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PET-REL

Maria Eduarda S. P. Santos

A partir de 2024, a emergência de um novo cenário monetário internacional passou a ganhar força, impulsionada pelo avanço da desdolarização e pela ascensão de moedas alternativas ao dólar no comércio global. Nesse contexto, a China tem promovido um redesenho da arquitetura financeira internacional, tendo o yuan como protagonista e a Nova Rota de Seda como principal instrumento geoeconômico. A hegemonia do dólar, construída desde o acordo de Bretton Woods em 1944 e reforçada com o sistema do petrodólar nos anos 1970, baseia-se na liquidez da moeda americana, na profundidade do mercado financeiro dos EUA e na centralidade institucional de mecanismos como o SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication no inglês ou Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais no português), sistema que tem como principal função permitir a troca de informações bancárias e transferências financeiras entre as instituições financeiras de dois países ou mais. No entanto, como apresentado por Bandeira (2024), esses fundamentos começaram a ser corroídos por dinâmicas recentes que aceleraram a busca por um sistema mais multipolar e resiliente.

O projeto da Nova Rota da Seda, ou BRI, do inglês, foi lançado oficialmente em 2013, e evoluiu de um mega projeto de infraestrutura física para um ecossistema estratégico de integração financeira. Wong (2023) aponta que em sua nova fase, a BRI serve como plataforma para expansão da utilização do yuan em contratos bilaterais com países da Ásia Central, África, América Latina e Oriente Médio. Essa mudança está atrelada à construção de uma infraestrutura institucional paralela, como o CIPS (Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços), que oferece uma alternativa ao SWIFT e viabiliza liquidações fora do circuito dolarizado.

Desse modo, essa análise de conjuntura busca examinar o atual estágio do processo de desdolarização à luz da ascensão econômica da China e da crescente projeção internacional do yuan como moeda de comércio. Buscando avaliar em que medida essa dinâmica pode representar uma transição rumo a uma nova arquitetura monetária global, capaz de desafiar, ou mesmo substituir, a centralidade do dólar no sistema internacional.

A Construção de um Sistema Financeiro Alternativo: A Ascensão do Yuan no Sul Global

O impulso por trás da desdolarização resulta da convergência entre fatores geopolíticos, econômicos e institucionais. A China, diante do aumento recente do uso político e militar do dólar pelos Estados Unidos, sobretudo por meio de sanções econômicas e congelamento de reservas internacionais, passou a intensificar sua busca por autonomia monetária. A atribuição de tarifas de importação feita pelos EUA, conhecida como “Tarifaço”, por exemplo, gerou forte comoção entre as economias mundiais, gerando uma alta procura de alternativas de mercados consumidores pelo mundo.

Nesse cenário, a estratégia chinesa para consolidar o yuan como alternativa viável é multifacetada. Ela envolve, de um lado, o fortalecimento de acordos bilaterais com liquidação em moedas locais e, de outro, a atuação em fóruns multilaterais, como o BRICS. A adesão de países como Egito, Irã, Etiópia e Arábia Saudita ao grupo, em 2024, reforça o caráter geoeconômico do bloco, que passa a desempenhar papel ativo na construção de um ecossistema financeiro alternativo.

Nesse sentido, iniciativas como o BRICS Pay — plataforma que “busca integrar moedas nacionais dos países-membros, permitindo a liquidação direta das transações, sem necessidade de intermediários ocidentais” (Bueno, 2025) — e os avanços no desenvolvimento de uma moeda digital comum entre os membros refletem a tentativa de institucionalizar mecanismos de liquidação fora do circuito dolarizado. O fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e os acordos de swap — estes sendo definidos por Ana Tereza Lopes Marra de Sousa e William Daldegan (2020) como o comprometimento de uma autoridade monetária em troca uma moeda nacional, que seja emitida por ela, por outra moeda, que deverá ser emitida e avalizada por alguma outra autoridade monetária — entre bancos centrais do BRICS também caminham nessa direção, promovendo uma infraestrutura que permite transações em moedas locais, sem passar por Nova York ou Londres.

Por outro lado, a resposta dos Estados Unidos à ofensiva chinesa tem sido predominantemente reativa e marcada pela intensificação de sanções. Essa postura, no entanto, tem efeitos paradoxais: embora procure defender a centralidade do dólar, contribui para aprofundar a percepção de vulnerabilidade associada à dependência da moeda americana.

Segundo dados do FMI e do World Gold Council de março de 2025, a participação do dólar nas reservas globais caiu para cerca de 57%, o menor nível desde os anos 1990. Esse declínio gradual revela uma tendência estrutural de diversificação cambial, acelerada pela reconfiguração das alianças econômicas globais e pelo avanço das alternativas monetárias promovidas pela China e seus aliados.

