente capaz de documentar as infrações no terreno de forma neutra. Consequentemente, na ausência da fiscalização e prestação de contas pela ONU, os pactos careceriam de responsabilização e neutralidade, deixando a população civil vulnerável à constante violação dos acordos. Por fim, os Estados Unidos vêm mediando negociações entre Israel e Líbano a fim de restabelecer o cessar-fogo, mas ainda não possuem relações diplomáticas formais (Folha de São Paulo, 2026). De acordo com o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, a visão de um acordo bilateral é “perfeitamente viável”, mas a culpa do conflito recai apenas sobre o Hezbollah, segundo ele (Folha de São Paulo, 2026). Após toda a análise da conjuntura, a complexidade da região demonstra que o Hezbollah não é o único ator envolvido no endurecimento do conflito, tampouco na decisão de encerramento da UNIFIL. Logo, a retirada dos capacetes-azuis é um reflexo dos atores que visam eliminar o aparato multilateral, para terem maior liberdade em suas ações militares, priorizando a lógica da força.   Conclusões Em suma, a histórica disputa de interesses na fronteira entre o Líbano e Israel é um epicentro de insegurança regional, fomentado pelos interesses hegemônicos conflitantes e atuação de grupos armados, como o Hezbollah. Nesse contexto, o encerramento da Força Interina das Nações Unidas no Líbano, determinado pela Resolução 2790, criará um perigoso vácuo de segurança, pois retira um poder capaz que complementa as Forças Armadas Libanesas (LAF), que ainda não estão preparadas para lidar com esse conflito de forma independente.  Além dessa necessidade militar, a presença dos peacekeepers é o único mecanismo de documentação e de acompanhamento local do conflito, que representa a resiliência do multilateralismo na região. Assim, a presença institucional da UNIFIL é uma barreira indispensável para a mentalidade de “segurança absoluta” adotada por Israel, que prioriza a liberdade de ação operacional acima de qualquer cessar-fogo. Portanto, sem o escudo institucional multilateral, a retirada dos capacetes-azuis sinaliza a vitória da força bruta sobre a diplomacia, permitindo que a busca por uma segurança absoluta transforme o sul do Líbano em um campo de batalha permanente    Referências Bibliográficas AL JAZEERA. China urges reversal of UNIFIL departure from Lebanon as conflict escalates. Al Jazeera, 2 maio 2026. Disponível em:https://www.aljazeera.com/news/2026/5/2/china-urges-reversal-of-unifil-departure-from-lebanon-as-conflict-escalates. Acesso em: 8 maio 2026.    AL JAZEERA. UN Security Council renews UNIFIL mission in Lebanon until end of 2026. Doha: Al Jazeera, 28 ago. 2025. 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