Gabriel Boaventura
No século XIX, Simón Bolívar sonhou, junto aos seus colegas revolucionários, uma realidade na qual os Estados recém-libertos da opressão colonial espanhola se uniriam, formando um grande país. A ideia, no entanto, não se concretizou e, ao longo das décadas, a América Latina fragmentou-se ainda mais, fosse por questões linguísticas, políticas, econômicas ou territoriais. Ainda assim, para amenizar esse afastamento, líderes latino-americanos tentaram formar organizações e acordos de cooperação, mesmo que limitados por um contexto de valorização da soberania estatal.
Ocorre que, no meio do caminho, havia uma potência: os Estados Unidos. Seja pela Doutrina Monroe, pela Operação Condor ou por estratégias mais recentes de projeção de poder e controle regional, o que se cristalizou foi uma relação assimétrica entre a potência norte-americana e os países latino-americanos, a qual contribuiu para a manutenção de dinâmicas de dependência, intervenção e influência política. Ao mesmo tempo, práticas discursivas foram evocadas associando a América Latina — e, sobretudo, seus migrantes — a problemas de segurança, ilegalidade e instabilidade.
Ao mesmo tempo, a cultura e a estética latino-americanas ganharam destaque nos últimos anos, especialmente no cinema e na música. No cinema, produções como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” destacaram o Brasil em circuitos internacionais, enquanto o filme francês “Emilia Pérez” gerou polêmica ao retratar o México com estereótipos, sendo criticado por sua abordagem externa e pouco sensível à realidade local . Já na música, o porto-riquenho Bad Bunny dominou premiações com seu álbum “Debí Tirar Más Fotos”, que incorpora elementos culturais latino-americanos e discute questões como identidade e transformações sociais
Seria possível traçar um paralelo entre esses dois fenômenos? A valorização cultural de uma região tão fragmentada, embora unida por signos culturais fraternos, pode estar relacionada a um momento de inseguranças e ameaças de potências estrangeiras? O objetivo desta análise é entender se, de alguma maneira, a cultura latina está sendo usada como vetor de coesão frente às ingerências que assolaram e, aparentemente, continuarão assolando o continente. “Agora todos querem ser Latinos” é uma moda ou uma estratégia de resistência cultural?
Quando ser Latino torna-se um problema
Logo em seu primeiro mandato, Donald Trump afirmava que todo país precisava de uma fronteira e que a construção de um muro seria a forma mais eficaz de conter a “invasão” de drogas, gangues e pessoas na divisa entre os Estados Unidos e o México (Remarks…, 2019). Mais recentemente, em seu segundo mandato, durante seu discurso do Estado da União, Trump voltou a mobilizar essa narrativa ao apresentar casos de crianças e jovens assassinados por “estrangeiros ilegais” que teriam ingressado no país em razão de políticas de fronteiras abertas (Bobadilha, 2026).
A utilização do termo “invasão” e de narrativas sensacionalistas não é neutra: ela simplifica a dinâmica fronteiriça ao construir um antagonismo entre invasores — associados a traficantes, criminosos e migrantes — e um “nós” nacional a ser defendido. Essa construção recai majoritariamente sobre a América Latina, já que sete das dez nacionalidades mais frequentes na fronteira sul dos EUA são latino-americanas (Rosch; Oropeza, 2025).
A problemática não se restringe à dimensão discursiva. A construção de um inimigo externo que se internaliza — que invade — gera implicações políticas e materiais profundas. Dados recentes de Statista Research Department (2026) demonstram que, até julho de 2025, o Immigration and Customs Enforcement (ICE) deportou 157.365 pessoas, sendo os mexicanos o maior grupo, com 64.604 deportações, seguidos por guatemaltecos e hondurenhos. Além disso, a maioria das prisões não envolvia indivíduos com antecedentes criminais (New York Immigration Coalition, 2025), indicando que a estratégia se orienta menos por critérios de segurança pública e mais por uma lógica de seletividade baseada no “ser latino”.
Regionalmente, as manobras geopolíticas estadunidenses apontam para um diagnóstico semelhante. Desde a invasão dos Estados Unidos à Venezuela e a deposição — e consequente sequestro — de Nicolás Maduro , Donald Trump tem intensificado sua presença no continente (Zurcher, 2026). Nesse contexto, iniciativas como o chamado Escudo da América, voltado ao combate ao narcotráfico, ao crime organizado e à imigração irregular (Alonso, 2026), indicam uma ampliação da atuação estratégica no Hemisfério Ocidental.
O acordo firmado entre o Paraguai e os Estados Unidos também reforça essa lógica de aprofundamento da presença norte-americana na região. O pacto autoriza a atuação de militares e civis do Departamento de Defesa em território paraguaio, com amplos privilégios, isenções e imunidades, incluindo submissão à jurisdição penal dos EUA e dispensa de tributos locais (Taddeo, 2026). Tais dispositivos evidenciam uma assimetria jurídica significativa e contribuem para a percepção de ampliação da influência estadunidense no continente.
