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    por Yasmin Freitas Taia       Em agosto de 2025, foi aprovado, no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (CSNU, em inglês), o último mandato da Força Interina das Nações Unidas do Líbano (UNIFIL, em inglês), com permanência até dezembro de 2026 e retirada de pessoal durante o ano de 2027 (UNIFIL, 2026). Tal decisão ocorreu devido à escalada de conflitos entre Israel e o grupo armado Hezbollah no Líbano, passando a responsabilidade total para o exército libanês. No entanto, muitos fatores devem ser analisados para compreender as consequências do fim desta Missão de Paz da ONU para o Líbano e para o Oriente Médio como um todo. A escalada do conflito no Líbano está diretamente ligada aos ataques realizados entre Israel e Estados Unidos contra o Irã em 2025, visto que o Hezbollah é um dos integrantes do chamado Eixo de Resistência do Irã e está estabelecido no sul do Líbano. Nesse contexto, a decisão do CSNU está vinculada aos interesses das grandes potências e à crise do multilateralismo que enfraquece a atuação da ONU e de suas missões de paz. Porém, a retirada dos capacetes azuis será um agravante da violência na região, retirando o único órgão internacional responsável por relatar infrações aos acordos de paz e de violação dos direitos humanos.   A Formação da UNIFIL e a Instabilidade Histórica do Sul do Líbano A Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL), criada em 1978 após a invasão de Israel ao sul do Líbano para expulsar a Organização de Libertação da Palestina (OLP), é uma das missões de paz da ONU mais longevas, (Paes, 2018). Nesse sentido, seus principais objetivos são o apoio ao governo libanês para restaurar a sua autoridade, a desmobilização de grupos armados não estatais e o impedimento da entrada de armas ilegais (O Globo, 2025). Contudo, o encerramento do mandato sinaliza uma transição arriscada. Ao transferir a responsabilidade pela segurança para um exército libanês ainda limitado, a retirada da ONU ameaça reabrir o espaço para as mesmas lógicas de força que motivaram a criação da missão há quatro décadas Paralelamente à instabilidade cíclica, o conceito de segurança “absolute security”, apresentado pelo ex-brigadeiro-general do exército israelense Udi Dekel, é atrelado à estratégia militar utilizada por Israel desde os ataques realizados no dia 7 de outubro pelo Hamas (Dekel, 2026). A partir desse conceito, o país busca eliminar de forma absoluta qualquer forma de ameaça, como a presença do Hamas na Palestina, as capacidades balísticas e nucleares do Irã e a permanência do Hezbollah no Líbano, sendo considerado um fracasso qualquer conquista parcial. Dessa forma, a busca por neutralizar ameaças através da força que justificou as invasões ao Líbano, evidenciando que a UNIFIL nasceu e permanece como um mecanismo multilateral para uma guerra contínua. Como contrapeso direto à Israel e à influência dos EUA no Oriente Médio, o Irã formou o “Eixo de Resistência”, uma rede  composta por grupos armados — como Hezbollah (Líbano), Houthis (Iêmen) e milícias xiitas (Iraque) —, funcionando como um “polvo” (Day, 2025). Tal analogia explica-se pela independência de movimentos de cada tentáculo sem ser necessário consultar o cérebro de forma direta. Na aliança iraniana, essa dinâmica reflete-se na autoridade de cada grupo para realizar seus ataques e manobras políticas sem recorrer diretamente ao Irã (Day, 2025). Nesse contexto, a recente decisão, realizada no dia 2 de março de 2026 pelo Hezbollah, de abrir uma nova frente de conflito contra Israel, na fronteira com o Líbano, teve como um dos objetivos o comprometimento com o Irã de desestabilizar o inimigo comum. Logo, a escalada de conflitos no Líbano, que resultou no fim do apoio e pressão política para o encerramento da UNIFIL, está relacionada com a disputa entre Israel, junto aos EUA, e o Irã.   Raízes da Instabilidade: O Histórico de Invasões e a Necessidade de Mediação Em 2000, foi estabelecido pela UNIFIL a “Linha Azul” a fim de delimitar uma área de 120 quilômetros que garantisse a retirada total das tropas israelenses (CNN Brasil, 2024), frente ao conflito fronteiriço histórico entre Israel e o Líbano. Nesse cenário, as tropas da Missão de Paz cumprem um papel fundamental de fiscalização das fronteiras e de manutenção da paz. Atualmente, a missão é composta por 7.478 peacekeepers de 47 países (UNIFIL, 2026) e as operações são realizadas em uma área de 1.060 km² entre a Linha Azul e o Rio Litani (CNN Brasi, 2024l).  O cessar-fogo que estava vigente até a recente escalada do conflito em março de 2026, teve mediação dos Estados Unidos e foi definido em 2024 (G1, 2024). O acordo envolve a retirada de tropas israelenses do sul do Líbano, o distanciamento do Hezbollah da fronteira com Israel, e o fim de qualquer tipo de ataque armado entre as partes (G1, 2024). Apesar deste suposto entendimento entre as partes, Israel violou o acordo e realizou o ataque mais mortal desde o último cessar-fogo, que resultou na morte de mais de 300 pessoas, incluindo ao menos 30 crianças, e em mais de 1.223 feridos (CNN, 2026). Assim, a contradição entre o discurso israelense de absolute security e a continuidade das operações militares representa um desfio para a estabilidade do Líbano. Apesar da retórica oficial de Israel ser de apoio ao Estado libanês contra o Hezbollah, a realidade operacional das agressões demonstra que a própria atuação israelense constitui o principal motor para a escalada de violência na região. A ideia de “segurança absoluta” manifesta-se quando as Forças de Defesa Israelenses declaram que as operações tinham enfoque no Hezbollah, mas realizam ataques em áreas civis provocando danos e mortes (CNN, 2026). Diante disso, o presidente estadunidense Donald Trump se manifestou contrário à postura extremamente ofensiva de Israel, e solicitou maior discrição nas suas atuações (CNN, 2026). No entanto, a ausência de medidas coercitivas dos EUA demonstra a passividade estratégica e que o objetivo não era de fato barrar a atuação israelense, mas sim gerir a repercussão política internacional. Diante dessa lacuna na mediação das grandes potências, a UNIFIL assume um papel indispensável no monitoramento do conflito. A proteção de civis constitui um dos mais relevantes papéis da missão, por meio da qual se realiza a vigilância diária de possíveis violações ao cessar-fogo, buscando a garantia de segurança das populações locais e a entrega de ajuda humanitária. Apesar do cessar-fogo ter sido acordado entre as partes, as forças armadas libanesas relataram violações diárias por Israel, que confirmou mais de 500 ataques aéreos sob o argumento de serem alvos do Hezbollah (OHCHR, 2025). Ademais, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos verificou, até outubro de 2025, 108 casualidades civis — sendo elas 71 homens, 21 mulheres e 16 crianças —, e o  sequestro de pelo menos 16 civis libaneses pelas forças armadas israelenses (OHCHR, 2025). Por outro lado, também houve violações pelo Líbano, que foi responsável pelo incidente de 4 projéteis disparados em direção ao Irã, que desencadeou o deslocamento de 30.000 civis do norte de Israel; no entanto, não houve vítimas (OHCHR, 2025). A partir desses dados, a UNIFIL consolida-se como o único pilar institucional capaz de atuar contra a violência no território, sendo indispensável para os relatórios imparciais de eventuais causalidades e proteção dos civis. Diante da paralisia diplomática das grandes potências, a Força Interina das Nações Unidas no Líbano emerge como principal órgão neutro na região, que realiza multifunções para garantir o bem-estar da população local e para a manutenção da paz. Dessa forma, sua permanência é o que garante o suporte militar e a capacitação técnica necessária para que o exército libanês se fortaleça. Nesse sentido, a decisão do fim dessa missão de paz foi definida diante de um cenário de conflitos de interesses por parte das potências globais e da crise da ONU. Logo, a ausência dos peacekeepers no Líbano é uma variável preocupante para a estabilidade do Oriente Médio como um todo.   