• Destaques

    O papel do crime organizado na crise de segurança do Equador Lenira Oliveira (PET-REL) e Gabriel Marinho (UnB)   A recente epidemia de violência no Equador mais uma vez levou a problemática do crime organizado na América do Sul aos holofotes da mídia internacional. O país, cujos índices de violência se mantiveram baixos se comparados aos dos demais países sul-americanos, tem visto, pelo menos desde 2016, um aumento da atividade do crime organizado e de episódios de violência relacionados (Nueva Sociedad, 2024). Alguns marcos trágicos já apontavam essa tendência: o sequestro e o assassinato de três jornalistas pela Frente Olivier Sinisterra, bem como a explosão de carros-bomba, em 2018; e o assassinato do candidato à presidência Fernando Villavencio, em agosto de 2023. O “estopim” da situação atual, porém, foi a fuga realizada por José Adolfo Macías Villamar (mais conhecido como “Fito”), líder do grupo “Los Choneros”. As autoridades, que pretendiam transferi-lo para outro presídio, relataram seu desaparecimento no dia 7 de janeiro de 2024, seguido por revoltas de prisioneiros – em que servidores do sistema carcerário foram feitos reféns – explosão de carro-bomba e a invasão à emissora TC da cidade de Quayaquil (Calanche, 2024). O governo reagiu declarando “estado de emergência” logo após a fuga de Fito, e, posteriormente, estado de “conflito interno armado”. Tais declarações, contudo, não foram suficientes para recapturá-lo e não evitaram outra fuga: a de Fabricio Colón Pico, “El salvage”, liderança notável do grupo “Los lobos” (Nueva Sociedad, 2024). A situação no Equador realmente é preocupante. Entretanto, ainda que esses acontecimentos, orquestrados por grupos do crime organizado, representem um marco na história da criminalidade no país, sua compreensão plena envolve não só a análise de fatores internos, mas também do contexto regional em que se insere o Equador. Considerando o contexto apresentado, a presente análise busca lançar luz sobre os fatores que levaram ao aumento da violência e da atividade do crime organizado no Equador, bem como tecer considerações sobre o curso de ação adotado pelo governo Noboa e suas possíveis repercussões para o futuro do país.    A infiltração do narcotráfico no Equador    O primeiro fator importante quando se fala sobre o aumento do crime organizado no Equador, especialmente em se tratando do narcotráfico, é sua proximidade geográfica com a Colômbia e o Peru. Esses dois países possuem capítulos inteiros de sua história ligados à atividade de narcotraficantes e aos grupos guerrilheiros e, mesmo hoje em dia, são os dois maiores produtores de folha de coca do mundo (BBC, 2023). Tendo o Equador fronteiras com esses países e pelo menos um porto importante – o de Guayaquil, em que drogas podem ser exportadas para mercados consumidores de alta renda –, não seria exagero pensar no Equador como área de interesse para o tráfico internacional. De fato, o Equador constitui-se, cada vez mais, como um país central no transporte da cocaína que sai desses países (Rivera-Rhon; Bravo-Grijalva, 2020, p. 10, 17). Muitas das dinâmicas relacionadas a qualquer tipo de economia ilegal seguem uma lógica mercadológica: os produtores procuram formas de maximizar seus lucros, identificando, por exemplo, os melhores mercados e rotas para seus produtos e procurando formas de minimizar os riscos. Nesse sentido, as rotas que passam pelo Equador e têm como destino o mercado europeu ou o norte-americano sempre se apresentaram como alternativas possíveis economicamente, visto que a fiscalização equatoriana não é capaz de acompanhar o fluxo, e a destinação final das drogas gera grandes montantes (Rivera-Rhon; Bravo-Grijalva, 2020, p. 22-27). Entretanto, após a campanha lançada pelos Estados Unidos para contenção do transporte marítimo de drogas pelo Caribe, os traficantes passaram a utilizar ainda mais as rotas equatorianas (Pónton, 2013, p. 143-146). Esse aumento da utilização de rotas para o tráfico pelo Equador, por sua vez, gerou aumento no número de integrantes de grupos de crime organizado nacionais e internacionais, o que pode ajudar a explicar o recente aumento da violência no país. Por outro lado, tem-se constatado uma evolução das atividades e grupos de crime organizado no Equador. Se antes o país era basicamente um ponto de trânsito, nos quais grupos locais de médio e pequeno porte serviam simplesmente como intermediários para transporte da droga, hoje existem pelo menos dois grandes grupos criminais nacionais – Los Choneros e Los Lobos –, que cooperam com cartéis mexicanos e com grupos colombianos (Rivera-Rhon; Bravo-Grijalva, 2020, p. 10, 17, 20-24). Além disso, existem fortes indícios de que o Equador tenha crescido como centro de produção de cocaína (Rivera-Rhon; Bravo-Grijalva, 2020, p. 17). E o novo papel assumido pelo país como produtor de drogas associa-se à ausência estatal nas regiões fronteiriças, a exemplo do que ocorre com grupos colombianos produtores de cocaína, que ao encontrarem repressão governamental e paramilitar em suas terras natais, cruzam a fronteira e estabelecem plantações em território equatoriano (Forero; Stoller, 2016, p. 242-246). Sem o monitoramento estatal das fronteiras, a internacionalização do crime organizado, bem como os fenômenos de instabilidade política a ela associados, tornam-se muito mais possíveis. É por isso, inclusive, que qualquer tentativa de eliminar o crime organizado deve partir de iniciativas multilaterais: a criminalidade reage à repressão e se restabelece em territórios onde esta é menor. Além disso, a ausência do Estado em áreas precárias, como a fronteira Equador-Colômbia, cria um vácuo na prestação de serviços de ordem pública: os habitantes dessas áreas, portanto, passam a recorrer ao crime organizado para questões de arbitragem de disputas, garantia da justiça e proteção, bem como fornecimento de uma renda estável por meio da participação na economia ilegal (Forero; Stoller, 2016, p. 242, 243). O resultado disso é um incentivo para que os grupos de crime organizado se espalhem e/ou cooperem através das fronteiras. A corrupção endêmica em muitas