No plano geopolítico, a disputa entre Estados Unidos e China molda a arquitetura financeira emergente. Enquanto os EUA apostam na centralização regulatória e em sua rede de alianças para preservar a preeminência do dólar, a China oferece a promessa de uma ordem mais descentralizada, com menor imposição política atrelada às relações econômicas. Deste modo, países como a Rússia, o Irã e a Venezuela, que enfrentam isolamento financeiro imposto pelo Ocidente, têm se integrado a sistemas alternativos como o CIPS, estabelecendo interconexões que reforçam a viabilidade técnica de um sistema desdolarizado.

Dessa forma, o contexto político interno dos Estados Unidos adiciona um elemento de incerteza. As atitudes do presidente recém-reeleito, Donald Trump, trouxeram à tona visões sobre o papel internacional do país, e, embora o novo governo tenha sinalizado continuidade na defesa do dólar como moeda hegemônica, sua capacidade de conter o avanço de soluções alternativas permanece limitada diante da crescente autonomia financeira de atores estratégicos.

Com essa visão, a desdolarização emerge não apenas como uma resposta a sanções ou como instrumento de poder econômico da China, mas como expressão de um novo arranjo sistêmico, no qual múltiplos centros de emissão e regulação monetária coexistem. O processo ainda é assimétrico e fragmentado, mas caminha para um ponto de inflexão que poderá redefinir os fundamentos da governança financeira internacional nas próximas décadas.

Um Sistema Monetário em Transição: Substituição ou Convivência?

É perceptível que a desdolarização não representa, até o momento, a substituição abrupta do dólar por outra moeda. A lógica predominante é a da coexistência assimétrica e da diversificação estratégica. O dólar permanece amplamente dominante em contratos financeiros globais, títulos soberanos e nas reservas da maioria dos bancos centrais do G7. Sua resiliência está ancorada na confiança institucional do sistema financeiro ocidental, na liquidez de seus ativos e na profundidade de mercado dos EUA.

Contudo, o crescimento do yuan é inequívoco. Sua participação no comércio internacional aumentou, especialmente nos fluxos Sul-Sul, envolvendo países que mantêm relações privilegiadas com a China. No comércio entre China e Rússia, por exemplo, o yuan já supera o dólar como moeda de referência. Nos contratos com Arábia Saudita, Irã e Brasil, observa-se o mesmo padrão emergente de uso da moeda chinesa.

A substituição gradual do dólar se manifesta de forma mais visível nos contratos bilaterais e nos sistemas de pagamento paralelos. O avanço do yuan, nesse sentido, não é apenas funcional, mas também simbólico: representa a rejeição de uma ordem financeira centralizada no Ocidente e a tentativa de construir uma nova gramática monetária baseada na multipolaridade.

Ainda assim, a moeda chinesa enfrenta obstáculos consideráveis. A participação do yuan nas reservas globais é ainda modesta, e o mercado financeiro chinês permanece relativamente fechado, com limitações à livre conversibilidade da moeda e persistente intervenção estatal. A confiança internacional na estabilidade do yuan ainda está em construção e a transparência regulatória é uma questão sensível para investidores estrangeiros, uma vez que “ainda, os mercados internacionais e as Empresas Multinacionais sentem-se mais confortáveis em transacionar com o dólar” (Nakai, 2003).

A disputa entre dólar e yuan também se estende ao plano tecnológico. Enquanto os Estados Unidos permanecem hesitantes na implementação de uma moeda digital soberana, temendo seus efeitos sobre o sistema bancário tradicional, a China avança com o e-CNY (Yuan Digital), ampliando sua integração com redes comerciais da BRI. Essa assimetria pode acelerar a adoção do yuan digital como instrumento de liquidação transfronteiriça, sobretudo em regiões onde a presença chinesa é estrutural.

Considerações Finais: Em um Bordado a China Costura sua Presença no Sistema Financeiro 

A desdolarização promovida pela China por meio da Nova Rota da Seda constitui um movimento estratégico que visa redesenhar as bases do sistema monetário internacional. Ao fomentar acordos de liquidação em moedas locais, investir em infraestrutura de pagamentos alternativa e promover o yuan como instrumento de comércio e reserva, Pequim desafia diretamente a centralidade do dólar.

Contudo, a substituição plena do dólar é improvável no curto prazo. A moeda americana ainda goza de vantagens estruturais profundas, como a confiança de mercado, o tamanho da economia dos EUA e a inércia institucional do sistema financeiro global. O que se observa, portanto, é uma reconfiguração gradual, na qual o dólar cede espaço em determinadas frentes, especialmente no Sul Global, enquanto o yuan consolida seu papel como moeda regional e funcionalmente relevante.

A verdadeira disputa em curso não é apenas monetária, mas geopolítica: trata-se de duas visões concorrentes de governança global. O dólar representa um modelo liberal e descentralizado, vinculado ao livre mercado e às instituições de Bretton Woods, já o yuan, por sua vez, carrega uma proposta mais estatal, regulada e orientada por interesses estratégicos. A trajetória dessa disputa moldará, nas próximas décadas, os contornos da nova ordem econômica internacional.

Referências

 

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