A UNIFIL como Instrumento de Mediação e Proteção Civil A Resolução 2790 (2025) foi a mais recente renovação da UNIFIL, pelo Conselho de Segurança da ONU, que estabelece o fim de seu mandato em dezembro de 2026 e a retirada do pessoal a partir de 2027 (UNIFIL, 2025). Nesse sentido, a Resolução 1701 (2006), que estabelece a delimitação da Linha Azul, o suporte das partes e a cessação de hostilidades, deve continuar sendo implementada para a manutenção da paz até 2027 (UNIFIL, 2025). A decisão realizada no ano passado ocorreu em um cenário de forte pressão, principalmente pelos Estados Unidos, que vêm cortando os fundos destinados à missão e argumentando que o Líbano deve ser o único ator responsável pela sua própria segurança (Al Jazeera, 2025). Com isso, é possível ver que um dos principais propulsores para a crise do multilateralismo da ONU é o corte financeiro e a descredibilização de sua autoridade, principalmente pelos EUA. Aliado aos Estados Unidos, Israel foi outro apoiador relevante para o fim da UNIFIL, acusando-a de falhar em impedir as ameaças do Hezbollah e a intensificação do conflito, principalmente após o ataque do Hamas à Israel em outubro de 2023 (Al Jazeera, 2025). Entretanto, longe de sinalizar uma estabilização, o fim próximo da Missão coincide com uma nova escalada de conflitos que expõe a fragilidade da segurança regional. De acordo com as autoridades do Líbano, os ataques israelenses desde 2 de março de 2026 resultaram na morte de 2.618 pessoas e forçaram o deslocamento de mais de um milhão de pessoas (Al Jazeera, 2026). Toda essa escalada do conflito, mesmo diante do anteparo institucional da UNIFIL, já é preocupante e mostra que agora não é o momento de retirar um ator tão relevante para a promoção da estabilidade no Líbano. Nessa perspectiva, o Embaixador da China nos Estados Unidos, Fu Cong, reavaliou o cenário de inexistência de um cessar-fogo eficaz na região e defende a necessidade de uma reavaliação da decisão do CSNU sobre o fim do mandato da UNIFIL (Al Jazeera, 2026). Dessa forma, a relevância estratégica da China reside na busca para consolidar-se como uma potência global com influência para equilibrar as pressões apresentadas por Israel e pelos EUA no CSNU. Nesse contexto, Pequim compreende que a estabilidade do Oriente Médio é necessária para defesa de seus interesses econômicos, principalmente por causa das rotas de energia e comércio.  Entretanto, apenas o estabelecimento de um novo acordo de paz ou de acordos bilaterais não será suficiente para o monitoramento das violações e de conflitos armados entre os países.Tal insuficiência justifica-se pelo fato de a UNIFIL constituir o único mecanismo internacional permanente capaz de documentar as infrações no terreno de forma neutra. Consequentemente, na ausência da fiscalização e prestação de contas pela ONU, os pactos careceriam de responsabilização e neutralidade, deixando a população civil vulnerável à constante violação dos acordos. Por fim, os Estados Unidos vêm mediando negociações entre Israel e Líbano a fim de restabelecer o cessar-fogo, mas ainda não possuem relações diplomáticas formais (Folha de São Paulo, 2026). De acordo com o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, a visão de um acordo bilateral é “perfeitamente viável”, mas a culpa do conflito recai apenas sobre o Hezbollah, segundo ele (Folha de São Paulo, 2026). Após toda a análise da conjuntura, a complexidade da região demonstra que o Hezbollah não é o único ator envolvido no endurecimento do conflito, tampouco na decisão de encerramento da UNIFIL. Logo, a retirada dos capacetes-azuis é um reflexo dos atores que visam eliminar o aparato multilateral, para terem maior liberdade em suas ações militares, priorizando a lógica da força.   Conclusões Em suma, a histórica disputa de interesses na fronteira entre o Líbano e Israel é um epicentro de insegurança regional, fomentado pelos interesses hegemônicos conflitantes e atuação de grupos armados, como o Hezbollah. Nesse contexto, o encerramento da Força Interina das Nações Unidas no Líbano, determinado pela Resolução 2790, criará um perigoso vácuo de segurança, pois retira um poder capaz que complementa as Forças Armadas Libanesas (LAF), que ainda não estão preparadas para lidar com esse conflito de forma independente.  Além dessa necessidade militar, a presença dos peacekeepers é o único mecanismo de documentação e de acompanhamento local do conflito, que representa a resiliência do multilateralismo na região. Assim, a presença institucional da UNIFIL é uma barreira indispensável para a mentalidade de “segurança absoluta” adotada por Israel, que prioriza a liberdade de ação operacional acima de qualquer cessar-fogo. Portanto, sem o escudo institucional multilateral, a retirada dos capacetes-azuis sinaliza a vitória da força bruta sobre a diplomacia, permitindo que a busca por uma segurança absoluta transforme o sul do Líbano em um campo de batalha permanente    Referências Bibliográficas AL JAZEERA. China urges reversal of UNIFIL departure from Lebanon as conflict escalates. Al Jazeera, 2 maio 2026. Disponível em:https://www.aljazeera.com/news/2026/5/2/china-urges-reversal-of-unifil-departure-from-lebanon-as-conflict-escalates. Acesso em: 8 maio 2026.    AL JAZEERA. UN Security Council renews UNIFIL mission in Lebanon until end of 2026. Doha: Al Jazeera, 28 ago. 2025. Disponível em:https://www.aljazeera.com/news/2025/8/28/un-security-council-renews-unifil-mission-in-lebanon-until-end-of-2026. Acesso em: 8 maio 2026.    CNN BRASIL. Líbano teve dia mais mortal desde 2024 no início do cessar-fogo EUA-Irã. CNN Brasil, 10 abr. 2026. Disponível em:https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/libano-teve-dia-mais-mortal-desde-2024-no-inicio-do-cessar-fogo-eua-ira/. Acesso em: 8 maio 2026.    CNN BRASIL. O que é a Unifil, a missão de paz da ONU no Líbano que está em crise com Israel. CNN Brasil, 14 out. 2024. Disponível em:https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/o-que-e-a-unifil-a-missao-de-paz-da-onu-no-libano-que-esta-em-crise-com-israel/. Acesso em: 8 maio 2026.    DAY, P.Narrative Intelligence: Decoding Iran’s Influence Campaigns in Iraq. Foreign Policy Research Institute, 2025. Disponível em:  https://www.fpri.org/article/2025/08/decoding-iran-influence-iraq/. Acesso em: 8 maio 2026.     DEKEL, U. From Military Achievement to a Regional Arrangement. Institute for National Security Studies, 2026. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/resrep78931. Acesso em: 8 maio 2026.    FOLHA DE S.PAULO. Líbano e Israel farão nova rodada de negociações nos EUA em meio a frágil trégua. Folha de S.Paulo, 2 maio 2026. Disponível em:https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/05/libano-e-israel-farao-nova-rodada-de-negociacoes-nos-eua-em-meio-a-fragil-tregua.shtml. Acesso em: 8 maio 2026.    G1. Retirada de tropas e fim de ataques: veja os detalhes do acordo de cessar-fogo entre Israel e Hezbollah. G1, 26 nov. 2024. Disponível em:https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/11/26/retirada-de-tropas-e-fim-de-ataques-veja-os-detalhes-do-acordo-de-cessar-fogo-entre-israel-e-hezbollah.ghtml. Acesso em: 8 maio 2026.    OFFICE OF THE HIGH COMMISSIONER FOR HUMAN RIGHTS (OHCHR). UN experts warn against continued violations of ceasefire in Lebanon and urge protection of civilians. United Nations, 17 out. 2025. Disponível em: https://www.ohchr.org/en/press-releases/2025/10/un-experts-warn-against-continued-violations-ceasefire-lebanon-and-urge. Acesso em: 8 maio 2026.    O GLOBO. ONU aprova retirada das forças de paz do Líbano em 2027 após pressão de EUA e Israel. O Globo, 2025. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2025/08/28/onu-aprova-retirada-das-forcas-de-paz-do-libano-em-2027-apos-pressao-de-eua-e-israel.ghtml. Acesso em: 12 maio 2026.    UNITED NATIONS INTERIM FORCE IN LEBANON (UNIFIL). UNIFIL mandate. UNIFIL, 4 fev. 2026. Disponível em:https://unifil.unmissions.org/en/unifil-mandate. Acesso em: 8 maio 2026.    UNITED NATIONS INTERIM FORCE IN LEBANON (UNIFIL). UNIFIL troop-contributing countries. UNIFIL, 7 maio 2026. Disponível em:https://unifil.unmissions.org/en/unifil-troop-contributing-countries. Acesso em: 8 maio 2026.     