instituições do Equador é outro fator explicativo para o crescimento da presença do crime organizado no país. O crime organizado prospera quando servidores públicos cooperam com os criminosos, afinal se os responsáveis pela contenção do crime não executam suas funções adequadamente, então pode haver a expansão dos negócios ilegais, culminando no alastramento do crime organizado (Rivera-Rhon; Bravo-Grijalva, 2020, p. 11, 15 e 26). No Equador, o conluio entre servidores públicos e agentes do crime é um problema real, como demonstrado pela operação da Procuradora Geral da República, Diana Salazar, que indiciou um juiz e o antigo chefe da instituição responsável pelos cárceres do país (Nueva Sociedad, 2024). O caso é bastante simbólico, pois envolve autoridades cuja função envolvia a contenção direta do crime, e o zelo pelo império da lei. Sendo assim, não se pode desconsiderar, nesse caso, que talvez a infiltração do crime organizado nesse país tenha sido facilitada pela corrupção das autoridades frente a uma economia ilegal em expansão. Além disso, a economia dolarizada do Equador também facilita as atividades dos grupos de crime organizado (Manjarrés, 2023). Os grandes montantes gerados pela crescente “economia do submundo” podem chamar a atenção das autoridades fiscais e possivelmente atrair esforços para o desmantelamento de redes operacionais ilegais, assim sendo necessário encontrar métodos para esconder o dinheiro ou fazê-lo parecer legítimo. Acontece que, em uma economia dolarizada como o Equador, os grupos de crime organizado se aproveitam da popularidade do dólar no comércio internacional e fundam empresas de fachada, que ao alegarem a existência de negócios internacionais, lavam o dinheiro das operações ilegais. O fato é que seria mais difícil lavar esse dinheiro caso as empresas de fachada tivessem que converter grandes montantes de dólar em outro tipo de moeda, pois isso chamaria a atenção das autoridades (Manjarrés, 2023). Por fim, o sistema carcerário equatoriano tem contribuído para a eclosão dos recentes episódios de violência, na medida em que constitui um ecossistema no qual a utilização da violência torna-se o pilar “de facto” da governança, cuja reprodução é incentivada (Pontón, 2022). Na ausência de legitimidade, o crime organizado, em geral, sempre recorreu à violência como meio para a resolução de conflitos (Pontón, 2022, p. 173); logo, em um ambiente no qual a superlotação e a falta de treinamento de oficiais limitam a capacidade das autoridades de administrar as prisões eficientemente, os próprios prisioneiros criam estruturas hierárquicas, coexistentes à hierarquia entre encarcerados e carcereiros, sustentadas pela violência (Pontón, 2022, p. 170-173). Somando-se a isso o fato de que as perspectivas de reabilitação são baixas, fica fácil perceber que as prisões, assim, não só constituem ambientes a partir dos quais os chefes de facções podem administrar seus negócios com relativa autonomia, mas também ambientes nos quais a violência é estimulada, aumentando, portanto, a taxa de homicídios (Pontón, 2022, p. 180-186).    Como o Estado equatoriano está combatendo o crime organizado no país?   No decreto executivo n. 111, o presidente do Equador, Daniel Noboa, classificou 22 grupos criminais como terroristas, de modo a autorizar a execução de operações militares pelas Forças Armadas a fim de neutralizar esses grupos (Decreto Ejecutivo No. 111, 2024). No entanto, essa medida implica em uma forte militarização da sociedade equatoriana, o que pode gerar resultados negativos, sobretudo para a população civil que vive em áreas controladas por esses grupos, visto que esses civis tendem a ficar em meio ao fogo cruzado em ações de confronto empreendidas pelas forças de segurança contra as facções criminosas (Calanche, 2024).     A perspectiva que defende o emprego das forças armadas no combate ao crime organizado no país, defende que elas podem combatê-lo de maneira eficaz, desde que amparadas pela sua missão constitucional de defender a soberania e a integridade nacional do Estado (Estrella et al., 2023, p. 8). Corrobora-se, para isso, o fato de que foi necessário decretar, em abril de 2022, “estado de exceção” nas províncias de Esmeraldas, Guayas e Manabí, o que permitiu uma resposta das forças armadas às ações empreendidas por grupos criminosos que eram responsáveis pelo aumento dos índices de criminalidades nestas localidades. Nesse caso, o emprego das forças armadas se mostrou eficaz em conter as facções criminosas em atuação em um contexto de crescente insegurança. Contudo, os militares normalmente não têm formação específica para atuar em situações como essa – em temas de segurança pública, por exemplo – nem para interagir com a população civil, o que abre a possibilidade de violações dos direitos humanos (Díaz, 2024), fazendo surgir assim questionamentos sobre quais serão os efeitos práticos de sua atuação na atual situação do país e se ela será realmente positiva para a segurança da população equatoriana.     Para além da discussão sobre o emprego ou não das forças armadas na luta contra o crime organizado no Equador, e tendo presente o atual contexto de crise de segurança no país, faz-se necessário que um conjunto de medidas mais amplas sejam adotadas pelo governo para conter o crime organizado no país. Nessa perspectiva, poder-se-ia investir mais em segurança pública, especialmente nas capacidades das forças policiais, como em equipamentos e armamentos utilizados pelos agentes. Durante a campanha eleitoral, inclusive, o atual presidente prometeu investir no setor de defesa equatoriano, sobretudo por meio do Plano Fénix, que buscaria fortalecer o setor estratégico e de inteligência da força policial do país. Contudo, ainda é muito cedo para ver os resultados deste plano, haja visto que ele apenas começou a ser implementado em dezembro de 2023 (El Nuevo Ecuador, 2023).     Segundo a Secretária de Segurança de Quito, Carolina Andrade, uma das razões que corroborou para a onda de violência recente no Equador, foi justamente a ausência de um sistema de inteligência efetivo que possibilite a atuação antecipada da polícia e das Forças Armadas (Pimentel, 2023). Destarte, faz-se importante investir também neste setor, a fim de que se possa monitorar os grupos em atuação no país e, assim, seja possível contê-los.      