O que se evidencia, a partir da análise tanto dos discursos quanto das políticas adotadas pelos Estados Unidos, é a construção de uma retórica que define a América Latina como fonte de instabilidade, enquanto os próprios Estados Unidos se apresentam como o agente estabilizador. Trata-se de um enquadramento que não apenas reduz dinâmicas complexas, mas também legitima intervenções, políticas de controle e a ampliação da influência estadunidense sobre o continente. Fica subentendido que o problema não reside nas desigualdades estruturais, nas relações de dependência, muitas vezes impostas pelo país norte-americano, ou nas fragilidades institucionais que marcam a trajetória da região, mas no próprio pertencimento. O problema reside em ser latino.
Ser Latino como denominador comum
Aplicando o entendimento de que “nenhuma coletividade se define como Uma sem colocar imediatamente a Outra diante de si” (Ribeiro, 2017, p. 22) ao caso em análise, observa-se que, como forma de reforçar o “ser americano/estadunidense”, tornou-se necessário cristalizar o “ser latino” como a identidade do outro. Mas e se essa estratégia de exclusão funcionasse, para os próprios latinos, como um vetor de coesão?
O britânico-jamaicano Stuart Hall (2005) compreende a identidade não como essência fixa, mas como construção histórica em constante transformação. No contexto pós-moderno, ela se torna politizada e atravessada por dinâmicas de diferença e exclusão, o que leva à formação de um “eixo comum de equivalência”: identidades distintas passam a ser tratadas como equivalentes pela cultura dominante. Nesse caso, as múltiplas identidades latino-americanas são reduzidas a uma categoria homogênea definida, sobretudo, por aquilo que não é — não estadunidense.
Assim, a multiplicidade de experiências nacionais, culturais e linguísticas contribui, em certa medida, para a emergência de uma identificação comum, construída a partir da articulação dessas diferenças: o Ser Latino. Em um mundo globalizado, essa identidade se concretiza, sobretudo, por meio de sua incorporação em produtos da indústria cultural, como cinema, música, literatura e moda.
As análises de tendências demonstram que a produção latino-americana, antes periférica, hoje é central para o entretenimento global, com projeções para crescer ainda mais em 2026 (Birke, 2025). A consequência desse fenômeno é a intensificação da circulação de signos, estéticas e narrativas que passam a ser reconhecidas como “latinas”, não mais em oposição ao outro, mas como uma identidade em si.
Esse movimento se evidenciou, por exemplo, na ampla torcida de latino-americanos pela consagração do filme “Ainda Estou Aqui”, bem como na rejeição a produções como “Emilia Pérez” (Vinha, 2025). A controvérsia foi intensificada por declarações do diretor Jacques Audiard, que classificou o espanhol como um “idioma de pobres e migrantes”, somadas a críticas quanto à superficialidade de sua pesquisa sobre o contexto mexicano (Diretor…, 2025). Essa situação revela como a identidade latino-americana é frequentemente construída a partir de um olhar externo que a posiciona como desvio em relação a uma norma implícita, ou seja, como o “outro”. Nesse sentido, a reação do público latino-americano pode ser interpretada como uma recusa às tentativas de definição do que é Ser Latino por aqueles que não o são, ao mesmo tempo em que afirma a construção dessa identidade a partir de seus próprios termos.
No campo musical, a identificação com artistas como Bad Bunny também expressa esse fenômeno. Suas temáticas, estética e escolhas linguísticas ressoam para além de Porto Rico, sendo apropriadas como expressão de uma experiência latino-americana compartilhada. Esse processo se evidencia de forma particularmente simbólica em sua apresentação no Super Bowl (Borges, 2026). Em determinado momento, ao proclamar “God bless America”, o artista subverte o sentido tradicional da expressão patriótica estadunidense ao, em seguida, mencionar países latino-americanos, ampliando o próprio significado de “América”. Na companhia de bandeiras de diversos países latino-americanos, a apresentação exibiu, no telão, a mensagem “Juntos, somos América” enquanto o artista afirmava “Seguimos aqui”, sintetizando uma narrativa de permanência, resistência e afirmação identitária coletiva diante do atual contexto de exclusão e perseguição.
Nesse sentido, a dimensão regional ganha centralidade como espaço privilegiado de identificação. Longe de desaparecer diante da globalização, as referências culturais regionais passam a assumir maior relevância, operando como eixo de articulação entre sujeitos diversos. Como observa Stuart Hall (2005, p.73), os processos globais não apenas tensionam as identidades nacionais, mas também contribuem para o fortalecimento de identidades locais, regionais e comunitárias. Assim, o Ser Latino pode ser compreendido como resultado desse movimento, no qual o regional deixa de ocupar uma posição periférica e passa a estruturar formas de pertencimento compartilhado, conectando experiências, estéticas e narrativas em um cenário globalizado.