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    Juliana Jaegger       A intensificação da transição energética global e a crescente disputa entre grandes potências pelo controle das cadeias produtivas estratégicas reposicionaram os minerais críticos como eixo central da geopolítica contemporânea. Nesse contexto, os minerais críticos tornam-se essenciais para viabilizar a transição energética e o cumprimento das metas do Acordo de Paris, onde os seus signatários se comprometeram a juntar esforços para conter o aumento da temperatura global (Reis; De Oliveira; De Pieri, 2025).     Diante desse cenário, a conjuntura atual é marcada por uma intensificação da demanda por esses recursos, impulsionada pela urgência da descarbonização das economias e pelos compromissos internacionais adotados no âmbito climático. Segundo a pesquisadora Maria Karas (2025), a transição energética, acordada no âmbito do Acordo de Paris e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), para que seja um processo de substituição progressiva de fontes fósseis por alternativas de baixo carbono, depende diretamente do fornecimento estável desses minerais, o que eleva seu valor estratégico no sistema internacional.     Paralelamente, eventos geopolíticos recentes como a guerra na Ucrânia e o conflito no Oriente Médio, reforçam a centralidade da segurança energética, demonstrando que choques no fornecimento de energia podem desencadear efeitos econômicos e políticos sistêmicos. Assim, a combinação entre transição energética e instabilidade geopolítica transforma os minerais críticos em elementos centrais para o desenvolvimento econômico, além de essencial para a segurança nacional dos Estados. Argumento que, embora o Sul Global detenha vantagens materiais relevantes, sua capacidade de convertê-las em autonomia depende do controle das cadeias de valor e da superação de limitações estruturais.   Distribuição geográfica dos minerais críticos e disputa geopolítica     Os minerais críticos possuem relevância estratégica por serem fundamentais para setores como defesa, alta tecnologia e transição energética. Sendo, fundamentais para a fabricação de produtos de alta tecnologia, na indústria de defesa, na fabricação de baterias e como matéria-prima em painéis solares e turbinas eólicas. Ainda que não exista uma definição internacionalmente acordada para a terminologia, cada país define a lista de minérios considerados críticos ou estratégicos com base em aspectos econômicos e de segurança nacional, levando em consideração a necessidade de suprimento de demanda interna ou o papel desses insumos em determinados processos produtivos.     A distribuição geográfica de recursos essenciais para a descarbonização — como lítio, cobre, cobalto, níquel, grafita e terras raras — mostra uma assimetria significativa que estrutura a atual disputa internacional (Karas, 2025). Sob essa perspectiva, os depósitos destes minerais críticos estão concentrados em poucos países, como o Triângulo do Lítio (Chile, Argentina e Bolívia) que detém 58% das reservas mundiais desse mineral, enquanto Chile e Peru concentram cerca de 30% das reservas globais de cobre. O Brasil detém 95% da produção mundial de nióbio e a República Democrática do Congo controla 70% das reservas de cobalto (Reis; De Oliveira; De Pieri, 2025). Essa concentração mostra uma assimetria estrutural que, enquanto o Sul Global detém a base material da transição energética, o controle sobre seu valor estratégico permanece deslocado para os países com capacidade industrial e tecnológica.     Nessa conjuntura, destacam-se como principais atores os Estados nacionais, especialmente China e Estados Unidos, que disputam o controle das cadeias produtivas de minerais críticos como parte de uma competição mais ampla por liderança tecnológica, segurança energética e autonomia industrial. Enquanto a China utiliza sua capacidade industrial e o domínio das etapas de refino como instrumento de poder estrutural, Washington busca reduzir sua dependência externa por meio de alianças estratégicas, como a Minerals Security Partnership (MSP), iniciativa liderada pelos Estados Unidos e parceiros ocidentais voltada à diversificação das cadeias de suprimento de minerais críticos e à redução da dependência do processamento chinês (Reis; Oliveira; Pieri, 2025).     Além dos Estados, empresas mineradoras e industriais desempenham papel central nessa dinâmica. No caso brasileiro, a Vale mantém relevância estratégica pela capacidade de extração e exportação mineral em larga escala, enquanto a Sigma Lithium se destaca pela inserção do Brasil no mercado global de lítio voltado à produção de baterias para veículos elétricos (Karas, 2025). Essas empresas articulam interesses econômicos e tecnológicos diretamente ligados à expansão da transição energética global.     Ademais, instituições regulatórias e científicas, como a Agência Nacional de Mineração (ANM) e o Serviço Geológico do Brasil (SGB), atuam no mapeamento geológico, regulação da atividade minerária e formulação de diretrizes estratégicas para o setor (Karas, 2025). Em paralelo, coalizões internacionais como o BRICS buscam ampliar a coordenação política e econômica entre países do Sul Global, fortalecendo sua capacidade de barganha frente às potências centrais (de Tomi; Loredo; Russo, 2025). Dessa forma, esses diferentes atores mobilizam recursos econômicos, tecnológicos, institucionais e diplomáticos para influenciar a dinâmica das cadeias globais de minerais críticos e redefinir posições de poder no sistema internacional.   O controle das cadeias de valor e a centralidade chinesa     A assimetria não se limita à distribuição geológica das reservas. Além da extração, o processamento desses minerais apresenta um nível de concentração ainda mais elevado e assimétrico. A China ocupa a posição dominante, controlando quase todas as etapas de processamento de cobre, lítio, níquel, cobalto e terras raras (CEPAL, 2023). Dessa forma, esse domínio industrial e tecnológico configura um recurso de poder estrutural, permitindo à China influenciar preços, cadeias produtivas e decisões estratégicas no sistema internacional.     A partir dessa dinâmica de concentração industrial e tecnológica, o controle sobre as cadeias de valor é o principal determinante de poder na geopolítica contemporânea, traduzindo-se em soberania tecnológica, autonomia estratégica e influência diplomática. Embora os países do Sul Global concentrem recursos naturais, potências como China e Estados Unidos controlam etapas críticas das cadeias de valor, o que limita a capacidade de barganha dos primeiros. A necessidade desses materiais é urgente, pois tecnologias de energia limpa exigem até seis vezes mais minerais do que as convencionais, e estima-se que a demanda global por esses insumos cresça de quatro a seis vezes até 2040, conforme projeções da Agência Internacional de Energia (IEA, 2022).     Com essa dinâmica de reconfiguração das relações de poder e o fortalecimento do poder de barganha no sistema internacional, o Sul Global tem a oportunidade de desvincular-se da imagem de mero fornecedor de matérias-primas. Por meio de estratégias coordenadas, esses países podem desempenhar um papel central nas negociações, transformando seus ativos minerais em influência geopolítica e autonomia estratégica. Regiões da América Latina, que concentram reservas fundamentais tornam-se espaços centrais na disputa entre grandes potências. Essa disputa é alimentada pela rivalidade hegemônica e pela busca por autonomia tecnológica entre China e Estados Unidos, que competem pelo controle das cadeias de suprimento essenciais para os setores de defesa, energia limpa e mobilidade elétrica (Reis; De Oliveira; De Pieri, 2025). Entretanto, a posse desses recursos não significa autonomia imediata, ela representa uma janela estratégica para que os países negociem investimentos com contrapartidas tecnológicas e acordos de cooperação técnica que permitam o domínio das etapas de processamento e manufatura de alto valor agregado.      