Outro importante aspecto a ser destacado é a necessidade de se reforçar também o Consejo de Seguridad Pública y del Estado (COSEPE). O organismo tem como função assessorar e fazer recomendações ao Presidente do Equador sobre planos, estratégias e políticas relacionadas à segurança pública no país. O COSEPE esteve desativado durante mais de uma década e isso foi visto por alguns especialistas como um dos fatos que contribuíram para o crescimento do crime organizado no Estado equatoriano (Benavides; Guerrero, 2023, p. 114). Desse modo, fortalecê-lo seria uma maneira do atual governo articular uma resposta bem acertada para combater as facções criminosas que geram instabilidade na segurança nacional.   Considerações finais   Tendo-se em vista a atual crise de segurança no Equador, pode-se inferir que se faz necessário uma resposta abrangente por parte do Estado equatoriano para lidar com a questão do crime organizado. No âmbito diplomático, poder-se-ia estreitar os esforços regionais para combater o crime organizado transnacional, por meio da integração dos sistemas de inteligência dos países da região (Benavides; Guerrero, 2023, p. 119). A cooperação entre os países da região nos setores de defesa e segurança é crucial no combate ao crime organizado, tendo em vista a tendência da criminalidade se expandir para áreas em que as forças policiais são menos equipadas e treinadas.  Em relação à esfera militar, é essencial identificar os centros de gravidade dos grupos criminosos, isto é, suas lideranças para conseguir desestruturar as facções que atuam no país; assim como é importante profissionalizar e equipar as forças de segurança do país. Já na esfera econômica – que é uma das causas estruturais do espraiamento do crime organizado –, deve-se buscar atender além das necessidades básicas da população, fomentando oportunidades de renda e desenvolvimento local, assim como é preciso desmantelar a estrutura financeira que propicia o fluxo de ilícitos rentável aos grupos criminosos (Benavides; Guerrero, 2023, p. 119-120). Todavia, a resposta do presidente Noboa à situação de segurança do país tem aparentado caminhar para um processo de securitização da sociedade equatoriana, haja visto que as medidas implementadas buscam combater grupos criminosos – agora classificados como terroristas – com o emprego das forças policiais e armadas. O que se observa, portanto, é que não existe um esforço em extinguir as raízes do problema, mas apenas solucionar seus efeitos colaterais, que são justamente os picos de violência observados no início de janeiro no país. Então, caso não seja definida uma estratégia mais abrangente de combate ao crime organizado, o que poderá se observar é uma diminuição da violência no curto prazo com a prisão de criminosos suspeitos de integrarem as facções que atuam no país – com um risco significativo de perdas de vidas civis, que vivem em áreas controladas por esses grupos –, porém, isso tende a ser seguido por eventuais crises como essa no médio e no longo prazo, devido ao não enfrentamento das causas estruturais do problema; de forma semelhante ao que tem sido feito em outros países latino-americanos que lutam contra o crime organizado em seus territórios implementando políticas de segurança pouco eficazes.   Referências   BENAVIDES, G; GUERRERO, D. El Estado Ecuatoriano y El Crimen Organizado. Revista Academia de Guerra del Ejército Ecuatoriano, vol. 16. n. 1, abr. 2023. p. 110-121.   CALANCHE, G. Can a War on Crime Bring Relief to Ecuador?. International Crisis Group, 19 jan. 2024. Disponível em: https://www.crisisgroup.org/latin-america-caribbean/andes/ecuador/can-war-crime-bring-relief-ecuador. Acesso em: 3 fev. 2024.   Colombia cocaine: Coca cultivation reaches record high. www.bbc.com, 12 set. 2023.   ¿Cómo Ecuador descendió al infierno homicida? | Nueva Sociedad. Disponível em: <https://nuso.org/articulo/como-ecuador-descendio-al-infierno-homicida/>. Acesso em: 6 fev. 2024.   DÍAS, M. G. O que aconteceu nos países da América Latina que militarizaram combate ao narcotráfico como o Equador. BBC News Brasil, 12 jan. 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cv2llgyw7lgo. Acesso em: 26 mai. 2024.   ECUADOR. Decreto Ejecutivo n° 111, de 9 de enero de 2024. Disponível em: https://www.comunicacion.gob.ec/decreto-ejecutivo-n-111/. Acesso em: 4 fev. 2024.   ESTRELLA ET AL. El crimen organizado y la soberanía nacional: el rol de las fuerzas de seguridad y la intervención militar. Revista Dilemas Contemporáneos: Educación, Política y Valores, v. 11, n. 64, dez. 2023, p. 1-18.   FORERO, J. E.; STOLLER, R. State, Illegality, and Territorial Control: Colombian Armed Groups in Ecuador under the Correa Government. Latin American Perspectives, v. 43, n. 1, p. 238–251, 2016.   MANJARRÉS, J. 3 factores que hacen de Ecuador un foco de lavado de dinero. Disponível em: <https://insightcrime.org/es/noticias/factores-hacen-ecuador-foco-lavado-dinero/>. Acesso em: 6 fev. 2024.   PIMENTEL, Carolina. Secretária equatoriana admite que o sistema de inteligência falhou. Agência Brasil, 11 jan. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2024-01/secretaria-equatoriana-admite-que-o-sistema-de-inteligencia-falhou. Acesso em: 21 fev. 2024.   Plan Fenix se ejecuta en el Ecuador. El Nuevo Ecuador, 13 dez. 2023. Disponível em: https://www.ministeriodelinterior.gob.ec/plan-fenix-se-ejecuta-en-el-ecuador/. Acesso em: 4 fev. 2024.   PONTÓN C., D. La economía del narcotráfico y su dinámica en América Latina. Íconos - Revista de Ciencias Sociales, v. 0, n. 47, p. 135, 26 set. 2013.   PONTÓN, D. Las nuevas cárceles en Ecuador: un ecosistema para la reproducción del crimen complejo. Universitas, n. 37, p. 173–199, 23 ago. 2022.   RIVERA-RHON, R.; BRAVO-GRIJALVA, C. Crimen organizado y cadenas de valor: el ascenso estratégico del Ecuador en la economía del narcotráfico. URVIO. Revista Latinoamericana de Estudios de Seguridad, n. 28, 8 set. 2020.    