Considerações Finais
A identidade latino-americana não é nova, mas ganha novos contornos no contexto atual, marcado por tensões, ameaças e enquadramentos externos que posicionam a região como um problema a ser enfrentado. Assim, a cultura ultrapassa a dimensão da expressão e se reconfigura na esfera da articulação identitária. Os signos, as narrativas e a estética do Ser Latino circulam construindo um denominador comum de pertencimento, apesar da diversidade de vivências envolvidas nesse processo.
Os latinos passam a se reconhecer não mais como o desvio da norma, mas como sujeitos de uma cultura e identidade próprias, construídas a partir de experiências compartilhadas. O Ser Latino passa a ser definido por elementos positivos, como a resiliência e a capacidade de enfrentamento, em contraste com a lógica anterior, que o reduzia a uma identidade marcada pela exclusão, concebida como objeto a ser controlado, domado e domesticado.
No entanto, é importante fazer uma ressalva: ainda que a cultura desempenhe papel relevante na construção e difusão de identidades, a política não pode ser reduzida às suas expressões simbólicas. A consolidação e a proteção do Ser Latino enquanto categoria de pertencimento e afirmação demandam, igualmente, a atuação de mecanismos institucionais, econômicos e jurídicos capazes de enfrentar as assimetrias estruturais que historicamente marcam a região.
Ainda assim, é fundamental destacar a função de coesão que a cultura exerce sobre o Ser Latino. Em meio a tentativas recorrentes de enquadramento, controle e domesticação, são justamente as expressões culturais que permitem a articulação de pertencimentos, a circulação de afetos e o reconhecimento mútuo entre sujeitos diversos. Não é fácil definir o que é Ser Latino, mas essa definição virá e partirá dos nossos termos.
Referências Bibliográficas
ALONSO, J. F. O que é o Escudo das Américas, a nova iniciativa de Trump para o continente, liderada por secretária demitida. BBC, 7 mar. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c15x24k0z5do. Acesso em: 28 mar. 2026.
BIRKE, S. The culture of Latin America will continue its global rise. The Economist, 12 nov. 2025. Disponível em: www.economist.com/the-world-ahead/2025/11/12/the-culture-of-latin-america-will-continue-its-global-rise. Acesso em: 29 mar. 2026.
BOBADILHA, D. Duração de 1h47: Leia na íntegra o discurso de Trump do Estado da União. CNN Brasil, 25 fev. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/duracao-de-1h47-leia-na-integra-o-discurso-de-trump-do-estado-da-uniao/. Acesso em: 28 mar. 2026.
BORGES, N. Bad Bunny está certo? O jogo de poder por trás da palavra ‘americano’. Veja, 10 fev. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/na-ponta-da-lingua/bad-bunny-esta-certo-o-jogo-de-poder-por-tras-da-palavra-americano/. Acesso em: 20 abr. 2026.
DIRETOR de Emilia Pérez levanta polêmica ao dizer que espanhol é 'idioma de pobres e migrantes'. O Globo, 1 fev. 2025. Disponível em: https://oglobo.globo.com/ela/gente/coluna/2025/02/diretor-de-emilia-perez-levanta-polemica-ao-dizer-que-espanhol-e-idioma-de-pobres-e-migrantes.ghtml. Acesso em: 8 abr. 2026.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. 10ª ed. Rio de janeiro: DP&A; 2005.
NEW YORK IMMIGRATION COALITION. Unmasking ICE’s Anti-Latino Practices – and What New York City Can Expect. New York: NYIC, 2025. Disponível em: https://www.nyic.org/wp-content/uploads/2025/12/NYC-Area-ICE-Arrests-v4-JV-12.8.25.pdf. Acesso em: 29 mar. 2026.
REMARKS by President Trump on the National Security and Humanitarian Crisis on our Southern Border. The White House, 15 fev. 2019. Disponível em: https://trumpwhitehouse.archives.gov/briefings-statements/remarks-president-trump-national-security-humanitarian-crisis-southern-border/. Acesso em 28 mar. 2026.
RIBEIRO, D. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento; Justificando, 2017.
ROSCH, C; OROPEZA, V. 7 gráficos que mostram quais imigrantes Trump quer deportar dos EUA. BBC, 30 mar. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c1d4v543yy3o. Acesso em: 28 mar. 2026.
STATISTA RESEARCH DEPARTMENT. Number of deportations by ICE by nationality in the U.S. 2025. Statista, 2026.
TADDEO, L. Senado paraguaio aprova presença de militares dos EUA no país. CNN Brasil, 4 mar. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/senado-paraguaio-aprova-presenca-de-militares-dos-eua-no-pais/#goog_rewarded. Acesso em: 28 mar. 2026.
VINHA, F. Emilia Pérez | TV mexicana comemora derrota no Oscar e vitória do Brasil. Omelete, 3 mar. 2025. Disponível em: https://www.omelete.com.br/filmes/emilia-perez-tv-mexicana-comemora-derrota-no-oscar-e-vitoria-do-brasil. Acesso em: 29 mar. 2026.
ZURCHER, A. Venezuela could now define Trump's legacy - and America's place in the world. BBC, 3 jan. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/cx2x70k2q26o. Acesso em: 28 mar. 2026.