Podemos perceber que a posse de reservas minerais constitui uma vantagem inicial, mas não suficiente para garantir o protagonismo. A mineração exige infraestrutura logística, disponibilidade energética, capacidade industrial e conhecimento técnico especializado. Nesse sentido, a China consolidou seu poder hegemônico não apenas pelo controle de recursos, mas por dominar quase todas as etapas de processamento e refino de minerais críticos, integrando-os a sistemas industriais de ponta. Esse domínio é sustentado por uma política de décadas voltada à formação massiva de capital humano especializado, o país chega a formar cerca de 3,5 milhões de engenheiros anualmente (Rodrigues, 2025). Em contraste, muitos países do Sul Global enfrentam limitações na capacidade de transformar os recursos naturais em poder econômico e político.    O Brasil entre potencial estratégico e dependência estrutural     O Brasil exemplifica o desafio de transformar potencial geológico em poder econômico efetivo. Embora possua alguma infraestrutura logística, com corredores como a Estrada de Ferro Carajás e portos eficientes como Itaqui e Tubarão, o país ainda enfrenta um padrão de reprimarização da economia mineral (Castro et al., 2022). Atualmente, mais de 85% dos minerais críticos brasileiros são exportados em estado bruto ou com baixo beneficiamento, evidenciando gargalos como a ausência de refinarias para terras raras e a dependência tecnológica em etapas cruciais, como a purificação eletroquímica de lítio (De Souza Santos, 2023). Ademais, o foco dos investimentos ainda é desproporcional, no qual do volume previsto para 2025-2029, apenas cerca de 4,7% destina-se a minerais como lítio e terras raras, enquanto o grosso permanece concentrado no minério de ferro (IBRAM, 2024).      Com isso, essa divisão mostra a continuação dos padrões associados à divisão internacional do imperialismo, nos quais os países do Sul Global permanecem especializados em exportação de matérias primas, enquanto os países centrais dominam as etapas de maior valor agregado. Assim, apesar da aparente valorização estratégica dos recursos minerais, a inserção internacional do Sul Global ainda tende a reproduzir relações de dependência.      Através do artigo de Musa (2024), podemos observar uma tentativa de superação desse padrão histórico de reprimarização por meio da retomada de estratégias desenvolvimentistas voltadas para os minerais críticos. A busca por maior controle sobre as cadeias produtivas e o incentivo a políticas industriais ativas visam transformar o potencial geológico em soberania mineral, utilizando esses recursos não apenas como commodities, mas como base para a industrialização e a produção científica. Nesse cenário, a promoção de parcerias internacionais e a atração de investimentos estrangeiros são condicionadas a contrapartidas tecnológicas e acordos de cooperação técnica, essenciais para romper a dependência do refino e processamento externo. A possibilidade de transferência de tecnologia emerge, portanto, como uma das principais janelas de oportunidade, permitindo que países do Sul Global, como o Brasil, avancem na verticalização da produção, agreguem valor aos minérios brutos e consolidem capacidades industriais de ponta no novo paradigma energético.      No entanto, a concretização dessas oportunidades enfrenta obstáculos profundos que impedem a conversão automática da riqueza geológica em desenvolvimento socioeconômico. No Brasil, a falta de infraestrutura adequada é uma barreira, enquanto corredores como a Estrada de Ferro Carajás atendem ao minério de ferro, as novas fronteiras de minerais críticos no Norte e Nordeste sofrem com malhas viárias deficientes e logística fragmentada, elevando custos e desestimulando plantas industriais locais (IBRAM, 2024).     Por exemplo, o caso brasileiro demonstra as contradições entre potencial geológico e soberania industrial. O país possui uma das maiores diversidades minerais do mundo, com reservas estratégicas de lítio, grafita, níquel e terras raras, além de deter a hegemonia global na produção de nióbio com 95% da oferta mundial (Castro et al., 2022). Adicionalmente, o Brasil apresenta vantagens competitivas ímpares para a "mineração verde", sustentada por uma matriz elétrica com 60% de fontes renováveis, patamar significativamente superior às médias globais (Musa, 2024).     Para enfrentar esse cenário, a Câmara dos Deputados aprovou, em 7 de maio de 2026, a Política Nacional de Minerais Críticos, um marco legal desenhado para converter o país em um protagonista industrial. O projeto inova ao associar a exploração mineral obrigatoriamente à sua transformação em produtos dentro do país, atacando o gargalo da dependência de processamento externo. A nova legislação busca mitigar barreiras financeiras e institucionais através da criação do Fundo Garantidor da Atividade Mineral (R$2 bilhões) e R$5 bilhões em créditos fiscais para incentivar a industrialização local. Essa coordenação entre fomento econômico e diretrizes nacionais visa dar a "previsibilidade" cobrada pelo setor para atrair os US$76 bilhões em investimentos previstos até 2029, consolidando o Brasil como um fornecedor soberano de soluções para a transição energética global (Minerais, 2026).     Para que o Estado brasileiro converta essa conjuntura em desenvolvimento, as orientações estratégicas passam obrigatoriamente pelo fortalecimento institucional da ANM e dos órgãos de pesquisa geológica. É imperativo reduzir o hiato entre a extração e o refino através da criação de um Balcão Digital Único para agilizar o licenciamento e o financiamento de projetos da MAPE (Mineração Artesanal e de Pequena Escala), que detém a maioria dos títulos de minerais críticos. Além disso, o país deve condicionar o acesso às suas reservas a joint ventures — associações empresariais voltadas ao compartilhamento de tecnologia e capacidades produtivas (Dahab; Guimarães; Dantas, 1994) — que garantam transferência de tecnologia para o refino de terras raras e a fabricação local de componentes de baterias, rompendo o ciclo de dependência do processamento externo (De Tome; Loredo; Russo, 2025).   Considerações finais     Diante desse cenário, é possível projetar três caminhos para a evolução da conjuntura mineral. No cenário de protagonismo soberano, o Brasil e outros países do Sul Global utilizam o seu poder de barganha para ampliar a participação nas cadeias de valor por meio de políticas industriais ativas, atração de investimentos, investimentos em pesquisa e desenvolvimento e parcerias internacionais com contrapartidas tecnológicas (Musa, 2024).     Em um cenário intermediário, os países manteriam sua posição predominantemente como exportadores, mas com maior capacidade de influenciar preços e normas internacionais através de blocos como o BRICS (De Tomi; Loredo; Santos, 2024). Nesse contexto, embora a dependência de tecnologias de refino externas persista, haveria uma melhoria na arrecadação e na governança socioambiental, mitigando crises reputacionais e garantindo uma transição justa para as comunidades locais (De Tomi; Loredo; Russo, 2025).     Já no cenário de dependência reforçada, a estrutura atual de reprimarização seria consolidada. A América Latina continuaria a exportar mais de 85% de seus minerais críticos em estado bruto, enquanto as etapas de processamento e manufatura de alto valor agregado permaneceram concentradas na China e em potências do Norte Global. Esse "neoextrativismo" perpetuaria a vulnerabilidade das economias periféricas às flutuações de preços e à autonomia estratégica das grandes potências (De Souza Santos, 2023).     