  • Situation Report

    By Marco Octávio de Meneses   Introduction        For months after the attacks of October 7th, analysts have been asking whether or not the Israel-Hamas war would spread to the broader region of the Middle East. In this text, I shall argue that spillover in the area is unlikely, and there is not an escalatory tendency leading to spillover. For many actors, there are few incentives to see the conflict escalate. First off: Saudi Arabia, Egypt, Qatar, Turkey, and the UAE have been involved ever since the start of the conflict in negotiations to try and bring that conflict to an end (Reuters, 2024a). Iran became involved after responding to an Israeli strike in their embassy in Syria that killed seven people, including two top Iranian Revolutionary Guard Corp (IRGC) commanders (Regan  Qiblawi, Aslkhshali, 2024). Even the United States of America (US) has been engaged in trying to contain the conflict.          However, Israel may drive escalation, be it in the interest of the country or not. This is due to the political orientation of the prime minister Binyamin Netanyahu. Simultaneously, US President Joe Biden has clearly stated to Israel that a military assault on Rafah would be unacceptable (Al Jazeera, 2024) without a plan to protect civilians (NPR, 2024). Israel and Hezbollah are involved in exchanging airstrikes, rockets, and tank fire for at least a year, though Hezbollah appears unwilling to increase the level of violence. The Houthis, in the south of Yemen, have resorted to attacking commercial vessels in the Red Sea, and Hamas would benefit from a long conflict, as part of their strategy of accepting civilian deaths to further their cause [1] . Finally, it is important to mention that the United Kingdom (UK), alongside the US, helped negotiate a possible cease-fire deal between Israel and Hamas, which was mediated by Egypt and Qatar (Pamuk, Cornwell, Magid, 2024). This shows US influence and regional desire to reduce hostilities.      I argue that, even in a world of declining US power, there is still room for the US to shape policy in the Middle East by means of deterrence and dissuasion, even in regard to Israel. Finally, the regional desire for escalation is extremely low, thus helping alleviate fears. Even though a number of actors don’t want a spillover, there are still variables that can draw the region into wider conflict. For example, the US still has a sizable presence in the Middle East. A strike in a US military base could prompt a reaction out of the US, even if unwanted (Kaye and Vakil, 2024). The other factor is if Israel acts disregarding its allies by moving into Rafah, alienating a necessary lifeline.    Regional context        As Kaye and Vakil argue, the Middle East went through a reset of relations in the past decade: Israel’s relations with Arab and Non-Arab neighbors were normalizing, mainly due to economic opportunities and the US reducing their role in the region, shifting resources towards Asia. Surprisingly, the war between Israel and Hamas did not destroy the relationships created during the normalization period (Kaye and Vakil, 2024). Relations with Saudi Arabia, an important geopolitical player in the region, went to a halt during the war, and restarting the process requires a path to a Palestinian State (Reuters, 2024c). Israel also has maintained relations with the participants of the 2020 Abraham Accords (the United Arab Emirates and Bahrain), which involved recognizing the state of Israel and establishing full diplomatic relations.      Things become trickier regarding Iran. Meneses (2024) shows that relations between Iran and the US are at a low point, as guarantees that Iran will not acquire nuclear weapons disappear. Relations between Iran and Gulf states appear to be rebuilding after a Chinese-brokered deal between Iran and Saudi Arabia in March 2023. On the Iranian side, the deal was part of a larger strategy of having better relations with neighbors to reduce the effect of Western sanctions. Saudi Arabia benefits from the stabilization effect of the deal, allowing them to pursue their own goals. Nevertheless, Iran-backed groups, like the Houthis in Yemen, to the south of Saudi Arabia, continue to worry the Saudis. Iran’s ability to threaten peace through its proxies is cause for concern, still, relations between the two countries are holding, even after months of the Israel-Hamas conflict (Dagres, 2024).      Resilience seems to be the norm for interstate relations in the Middle East. Dagres (2024), Kaye, and Vakil (2024) all show that initiatives are coming out of the region with or without US involvement. Meneses (2024), Vakil, and Kaye (2024) all show limited room for the US and allies to exercise influence in the Middle East, however, there are triggers for increased US involvement and even tools that the US has but is not using. Attacks on American citizens and military bases may create pressure to increase military involvement in the region. The US can also try cutting, or interrupting the supply of missiles and ammunition, as done on the 7th of May, in an attempt to influence Israeli policy (NBC, 2024).   Escalation        Escalation is defined as a situation in which one of the parties involved in the conflict believes that there has been a significant qualitative change in the conflict (Cliff, 2023). Ways to do that include utilizing different types of weapons, striking different types of targets, striking new territories, or anything else that would make an actor perceive the conflict as escalated, such as a political declaration (ibid.). Let it be noted that wars tend towards escalation, because escalation can be used as a tool and can happen accidentally, but de-escalation seldom happens by accident (ibid.). Additionally, wars typically end because of compromise or a settlement, but the political objectives that lead a country to war rarely change, except under “extreme duress” (ibid.).      That said, Israel finds itself in escalation dominance, Hamas has no tools with which it can escalate the conflict after the targets and methods used in the attacks of October 7th, though Israel can’t leverage its dominance to coerce Hamas: increasing the level of violence doesn’t bring Israel any closer to its initial objective: the complete elimination of the terrorist group. Benjamin Netanyahu has stated that that is Israel's goal in this war, and that goal hasn’t changed (BBC, 2024). Assuming that war is a continuation of politics through other means (Clausewitz, 1976, p.87), we have to think of the following: Hamas took a violent course of action on October 7th because the status quo was deemed unacceptable and no other means were adequate to pursue their goals. Similarly, Israel committed to a war, because for them, it was unacceptable for Hamas to do what they did, and the goal to eliminate Hamas is, as shown in the previous paragraph, extremely unlikely to change. That unwavering commitment will undoubtedly stall negotiations and lead to even more human suffering.      As mentioned in the last section, other countries in the region are working to reduce tensions and de-escalate, avoiding a spillover. The incentives for avoiding it are clear: they don’t want war on their territory. But, what can they do? Egypt and Qatar are currently mediating a cease-fire deal between Israel and Hamas (Pamuk, Cornwell, Magid, 2024). After Israel targeted the Iranian embassy in Syria, killing seven people, including two IRGC commanders (Regan Qiblawi, Aslkhshali, 2024), Iran retaliated with a barrage of missiles and drones, which could show the intent to escalate, but in reality, the desire to escalate was not there. Iran announced the time and date, and knew of Israel’s missile defense capabilities, striking valuable targets inside Israel would inevitably prompt a reaction from Israel, potentially locking the two in a tit-for-tat with increasing violence (Bergman, Fassihi, Schmitt, 2024). The Kingdom of Jordan shot down Iranian missiles flying over their airspace (Helou, 2024), and Saudi Arabia and the UAE relayed intelligence about the Iranian attack (The…, 2024). This indicates that other players in the region don’t want to see Israel in a position where they have to respond, potentially causing Iran to get involved, promoting a spillover in the region. After that, the Israeli reaction appeared to be calibrated to avoid further escalation, causing no casualties (Reuters, 2024d).      As for non-State actors in the region such as Hezbollah, in the past, have responded to deterrence, that is, dissuasion by threat (Mazarr, 2018). Israel’s northern border with Lebanon hasn’t witnessed an increasing level of violence. Israel certainly doesn’t want another front in the war and Hezbollah has been deterred in two ways: denial and punishment. Deterrence by denial occurs when an adversary has little reason to think their policy will work because the target already has adequate defenses. Deterrence by threat occurs when there is good reason to fear the punishment from the attacked state. In the past, Israel has punished Hezbollah’s attack to an extent that their leadership regretted the attack (Hezbollah.., 2009), perhaps there is already a logic of deterrence operating there even though the two exchange rocket fire.      Finally, the Houthis did participate in escalating the conflict, by targeting commercial vessels in the Red Sea, and seemed to be undeterred by the threat of military force against them. On the other hand, their reach is limited. The group has stated that commercial vessels heading toward Israel will be targeted, and even struck Israeli territory, causing zero casualties (Bermudez,2024). On the other hand, they are involved in a protracted Civil War, limiting the amount of resources they can spend on fighting Israel. Thus, it is hard to say whether the Houthis would further escalate this conflict.      In sum, many regional actors are engaged in trying to keep the conflict between Israel and Hamas relatively contained. Simultaneously, there are initiatives coming out of the region to build peace, and in the short term, a cease-fire agreement between Israel and Hamas, signaling that spillover is against their interests.   American influence in the Middle East        Although their influence is declining with regard to the region in general, especially Iran, the US still holds significant power in the region, because of their influence on Israeli policy. By this point, there is little the US and its allies can do to shape Iranian policy regarding the application of force (Meneses (2024) shows the limits of force application in Iran). Theoretically, policy can also be shaped with incentives. However, offering opportunities for cooperation seems completely out of the picture, due to the state of US-Iran relations. And, even if there were an opportunity to influence Iranian policy, it would be unlikely that Iran-backed militant groups in the region would bow to Iran’s wishes. Netanyahu cannot act with a complete disregard for US interests in the region, either because they need US support, or because Israeli citizens know they rely on allies for their defense.      It is not just a matter of declining influence, the United States of America has been trying to move away from providing security (or attempting to) in the Middle East and leaving that role up to the region. The US is mostly concerned with China (COMMURI, 2023), but there are still “trip-wires” that can increase US involvement in the region. There are still many American military bases in the Middle East that have even suffered strikes after the start of the Israel-Hamas war. The attacks against US forces caused casualties, which prompted the US government to retaliate, which, in turn, led Iran to advise Iraqi groups to tone down attacks on US bases (Rasheed, Hafezi, Azhari, 2024). To put things clearly, the logic in play is that striking targets increases the risk of retaliation, creating an escalatory tendency that can get out of hand.       The US has many bases, thus, many vulnerabilities to be targeted, so caution must be exercised, as Iran did in alerting Iraqi groups to tone down attacks against the US. Additionally, the possibility of US retaliation can be used as a means of deterrence by threat: the military bases the US has in the Middle East can be used as a trip-wire force, signaling a commitment to act if attacked. This deterrent logic has already helped to keep the level of conflict low after Iran alerted Iraqi groups.      Finally, the main way the US can help shape policy in the Middle East is via Israel. Israel cannot be without allies, and they know it. Currently, the US is not employing its full range of policy tools to shape Israeli behavior (Kaye and Vakil, 2024), and, as I have argued above, Israel may be the one behind escalation, or at least not reducing the level of violence. For example, a cease-fire deal mediated by Egypt and Qatar was on the table, but Hamas and Israel could not come to an agreement. Now, a truce is extremely unlikely, as Netanyahu promises to move into Rafah with or without a deal (BBC, 2024). The US has established its red line with regard to an assault in the city, reiterating the need for a humanitarian plan (Reuters, 2024e). But they also have an unwavering commitment to the defense of the State of Israel. One of the available tools to exert pressure is by saying that if Israel moves into Rafah, they will receive less military support from the US.   Conclusion        I have argued that there is not an escalatory tendency in the region, that is not to say that escalation will not happen. Different targets in countries that have not been attacked, or reckless non-state actors may instigate further escalation in the region. Escalation can even happen due to political declarations of leaders in the region or by accident. Still, much of the diplomacy and even military action has been dedicated to avoiding spillover and escalation. Finally, I also argued that, even in a world of diminishing US influence, there is still room for shaping policy in the Middle East and unused tools that the US has to do so.     [1] A North Atlantic Treaty Organization (NATO) report establishes systematic use of human-shields by Hamas and deliberate mixing of Hamas military installations close to (or under) civilian infrastructure. The strategy is: increasing the number of civilian deaths in the case of attack makes for a PR loss for Israel, turning public opinion against them - which may be working (Aday et al., 2019). Additionally, Hamas has told civilians to ignore Israeli military calls for evacuation (Reuters, 2024b). References   Al Jazeera. Biden warns Netanyahu against ‘mistake’ of invading Rafah. Al Jazeera. Disponível em:  https://www.aljazeera.com/news/2024/3/18/biden-warns-netanyahu-against-mistake-of-invading-rafah-white-house. Acesso em: 29 abr. 2024.   BERGMAN, Ronen; FASSIHI, Farnaz; SCHMITT, Eric; et al. Miscalculation Led to Escalation in Clash Between Israel and Iran. The New York Times, 2024. Disponível em: https://www.nytimes.com/2024/04/17/world/middleeast/iran-israel-attack.html. Acesso em: 8 maio 2024.   BERMUDEZ, Krystal. Houthi Missile Strikes Israeli Soil for First Time. FDD. Disponível em: https://www.fdd.org/analysis/2024/03/22/houthi-missile-strikes-israeli-soil-for-first-time. Acesso em: 2 maio 2024. .e Blinken says US cannot support Rafah assault without humanitarian plan. Reuters. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/israel-blinken-set-push-netanyahu-sustained-aid-into-gaza-2024-05-01. Acesso em: 2 maio 2024.e   Blinken, Saudi crown prince discuss achieving peace, security in Gaza, US says,  Reuters. Disponível em: https://www.reuters.com/world/blinken-saudi-crown-prince-discuss-achieving-peace-security-gaza-us-says-2024-04-29. Acesso em: 29 abr. 2024. Acesso em 29/de abril de 2024.c   CLAUSEWITZ, Carl von. **On war**. Princeton, N.J: Princeton University Press, 1976.   CLIFF, Roger. The Nature of Escalation. 2023. In: MORGAN, Forrest E; MUELLER, Karl P; MEDEIROS, Evan S; et al. Dangerous Thresholds: Managing Escalation in the 21st Century, 2023.   COMMURI, Meheer. One Step Forward, Two Steps Behind: The US Shift Away From the Middle East Penn Global. Perry World House 2023. Disponível em: https://global.upenn.edu/perryworldhouse/news/one-step-forward-two-steps-behind-us-shift-away-middle-east. Acesso em: 2 maio 2024.   DAGRES, Holly. A year ago, Beijing brokered an Iran-Saudi deal. How does détente look today? Atlantic Council. Disponível em: https: www.atlanticcouncil.org/blogs/iransource/iran-saudi-arabia-china-deal-one-year. Acesso em: 1 maio 2024.   Gaza: Israeli PM Netanyahu says Rafah attack will happen regardless of deal. BBC. 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-middle-east-68928996. Acesso em: 2 maio 2024.   Hamas tells Gaza residents to stay put as Israel ground offensive looms. Reuters, 2023. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/hamas-tells-gaza-residents-stay-home-israel-ground-offensive-looms-2023-10-13. Acesso em: 8 maio 2024.b Hezbollah Leader Regrets Kidnapping that Led to War with Israel. Voice of America. Disponível em: https://www.voanews.com/a/a-13-2006-08-27-voa14/313338.html. Acesso em: 8 maio 2024.   Hybrid Threats: Hamas’ use of human shields in Gaza. In. Aday S., et al. (2019). Hybrid Threats. A Strategic Communications Perspective. Riga: NATO Strategic Communications Centre of Excellence, 2019.   HELOU, Agnes. After shooting down Iranian munitions, Jordan defiant in uncomfortable spotlight. Breaking Defense, 2024. Disponível em: https://breakingdefense.sites.breakingmedia.com/2024/04/jordans-abdullah-ii-defends-shootdown-of-iranian-munitions-over-its-airspace-during-attack-on-israel. Acesso em: 2 maio 2024.   KAYE, Dalia Dassa; VAKIL, Sanam. Only the Middle East Can Fix the Middle East. Foreign affairs, 2024.   MAZARR, Michael. Understanding Deterrence. Rand Corporation, 2018.   MENESES, Marco Octávio de. What’s next for the Iran Nuclear Deal. Petrel, vol. 6 n. 1 - 2024 (not published).   PAMUK, Humeyra; CORNWELL, Alexander; MAGID, Pesha. US, Britain urge Hamas to accept Israeli truce proposal. Reuters, 2024. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/us-secretary-state-antony-blinken-arrives-saudi-arabia-2024-04-29. Acesso em: 2 maio 2024.a   RASHEED, Ahmed; HAFEZI, Parisa; AZHARI, Timour. Iraqi armed groups dial down U.S. attacks on request of Iran commander. Reuters, 2024. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/iraqi-armed-groups-dial-down-us-attacks-request-iran-commander-2024-02-18 . Acesso em: 2 maio 2024.d   REGAN, Helen; QIBLAWI, Tamara; ALKHSHALI, Hamdi. Iran vows revenge as it accuses Israel of deadly airstrike on Syria consulate in deepening Middle East crisis. CNN. Disponível em: https://www.cnn.com/2024/04/02/middleeast/iran-response-israel-damascus-consulate-attack-intl-hnk/index.html. Acesso em: 1° maio 2024.   Report: Gulf states, including Saudi Arabia, provided intelligence on Iran attack. The Times of Israel, 2024. Disponível em: https://www.timesofisrael.com/report-gulf-states-including-saudi-arabia-provided-intelligence-on-iran-attack/. Acesso em: 2 maio 2024.   Tehran plays down reported Israeli attacks, signals no retaliation. Reuters. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/israeli-missiles-hit-site-iran-abc-news-reports-2024-04-19. Acesso em: 2 maio 2024.d   The Abraham Accords. United States Department of State. Disponível em: https://www.state.gov/the-abraham-accords. Acesso em: 1 maio 2024.   U.S. pauses bombs shipment to Israel amid Rafah assault dispute. NBC News. Disponível em: https://www.nbcnews.com/news/world/us-pauses-weapons-shipment-bombs-israel-rafah-assault-cease-fire-gaza-rcna151187. Acesso em: 8 maio 2024. US president holds separate calls with leaders from Qatar, Egypt over Gaza ceasefire talks. Reuters, 2024. Disponível em: https://www.reuters.com/world/us-egyptian-presidents-hold-phone-call-over-gaza-ceasefire-talks-2024-04-29/. Acesso em 29 de abril de 2024.a

  • Análise Quinzenal

    por João Paulo Urbano       O Mercosul, como conhecemos, dificilmente atingirá seus objetivos. A integração latino-americana, tão almejada pelo grupo, tem colecionado diversos fracassos políticos, econômicos e institucionais, pouco avançando para a criação de um Mercado Comum de fato.  Desde a sua criação com o Tratado de Assunção em 1991, obstáculos materiais têm se sobreposto à vontade inicial dos países de promover os avanços desejados. Observa-se, portanto, uma crescente perda de força do Mercosul, resultando em um processo de integração praticamente estagnado (DA SILVA; DA SILVA, 2017). O histórico do bloco revela as dificuldades intrínsecas em promover a integração na América do Sul, especialmente por ser uma região marcada pelo subdesenvolvimento e desigualdades pronunciadas. Isso posto, é preciso compreender quais as dificuldades enfrentadas pelo MERCOSUL e destacar de que maneira as realidades econômico-políticas dos países-membros impedem o avanço da integração.   O desenvolvimento da economia-política do Mercosul       O processo de integração do MERCOSUL foi marcado por incertezas que fragilizam as atividades do bloco. Limitações institucionais, ausência de políticas públicas nas mais diversas áreas e a inefetividade das instituições criadas, as quais possuem apenas caráter consultivo, como o Parlamento do Mercosul (PARLASUR) demonstram as dificuldades de avanço do processo integrativo. Aliado a isso, a completa ausência de capilaridade social do bloco, convergiu para o fracasso do plano integrativo e aprofundou a crise mercosulina, que não apresenta um horizonte concreto de superação (DA SILVA & DA SILVA, 2017).    