Contudo, a geopolítica dos minerais críticos revela uma conjuntura marcada por oportunidades e limites. Se, por um lado, a centralidade desses recursos abre espaço para  a reconfiguração da posição do Sul Global na ordem internacional, por outro lado, as restrições estruturais associadas à dependência tecnológica e industrial continuam a limitar sua autonomia.     Assim, o verdadeiro desafio não reside apenas na posse dos recursos, mas na capacidade de transformá-los em poder efetivo, redefinindo as bases da inserção internacional desses países em um contexto de transição energética global. Nesse sentido, a atual conjuntura não apenas reposiciona os minerais críticos como eixo central da geopolítica contemporânea, mas também inaugura uma disputa mais ampla sobre quem definirá os padrões tecnológicos, ambientais e produtivos da transição energética global.   Nota: A responsabilidade pelo conteúdo final desta análise de conjuntura é exclusivamente da autora. O uso de Inteligência Artificial Generativa restringiu-se ao apoio na comparação entre referências previamente selecionadas, por meio da ferramenta Google NotebookLM, e à revisão textual com auxílio do Google Gemini.   Bibliografia CASTRO, F. F. de et al. Transição energética e dependência por minerais críticos: aspectos geopolíticos, socioambientais e a perspectiva brasileira. 2022. Disponível em: https://mineralis.cetem.gov.br/bitstream/cetem/2633/1/SED-111-2.pdf . Acesso em: 05 maio 2026.   COMISSÃO ECONÔMICA PARA A AMÉRICA LATINA E O CARIBE (CEPAL). Lithium extraction and industrialization: opportunities and challenges for Latin America and the Caribbean. Santiago: CEPAL, 2023. Disponível em: https://repositorio.cepal.org/server/api/core/bitstreams/5c1c160a-557d-42d9-bfa8-929142d2fa21/content . Acesso em: 17 maio 2026.   DAHAB, S. S.; GUIMARÃES, F.; DANTAS, J. R. Transferência tecnológica e joint venture no Brasil. Revista de Administração, v. 29, n. 3, p. 55-65, 1994. Disponível em: https://rausp.usp.br/wp-content/uploads/files/2903055.pdf . Acesso em: 18 maio 2026.   DE SOUZA SANTOS, Y. C. Panorama da mineração brasileira em relação a alguns dos principais minerais críticos necessários à transição energética. Latin American Journal of Energy Research-LAJER, v. 10, n. 1, p. 77-86, 2023. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=9105276 . Acesso em: 05 maio 2026.   DE TOMI, G; LOREDO, G; RUSSO, A. C. Mineração responsável de minerais críticos e estratégicos no Brasil: o caminho para a transição justa no Brasil. 2025. Disponível em: https://www.researchgate.net/profile/Ana-Russo-4/publication/401591996_Mineracao_responsavel_de_minerais_criticos_e_estrategicos_no_Brasil_o_caminho_para_a_transicao_justa_no_Brasil/links/69aa0b6d940e2d5e03cd9304/Mineracao-responsavel-de-minerais-criticos-e-estrategicos-no-Brasil-o-caminho-para-a-transicao-justa-no-Brasil.pdf . Acesso em: 03 maio 2026.   DE TOMI, G; LOREDO, G; SANTOS, V. Minerais críticos e estratégicos no Brasil: Uma agenda de soberania e de clima. Centro Soberania e Clima, 2024. Disponível em: https://soberaniaeclima.org.br/wp-content/uploads/2024/05/Artigo-Giorgio-de-Tomi-02.pdf . Acesso em: 1 maio 2026.   INSTITUTO BRASILEIRO DE MINERAÇÃO. Informações e análises da economia mineral brasileira. Brasília, DF: IBRAM, 2024. Disponível em: https://ibram.org.br/wp-content/uploads/2025/03/IBRAM_Relatorio-Anual-2024_completo_web.pdf . Acesso em: 3 maio 2026.   INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). The role of critical minerals in clean  energy transitions. Paris: IEA, 2022. Disponível em: https://www.iea.org/reports/the-role-ofcritical-minerals-in-clean-energy-transitions . Acesso em: 2 maio 2026.   KARAS, M. Minerais Críticos e Transição Energética:: O Papel Estratégico do Brasil nas Cadeias Globais de Suprimento. O Eco da Graduação, v. 10, n. 1, 2025. Disponível em: https://www.ecodagraduacao.com.br/index.php/ecodagraduacao/article/view/184 . 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Acesso em: 04 maio 2026.

  • Destaques

    por Maria Eduarda S. P. Santos1   No dia 20 de julho de 1969, milhões de pessoas ao redor do mundo acompanharam, por meio de televisores e rádios, um dos momentos mais emblemáticos da história contemporânea. Ao pisar na superfície lunar, o astronauta Neil Armstrong pronunciou a frase que se tornaria símbolo de uma era: “um pequeno passo para o homem, mas um salto gigantesco para a humanidade”. Mais do que um feito científico, aquele instante representou o auge de uma disputa política que marcava profundamente o século XX. A chegada dos Estados Unidos à Lua simbolizava uma vitória estratégica frente à União Soviética no contexto da Corrida Espacial, um dos palcos mais visíveis da rivalidade entre as duas superpotências durante a Guerra Fria. Após isso, a Lua permaneceu por décadas como um símbolo daquele momento histórico específico, uma lembrança de quando a competição tecnológica servia como extensão direta da disputa ideológica e militar entre Washington e Moscou. Contudo, mais de meio século depois, o satélite natural da Terra volta a ocupar o centro das atenções estratégicas do sistema internacional. A pergunta que emerge no cenário contemporâneo é inevitável, será que estaríamos diante de uma nova Corrida Espacial e quais seriam os interesses políticos, econômicos e estratégicos que impulsionam o retorno das grandes potências ao satélite natural da Terra.   Entre Estados: os protagonistas da nova fronteira espacial Diferentemente do século XX, os protagonistas desta possível nova disputa não são exatamente os mesmos. No lugar da extinta potência soviética, surge um ator que, nas últimas décadas, tem ampliado de forma significativa sua presença econômica, tecnológica e militar no sistema internacional, a China. O crescimento econômico acelerado do país, aliado ao investimento contínuo em tecnologia e defesa, tem consolidado sua posição como principal desafiante à hegemonia dos Estados Unidos. Nesse contexto, a exploração espacial volta a se tornar um terreno fértil para a projeção de poder, inovação tecnológica e demonstração de capacidade estratégica entre grandes potências. Como observado no seguinte trecho “nunca houve ambiente no qual, com tecnologia suficiente, nações e potências se recusaram a utilizá-la para melhorar sua posição no complexo xadrez entre as nações e, sobretudo, em eventuais conflitos bélicos” (Vasconcelos, 2025). O cenário atual reforça essa percepção, principalmente quando a China tem intensificado significativamente seu programa espacial, com missões voltadas à exploração lunar, ao desenvolvimento de novas tecnologias e à construção de infraestrutura orbital. Programas como o Chang’e, conduzido pela Administração Espacial Nacional da China (CNSA), demonstram o objetivo de longo prazo de estabelecer uma presença científica e tecnológica permanente no ambiente lunar. Segundo a CNN (2026), entre os planos anunciados está a construção de uma estação internacional de pesquisa na Lua nas próximas décadas, o que ampliaria a capacidade chinesa de exploração e experimentação científica fora do globo. Em paralelo, os Estados Unidos buscam recuperar e ampliar sua liderança nesse campo por meio de uma estratégia que combina investimento estatal e participação crescente do setor privado. O principal eixo dessa estratégia é o Programa Artemis, liderado pela NASA, que pretende levar novamente astronautas à superfície lunar e estabelecer uma presença humana sustentável no satélite. Diante desse cenário, a Lua volta a assumir um papel central na dinâmica de poder internacional. Mais do que um destino científico, ela passa a ser vista como um espaço estratégico para o desenvolvimento tecnológico, a exploração de recursos e a consolidação de influência geopolítica no século XXI.   