É preciso voltar à própria formação do Mercosul e analisar as reais possibilidades de se criar um Mercado Comum. Na prática, fatores estruturais e particularidades no plano nacional e regional se somaram para criar uma conjuntura de dificuldades inerentes a esse processo. As persistentes fragilidades e limitações institucionais mencionadas por Da Silva & Da Silva (2017) são diretamente decorrentes desses elementos. Em primeiro lugar, o fator determinante reside na própria formação histórica das economias da região. Os países latino-americanos passaram por um tipo específico de desenvolvimento capitalista, cunhado como capitalismo dependente. Essa especificidade do capitalismo latino-americano é um fator estrutural marcadamente presente na região, afetando diretamente as possibilidades do processo integrativo. O que se sucede, portanto, é que todos os países do bloco apresentam características de economias primárias exportadoras, com níveis baixos de industrialização e balanças comerciais desfavoráveis em relação às potências desenvolvidas.     A criação de um mercado comum nessas realidades se torna necessariamente uma tarefa hercúlea, já que a baixa industrialização desses países faz com que todo acordo de liberalização do comércio necessariamente passe por um abandono de todo o protecionismo, tão necessário para alavancar o reduzido setor industrial de cada país. Para melhor ilustrar, pensemos em um exemplo prático. Caso se avance para uma realidade de mercado comum, as tarifas alfandegárias da maioria dos produtos precisariam cair. Em um cenário onde o processo integrativo aconteça entre países industrializados, a queda das tarifas alfandegárias geraria uma conjuntura em que as vantagens comparativas alavancariam as indústrias mais potentes de cada país. Este entretanto, não é o caso do Cone Sul. Na região mercosulina, inexiste a complexificação produtiva, isto é, não existe diversidade entre os ramos industriais, as indústrias mais fracas de cada país seriam engolidas pela entrada das indústrias mais fortes do país vizinho, e a pouca diversidade industrial se reduziria ainda mais. Na prática, foi exatamente esse o processo mercosulino.     A título de exemplificação, isso ocorreu com o avanço agressivo do setor de carne de frango brasileiro nos países vizinhos. Como o Brasil é uma potência na indústria alimentícia, a liberalização do comércio intrabloco serviu para que esse setor adentrasse com toda a força nos mercados argentinos, paraguaios e uruguaios, promovendo uma política agressiva de dumping e eliminando assim qualquer concorrência das indústrias nacionais de cada país. Tal processo também ocorreu em outras esferas produtivas e contribuiu para o declínio das indústrias de cada país afetado.     Essas assimetrias existentes, especialmente entre Brasil e Argentina em comparação com Uruguai e Paraguai, dificultam a criação até mesmo de uma união aduaneira plena. Na melhor das hipóteses, o Mercosul conseguiu estabelecer uma união aduaneira imperfeita. De um lado, os ramos da indústria que se adequaram à Tarifa Externa Comum (TEC) estabelecida para os países do bloco passaram pelo processo mencionado acima. Com a predominância do setor industrial do Brasil, a institucionalização da TEC resultou em uma grande expansão do mercado brasileiro, sem necessariamente ter uma contrapartida significativa principalmente dos mercados paraguaios e uruguaios. Por outro lado, os setores que não se adequaram à TEC foram salvaguardados pelo extenso protecionismo acordado para proteger aqueles que se sentiram mais ameaçados pela liberalização forçada do comércio (VAZ, 2002). É, portanto, difícil imaginar sequer uma união aduaneira plena nessa realidade, e pensar na criação de um Mercado Comum é uma ideia hoje completamente impensável.   O processo negociador e os interesses empresariais       Essa base estrutural do desenvolvimento econômico-político do bloco fundamentou, portanto, o processo negociador em si. Compreende-se que as negociações para a construção do Mercosul ocorreram predominantemente no âmbito governamental-empresarial, com participação limitada de partidos políticos, parlamentos e, sobretudo, sem envolvimento social significativo (VAZ, 2002). Esse cenário estabeleceu uma preocupação primordialmente econômica para o bloco, permeada pelos interesses empresariais. Conforme salientado por Vaz, para compreender o processo negociador, é necessário considerar:   “(...) não apenas a crescente diversidade de autores e de interesses presentes na cena internacional e que, consequentemente, orientam processos de negociação em tal âmbito, mas também os fatores, tanto de ordem interna quanto de ordem externa, que atuam na redefinição dos interesses e no próprio comportamento dos Estados diante da possibilidade de cooperação internacional” (VAZ, 2002, p. 32).       Em outras palavras, a significativa influência do empresariado nas negociações, aliada à ausência de influência dos movimentos sociais, mediou os interesses do processo e determinou, paradoxalmente, os limites da própria integração. Na prática, o interesse comercial, excluindo, dessa forma outros interesses sociais e políticos, conferiu ao processo de integração mercosulino uma incapacidade de se desenvolver plenamente. Temos, então, a continuidade de um processo quase que estritamente econômico, voltado principalmente para beneficiar o grande empresariado, especialmente o do Brasil e o da Argentina. Dessa forma, um ideal de integração que incluísse questões sociais, culturais e políticas foi deixado de lado em prol dos interesses das elites econômicas da região.     Isto posto, a persistência de assimetrias e disparidades entre os países, contrárias portanto a qualquer interesse integrativo, demonstrou na verdade ser benéfica para essas mesmas elites que influenciaram o processo negociador. O desenvolvimento de um Mercado Comum implicaria na redução dessas assimetrias, o que não interessa em uma realidade de franca expansão dos setores industriais mais fortes. Prova disso foram as respostas dadas pelas empresas brasileiras em uma pesquisa do IPEA realizada em 2001, na qual foram observadas as opiniões dos industriais sobre as restrições existentes para o comércio interno no Mercosul. Uma das principais respostas, tanto no ramo siderúrgico quanto no setor de carnes de frango — setores de peso do mercado brasileiro —, foi a política antidumping imposta pelos países vizinhos. As empresas brasileiras compreendiam que conter a prática de dumping era um obstáculo fundamental para a política comercial do Mercosul. Em outras palavras, o interesse era conquistar o mercado dos países vizinhos sem dar qualquer chance para as empresas nacionais de cada país do bloco (KUME et al., 2001).     O beneficiamento do empresariado brasileiro se expressa claramente no crescimento econômico do Mercosul ao longo das décadas. O comércio intrabloco expandiu-se em uma proporção maior do que o comércio mundial desde a criação do Mercosul, e o Brasil, como a economia mais produtiva da região, representa 72% do PIB nominal do Mercosul, possuindo um PIB de US$2,67 trilhões, enquanto o Paraguai possui apenas US$41,3 bilhões (BENEVIDES, 2023). As assimetrias existentes são significativamente discrepantes e impedem, por exemplo, que os setores produtivos do Paraguai (a menor economia do bloco) possam sobreviver em um cenário de competição desigual. O que se observa é que os processos comerciais do Mercosul operam como um jogo de soma zero, em que um não ganha se o outro não perder (VAZ, 2002).   Desafios e impasses       Esse predomínio brasileiro causa receios nos países vizinhos, conforme apontado por Marini (2012 apud MOTA FILHO, 2018) ao destacar traços do 'subimperialismo brasileiro'. Os países do Cone-Sul temem a imposição da presença brasileira e sua consequente projeção de poder (PECEQUILO; CARMO, 2015 apud RODRIGUES, 2018), fatores que contribuem para a retração do desenvolvimento de uma integração efetiva. Theotônio dos Santos (1973 apud MOTA FILHO, 2018) também destaca como a questão do subimperialismo determina que, em um processo de integração, as diferenças econômicas implicam necessariamente em diferenças de poder político. Conforme Mota Filho:   Ainda que na retórica dos acordos diplomáticos se preze pela afirmação de processos de integração “sem hegemonismos”, não há como negar que as assimetrias existentes mesmo em países dependentes [acarretem em hierarquias entre eles]. (MOTA FILHO, 2018, p. 157)       Essas hierarquias também se refletem no plano institucional. Brasil e Argentina, como as principais potências do bloco, discutem inicialmente de maneira bilateral os acordos tratados no Mercosul para posteriormente envolver Uruguai e Paraguai nas negociações quadrilaterais (VAZ, 2020). Essa abordagem gera indícios de descontentamento entre os demais membros, afetando o avanço da integração de maneira mais ampla. Um exemplo disso é que nos últimos anos o Uruguai tem proposto a redução da TEC e uma maior flexibilização para comercializar com países fora do bloco, buscando seus próprios interesses comerciais com a China (URUGUAI [...], 2021).  Ao perceber sua posição minoritária no grupo, o Uruguai intercede em prol de seus interesses nacionais, contrapondo-se à primazia das relações intrabloco. Uma possível redução da TEC e flexibilização do comércio extrabloco, consequentemente, acabaria com a pouca força que restou ao Mercosul e comprometeria a própria lógica da União Aduaneira.     Em resumo, as dificuldades no processo de integração do Mercosul são numerosas, e as soluções são escassas. O histórico do bloco evidencia as dificuldades estruturais no desenvolvimento nacional das economias da região. Em grande medida, as questões políticas e econômicas de cada país constituem os obstáculos principais no processo integrativo. As assimetrias entre os países e a submissão do desenvolvimento mercosulino aos interesses das elites econômicas são fatores que se somam e determinam os limites do processo integrativo.     Nos próximos anos, as expectativas em relação a um aumento da relevância do Mercosul no plano regional são bastante baixas. Os problemas estruturais inevitavelmente dependem dos esforços internos de cada país para superar sua condição de dependência, visando a diversificação de seus setores produtivos e o fortalecimento de suas economias. As assimetrias no bloco exigem um esforço considerável e uma vontade genuína de equacionar o desenvolvimento nacional dos países menos desenvolvidos. No entanto, todos os indícios sugerem que essa nunca foi a intenção fundamental do bloco. Na prática, é possível esperar que, mantendo-se tudo mais constante e sem alterações radicais nas políticas econômicas internas de cada país, o Mercosul caminhe para ocupar um posto cada vez menos relevante na América do Sul.   REFERÊNCIAS   BAMBIRRA, Vânia. O Capitalismo Dependente Latino-Americano. Florianópolis: Insular, 2012 BENEVIDES, H. F., Gabriel. Brasil responde por 72% do PIB nominal do Mercosul. Disponível em: https://www.poder360.com.br/economia/brasil-responde-por-72-do-pib-nominal-do-mercosul/ . Acesso em: 18 de nov, 2023. Às 16h06.   DA SILVA, Marcos Antonio; DA SILVA, Lucimara Inácio do Prado. O MERCOSUL e o novo momento político na América Latina: aprofundamento ou estagnação?. 2017   KUME, Honorio; ANDERSON, Patrícia; OLIVEIRA JÚNIOR, Márcio de. Identificação das barreiras ao comércio no Mercosul: a percepção das empresas exportadoras brasileiras. 2001.   MARINI, Ruy. O ciclo do capital na economia dependente. In: FERREIRA, Carla; LUCE; Mathias; OSORIO, Jaime. Padrão de reprodução do capitalismo: contribuições da teoria marxista da dependência. São Paulo: Boitempo, 2012. p. 21-35.   MENEZES, Miriam Albene. ¿Será posible el Sur? América do Sul: integração e autonomia no contexto de globalização, 1990 – 2015. IN Latitud Sur N° 11, Año 2016. CEINLADI, FCE. UBA. ISSN 1850-3659. Publicado por: Facultad de Ciencias Económicas de la Universidad de Buenos Aires.   RODRIGUES, Bernardo Salgado. Mercosul: 25 anos de avanços e desafios. Revista Neiba, Cadernos Argentina Brasil, [S. l.], v. 5, n. 1, p. e27486, 2017. DOI: 10.12957/neiba.2016.27486. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/neiba/article/view/27486. Acesso em: 18 nov. 2023.   URUGUIAI propõe mudar regras do Mercosul, e países do bloco se desentendem. Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/04/27/uruguai-propoe-mudar-regras-do-mercosul-e-paises-do-bloco-se-desentendem.ghtml>. Acesso em: 18 nov. 2023.   VAZ, A. C. . Cooperação, Integração e Processo Negociador: A Construção do Mercosul. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2002. v. 01. 308p .  

  • Destaques

      O PET-REL tem o prazer de anunciar a publicação da Revista Petrel (ISSN 2675-777X) volume 5, número 2, edição de março de 2024, dedicada a explorar o complexo e multifacetado tema da Guerra na Ucrânia. Esta edição, composta inteiramente por textos de autoria estudantil, marca dois anos desde o início do conflito, trazendo à luz as suas emergências e repercussões internacionais. Convidamos a todos a mergulhar nessas discussões, ampliando seu entendimento sobre um dos mais significativos conflitos contemporâneos. Leia a Revista Petrel hoje e junte-se a nós na reflexão sobre essas questões críticas     Apresentação - Dois anos de Guerra na Ucrânia: emergência e repercussões internacionais do conflito   Daniel Jatobá (Tutor PETREL/UNB)   As ameaças híbridas no contexto do conflito russo-ucraniano   Natália Grass (PETREL/UNB) Guerra entre Rússia e Ucrânia: uma proxy war do Ocidente?   Lenira Vitoria Barroso de Oliveira (PETREL/UNB) A interferência dos Estados Unidos no conflito entre Rússia e Ucrânia e as consequências para o sistema internacional   Mariana Nascimento (PETREL/UNB) Rússia e Ucrânia: uma proxy war dos Estados Unidos   Camila Gomes (PETREL/UNB) O nazismo ucraniano: causas, origens e consequências   João Paulo Urbano e Nathália Rabelo (PETREL/UNB) As Consequências Ambientais da Guerra entre Rússia e Ucrânia   Isis Aquino (PETREL/UNB) Weaponizing the environment in Ukraine: silent and neglected victim of war and International Law   Marina Morena Caires (PETREL/UNB) The case of Putin's arrest warrant and the judicialization of international relations   Ana Helena Resende and Amanda Arrigo (PETREL/UNB) Should the EU escalate in Ukraine?   Marco Octávio de Meneses (PETREL/UNB) Is China a credible mediator for the Russia-Ukraine war?   Lucas Cavalcanti dos Santos (PETREL/UNB) Homophobic War in Ukraine: a queer eye on International Security   Felipe Alexandre Moura (PETREL/UNB)