Para além da inovação: as motivações estratégicas da disputa Ao analisar a exploração espacial contemporânea, torna-se evidente que o atual movimento ultrapassa, de maneira significativa, a lógica tradicional da corrida espacial do século XX. Se, durante a Guerra Fria, a exploração do espaço era essencialmente um instrumento de demonstração ideológica e tecnológica entre potências rivais, no contexto atual observa-se uma inflexão estratégica, o espaço passa a ser concebido como uma fronteira econômica, científica e, sobretudo, geopolítica de longo prazo. Nesse sentido, a disputa contemporânea não se limita à conquista simbólica de marcos históricos, como o primeiro pouso na Lua, mas se orienta para a construção de capacidades permanentes fora da Terra. O objetivo central deixa de ser  simplesmente chegar primeiro e passa a ser ficar, explorar, dominar e controlar ao máximo a utilização de recursos e a infraestrutura criada fora do território terrestre. Essa mudança de paradigma implica o desenvolvimento de infraestruturas como bases lunares, sistemas de abastecimento espacial e tecnologias de suporte à vida em ambientes extraterrestres. Um dos principais motores dessa nova fase da exploração espacial reside na identificação de recursos estratégicos fora do planeta. Missões não tripuladas realizadas ao longo do século XXI detectaram a presença de elementos fundamentais para a sustentação da vida humana e para a geração de energia. Entre esses recursos, destacam-se as reservas de água em estado sólido, presentes nas regiões polares da Lua, e o hélio-3, um isótopo raro na Terra. O hélio-3 assume particular relevância devido ao seu potencial energético, uma vez que trata-se de um elemento “somente produzido em ambientes de alta incidência de radiação e que poderia eletrificar todos os Estados Unidos com apenas quarenta e cinco toneladas por um ano inteiro”(Otaviano, 2025). Essa estimativa evidencia o caráter estratégico do recurso, uma vez que sua exploração poderia revolucionar a matriz energética global, especialmente no contexto de fontes mais eficientes. Paralelamente, a presença de água congelada na Lua possui implicações logísticas e operacionais profundas. A água pode ser decomposta em hidrogênio e oxigênio, elementos fundamentais para a produção de combustível de foguetes. Essa possibilidade a transforma em um potencial entreposto de abastecimento espacial, permitindo a redução de custos e o aumento da viabilidade de missões de longa duração, especialmente aquelas direcionadas a Marte. Assim, a exploração lunar deixa de ser um fim em si mesmo e passa a integrar uma estratégia mais ampla de expansão da presença humana no espaço sideral. Além dos ganhos materiais, é imprescindível considerar a dimensão política dessa nova corrida espacial. Em um cenário internacional marcado por intensa competição tecnológica, a capacidade de liderar avanços científicos e de consolidar presença no espaço transforma-se em um relevante instrumento de legitimação de poder no sistema internacional. O desenvolvimento de programas espaciais evidencia não apenas o domínio de tecnologias altamente sofisticadas, mas também a capacidade do Estado de articular recursos financeiros, científicos, industriais e institucionais em torno de objetivos estratégicos de longo prazo, nesse sentido, o avanço espacial ultrapassa sua dimensão puramente técnica e passa a representar um elemento simbólico de superioridade nacional, associado à inovação, à autonomia tecnológica e à capacidade de liderança. Esse reconhecimento projeta prestígio internacional, fortalece a imagem externa do Estado e contribui para consolidar sua posição como ator capaz de influenciar agendas globais. A legitimidade decorrente desse processo não se limita ao reconhecimento imediato, mas produz impactos sobre ações futuras de projeção de poder, uma vez que o prestígio acumulado tende a facilitar a mobilização de apoio político interno e externo para a expansão contínua desses programas. Como resultado, observa-se o aumento progressivo de investimentos de capital em setores estratégicos ligados à exploração espacial, impulsionado pela compreensão de que a presença nesse domínio pode ampliar a influência política, econômica e geopolítica do Estado em disputas futuras. Nesse contexto, tanto os Estados Unidos quanto a China buscam afirmar sua posição como principais potências tecnológicas globais. A exploração espacial, portanto, adquire um caráter dual, onde ao mesmo tempo em que promove avanços científicos e econômicos, também se configura como um vetor de poder político e militar. Conforme destacado no trecho a seguir, “assim, a utilização do espaço físico praticamente infinito disponível no espaço sideral poderá ser utilizado como os territórios estratégicos atuais”(Otaviano, 2025). Essa observação reforça a ideia de que o espaço não é apenas um ambiente de cooperação científica, mas também um domínio estratégico onde se projetam disputas de poder.   Configurações do poder orbital: um panorama atual Nesse cenário, observa-se uma intensificação significativa das iniciativas espaciais por parte dos Estados Unidos e da China. Essas iniciativas englobam tanto missões tripuladas quanto operações não tripuladas, refletindo uma estratégia abrangente que articula exploração científica, desenvolvimento tecnológico e preparação para a ocupação permanente do espaço. No caso chinês, destaca-se a adoção de um modelo fortemente centralizado, orientado por um planejamento estatal de longo prazo. Programas conduzidos pela Administração Espacial Nacional da China, como a missão Tianwen-2 — que de acordo com Medeiros (2026) está, atualmente, em curso e voltada à exploração de asteroides — integram uma estratégia mais ampla de expansão gradual de capacidades tecnológicas e científicas. Esse movimento não se limita à realização de missões pontuais, mas se insere em um cronograma consistente que prevê, até 2030, o estabelecimento de uma base lunar internacional de pesquisa. A intensidade desse esforço pode ser observada no volume de atividades realizadas, onde, segundo Andrew Jones (2025), somente no ano de 2025 o país conduziu mais de 80 missões espaciais. Esse número evidencia o nível de investimento e priorização do setor, tendo essas missões como objetivos o desenvolvimento de novas tecnologias, o teste de sistemas avançados e a ampliação do conhecimento sobre diferentes regiões do espaço sideral. Nesse sentido, o projeto de uma base lunar representa um marco estratégico, pois sinaliza a transição de uma postura predominantemente exploratória para uma abordagem voltada à ocupação permanente. A construção dessa infraestrutura implica o desenvolvimento de capacidades logísticas complexas, incluindo transporte, comunicação, suporte à vida e operação em condições ambientais extremas. Por outro lado, os Estados Unidos também mantêm uma posição de destaque na corrida espacial contemporânea, adotando uma abordagem híbrida como apontado por Maria Eduarda Lameza (2026), que destaca a forte forte competição por negócios que pode ser caracterizada pela articulação entre investimento público e protagonismo crescente do setor privado. O programa Artemis, liderado pela NASA, exemplifica essa estratégia ao combinar objetivos governamentais com a atuação de empresas como SpaceX e Blue Origin. Nesse contexto, a missão em curso do Artemis II representa um passo fundamental, com o objetivo de realizar uma viagem tripulada ao redor da Lua, com a finalidade de testar sistemas essenciais e coletar dados sobre o ambiente lunar. Mais do que uma missão de exploração, trata-se de uma etapa preparatória para futuras operações de pouso e estabelecimento de bases, incluindo a ampliação do conhecimento sobre o chamado “lado oculto” da Lua, região ainda pouco explorada. Assim, a Artemis II vem configurando-se como um elo intermediário crucial, ao validar tecnologias de voo tripulado em órbita lunar e preparar as condições necessárias para a presença humana contínua. Desta forma a cooperação entre o Estado e a iniciativa privada confere aos Estados Unidos maior flexibilidade operacional e capacidade de inovação acelerada, evidenciando uma mudança de enfoque: a exploração espacial deixa de ser episódica e passa a ser contínua e estruturada. O objetivo não é mais a realização de missões isoladas, mas sim o estabelecimento de uma presença duradoura no espaço, com potencial de expansão para outros corpos celestes. A comparação entre os dois modelos revela não apenas diferenças operacionais, mas também distintas formas de projeção de poder no sistema internacional. Enquanto a China aposta na previsibilidade e na continuidade de políticas estatais de longo prazo, os Estados Unidos exploram a dinâmica de mercado e a capacidade disruptiva do setor privado como vantagem estratégica. Apesar dessas diferenças, ambos convergem em um objetivo comum: transformar a presença no espaço em um ativo geopolítico duradouro.   Considerações finais: O que o futuro da nova era espacial nos reserva Portanto, torna-se possível afirmar que a comunidade internacional atravessa um momento que pode ser caracterizado como uma Nova Corrida Espacial. Diferentemente daquela observada durante a Guerra Fria, essa nova fase apresenta contornos mais complexos e objetivos mais definidos, ainda que seus desdobramentos permaneçam incertos. Trata-se de um processo que, embora orientado por metas relativamente claras, como o estabelecimento de bases lunares e o avanço rumo a Marte, não possui um marco conclusivo evidente, o que reforça a ideia de continuidade e transformação constante. Nesse contexto, é possível identificar uma dinâmica competitiva estruturada, na qual os principais atores buscam não apenas alcançar avanços tecnológicos, mas também consolidar posições estratégicas de longo prazo. Até o momento, os Estados Unidos despontam como protagonistas, especialmente em razão do projeto Artemis, que conduzidos por instituições como a NASA demonstram um elevado grau de planejamento e capacidade operacional, com foco na criação de condições concretas para a presença humana contínua fora da Terra. Entretanto, a aparente liderança norte-americana não deve obscurecer o papel crescente da China nesse cenário, uma vez que de maneira mais discreta, porém consistente, o país tem avançado significativamente em suas capacidades espaciais, investindo em missões, tecnologias e planejamento estratégico de longo prazo. Essa atuação, muitas vezes menos visível no debate público internacional, revela uma estratégia pautada pela continuidade e pela consolidação gradual de competências, o que pode resultar em avanços expressivos no médio e longo prazo. A China, portanto, não deve ser compreendida como um ator secundário, mas sim como um competidor central nessa nova configuração geopolítica. Sua capacidade de surpreender por meio de inovações e missões que nem sempre recebem ampla divulgação reforça a necessidade de uma análise atenta e constante de suas iniciativas. Esse comportamento estratégico contribui para um ambiente de incerteza, no qual a correlação de forças pode se alterar de maneira relativamente rápida. Dessa forma, o futuro da exploração espacial se apresenta como um campo aberto, marcado por possibilidades diversas. Entre elas, destacam-se tanto cenários de intensificação da competição entre potências quanto a eventual ampliação de iniciativas de cooperação internacional. A exploração de recursos, o desenvolvimento tecnológico e a necessidade de regulação do espaço exterior são fatores que tendem a influenciar diretamente os rumos desse processo. Em última instância, a Nova Corrida Espacial não se limita à expansão da presença humana no espaço, mas reflete transformações mais amplas na ordem internacional. O espaço sideral consolida-se, assim, como uma nova fronteira de poder, inovação e disputa, cujo futuro, ainda em construção, promete redefinir não apenas as capacidades tecnológicas das nações, mas também como o mundo se comportará nos próximos anos.   1Nota: Esta análise foi elaborada em 10 de abril. Portanto, eventuais desdobramentos relevantes ocorridos após essa data não foram considerados pela autora.     Referências: ASL, S. S. A astropolítica e a Nova Áreas de Rivalidade Geopolítica entre EUA e China . Tradução de Felipe Werner Samuel . Researchgate, 2025. Disponível em: https://www.researchgate.net/profile/Seyedmohammad-Seyedi-Asl/publication/390755641_AST ROPOLITICA_E_A_NOVA_AREA_DE_RIVALIDADE_GEOPOLITICA_ENTRE_EUA_E_CHINA/links/67fccfabded4331557288faa/ASTROPOLITICA-E-A-NOVA-AREA-DE-RIVALIDADE-GEOPOLITICA-ENTRE-EUA-E-CHINA.pdf. Acesso em: 21 mar. 2026.   BAPTISTA, E. Programa lunar tripulado da China visa pouso de astronautas até 2030. CNN Brasil, 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/ciencia/programa-lunar-tripulado-da-china-visa-pouso-de-astronautas-ate-2030/. Acesso em: 07 abr. 2026.   CAMARGO, A. V; SOUZA, M. C. D. Espaço, a nova arena geopolítica: satélites, conflitos e conhecimento situacional espacial. Researchgate, 2025. Disponível em: https://www.airuniversity.af.edu/Portals/10/JOTA/journals/Volume-7_Issue_1/11-Camargo-Correa_port1.pdf. Acesso em: 22 mar. 2026.   FÉLIX, T; COELHO, T. EUA e China travam corrida espacial de olho na Lua; veja quem está ganhando. CNN Brasil, 2026. 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Enquanto a NASA já completa o primeiro voo tripulado ao redor da Lua em mais de 50 anos com Artemis II, a China colocou em rota a missão Tianwen-2 para capturar até 1 kg de material de um asteroide possivelmente ligado à Lua e trazer à Terra em 2027 em uma jornada de 10 anos até o espaço profundo. Cick Petróleo e Gás, 2026. Disponível em: https://clickpetroleoegas.com.br/enquanto-a-nasa-ja-completa-o-primeiro-voo-tripulado-ao-redor-da-lua-em-mais-de-50-anos-com-artemis-ii-a-china-colocou-em-rota-a-missao-tianwen-2-vml97/. Acesso em: 20 mar. 2026.    MUNIZ, M. M. A influência da corrida espacial moderna na balança de poder mundial. PUC-SP, 2024. Disponível em: https://repositorio.pucsp.br/jspui/handle/handle/42249. Acesso em: 21 mar. 2026.    OTAVIANO, G. M. A nova corrida espacial: objetivos com a exploração do espaço sideral e participação de Estados Unidos e China. PUC-SP, 2025. 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      Defesa: o pilar negligenciado da projeção diplomática brasileira Raíssa Pankush   Em março de 2026, a repercussão do lançamento do primeiro caça supersônico produzido em solo brasileiro, o Gripen (Brasil, 2026), causou grande surpresa em parte da população. A causa de tal surpresa, contudo, não está relacionada à capacidade da indústria aeroespacial do país, que possui reconhecimento internacional, mas sim ao ineditismo de uma conquista sólida do setor de defesa no Brasil. À primeira vista, esse fato aparenta ser esperançoso e promissor, porém retrata uma defasagem brasileira na priorização de seu setor de defesa em comparação com potências globais que acumulam dezenas de conquistas sólidas há décadas.  Soma-se ao ineditismo tardio, como fator de agravamento da situação brasileira na pauta de securitização, um cenário internacional de reascensão da centralidade de conflitos armados, disputas geopolíticas e desconfiança generalizada entre as nações que recolocam a pauta da securitização como prioridade da agenda internacional. Sob essa premissa, nota-se o início de uma nova estratégia de inserção dos Estados como atores relevantes no sistema, pautada na cooperação em setores estratégicos. Enquanto ainda há certa resistência de alianças guiadas pela lógica da Guerra Fria de identificação hemisferial, sustentadas pela tentativa sobretudo norte-americana de reconstrução da ideia de “mal comunista” na figura chinesa,  cada vez mais estabelecem-se parcerias orientadas pela busca de uma cooperação estratégica - como uma forma de alinhamento mais flexível baseado em segurança prática e funcionalidade econômica sob a percepção de que relacionamentos de alianças são desnecessários e impraticáveis. (Wilkins, 2026)  Além disso, percebe-se o estabelecimento de um discurso liderado pelos Estados Unidos de atrelamento da eficiência das forças de segurança nacionais como critério de confiabilidade e capacidade geracional de um Estado. Tal narrativa está sendo utilizada como justificativa para tensões entre aliados, como evidenciado nos recentes discursos de Trump e Rubio, que classificam a Otan como “aliado extremamente não confiável” (Areal, 2026) e intervenções,  que colocam em risco a soberania de nações independentes, sob a justificativa de uma suposta incapacidade estrutural de combate ao narcotráfico e ao terrorismo em suas respectivas regiões.  Diante desse cenário, a capacidade brasileira de se impor como Estado confiável, gerenciamentalmente eficiente, atraente para cooperações e sobretudo relevante encontra-se debilitada. Isso porque,  historicamente, o Brasil construiu sua projeção internacional por meio da diplomacia e do soft power, estratégia que se mostrou eficaz no auge do multilateralismo, quando o país figurava entre os quinze com maior presença global segundo o Real Instituto Elcano (Elcano, 2026). Contudo, essa trajetória foi acompanhada por uma atenção limitada ao setor de defesa, resultando em capacidades militares restritas que hoje condicionam sua inserção em agendas internacionais cada vez mais centradas em segurança e que ameaçam sua imagem de nação eficiente baseada na ideia de soberania condicionada de Francis Fukuyama, na qual a soberania e a legitimidade de um Estado na modernidade está pautada em sua governança interna (Fukuyama, 2004), enquadrando a atualidade em uma ideia de soberania condicionada como foco em baseada em performance securitária. Assim, a presente análise propõe examinar como essa lacuna no campo da defesa contribui para a redução da centralidade internacional do país, bem como discutir em que medida o cenário atual pode abrir espaço para uma reorientação dessa trajetória.   O lado soft de uma hegemonia armada Se a tendência de alinhamento pautada na ideologia hemisférica típica da Guerra Fria demonstra-se em queda, a técnica, também desse período, de orientação da política externa de um Estado de acordo com as prioridades da agenda internacional, com vistas ao ganho de projeção por meio da participação nas discussões (Nye 2004), retoma relevância. Isto é, com a redefinição da agenda internacional nos últimos anos, observa-se que os Estados passam a ajustar suas políticas externas às prioridades do sistema internacional com o objetivo de ampliar sua projeção. Nesse contexto, o conceito de bandwagoning, reinterpretado por Randall Schweller (1994) — entendido como o alinhamento de Estados a potências dominantes para maximizar ganhos na distribuição de recursos, proteção e status —  deixa de representar apenas uma resposta passiva a ameaças e passa a ser compreendido como estratégia voltada à obtenção de ganhos materiais e simbólicos. Assim, a adesão crescente à pauta securitária pode ser entendida como manifestação contemporânea desse processo. Nesse sentido, observa-se que um conceito tradicionalmente associado ao hard power, como o bandwagoning, adapta-se à realidade contemporânea. Isso ocorre porque o alinhamento às pautas dominantes, particularmente à agenda securitária, não implica apenas adesão material ou militar, mas também a inserção ativa em espaços de debate e formulação normativa. Assim, a securitização, enquanto eixo central da agenda internacional, passa a oferecer oportunidades de projeção para Estados que conseguem participar, influenciar e se posicionar nessas discussões. Desse modo, o ganho de visibilidade, legitimidade e capacidade de articulação em torno desses temas configura uma forma indireta de soft power, baseada não na coerção, mas na presença e influência em arenas internacionais. Sob essa perspectiva, a realidade brasileira torna-se ainda mais alarmante, pois supera a esfera de fragilidade coercitiva e evidencia uma degradação de seu principal instrumento diplomático: o soft power derivado da participação qualificada nos debates internacionais.  Segundo dados do Stockholm International Peace Research Institute (Sipri), publicados no seu relatório “Trends in world military Expendure, 2024”, mais de 100 países aumentaram seus gastos militares em 2024. Apesar de praticamente 50% dos gastos militares serem provenientes dos EUA e da China, regiões como Ásia e América Central chamam atenção por aumentos respectivamente de 46% e 101% dos gastos relativos a 2015. Não obstante à tendência generalizada de aumento de investimentos aqui demonstrada, o Brasil foi uma das poucas nações que reduziram seus investimentos no setor, com uma redução de 14% em relação a 2015. Simultaneamente, o governo brasileiro apresenta-se ativo em fóruns como o Fórum de Alto Nível Celac-África, realizado em março deste ano com 50 países participantes, o qual contou com a participação de apenas quatro chefes de Estado, incluindo o presidente Lula. Enquanto isso, negligencia a participação em conferências como a Conferência de Segurança de Munique, na qual não enviou nem seu chefe de Estado, nem seu chanceler, enquanto nomes como Marco Rubio, Emmanuel Macron, Friedrich Merz e Keir Starmer estiveram presentes.  Assim, é evidente que a pauta da securitização, posta como prioridade na agenda internacional comprovada pelo aumento de investimentos generalizado e os engajamentos de alto nível em fóruns de segurança, anteriormente tratada exclusivamente sob a ótica de projeção de poder militar, adquiriu um caráter de soft power à medida que condiciona a influência de uma nação a sua participação nas discussões. Sob esse viés, a situação brasileira agrava-se, pois tem o pilar central de sua  diplomacia — a influência e projeção global via engajamento — abalado pela sua ausência na trend global.    Cooperação e desenvolvimentos armados? Quando se discute a questão dos investimentos em defesa, é comum atrelar o conceito ao patrocínio da guerra via crescimento numérico de material bélico. Contudo, o conceito de gastos militares não é o mesmo que gasto em armamento, conforme apontado pelo SIPRI. Despesa militar é o gasto em geral, ou seja, pagamento de funcionários e das tropas de segurança civil, operações e manutenção de armamentos militares e não militares, construções de base e pesquisas e desenvolvimento (Camargo et al., 2016). A despesa militar atual não armamentista tem como principais formas de expressão a pesquisa para desenvolvimento, sobretudo tecnológico, e a cooperação estratégica entre nações. Sob essa perspectiva, o aumento do investimento efetivo e contínuo no setor para o Brasil não acarretaria em uma mudança nos princípios que guiam sua política externa, como se poderia argumentar, pois o gasto militar, como supracitado, não se limita ao dispêndio em armamentos, mas abarca todo o setor — envolvendo, inclusive, pesquisas nas áreas tecnológicas e de saúde com aplicações à sociedade civil. Assim, a utilização da verba no setor de defesa, principalmente nas áreas de aplicação dual, significaria um aprofundamento de princípios como a cooperação entre os povos para o progresso da humanidade, presente no artigo 4º da Constituição Federal (Brasil, 1988), por meio de parcerias em pesquisa e de missões de paz realizadas por militares de diferentes nações, e contribuiria para a efetivação dos objetivos da República previstos no artigo 3º (Brasil, 1988), em especial a garantia do desenvolvimento nacional. Isso porque tais investimentos estimulam a inovação e ampliam a autonomia tecnológica do país, gerando impactos positivos sobre a competitividade econômica e o desenvolvimento sustentado.  Apesar de não haver motivo para crer que, no Brasil, ao se ampliar os investimentos em defesa nacional, o crescimento econômico e industrial seria estimulado, uma vez que não há consenso no meio acadêmico a respeito de como os gastos militares afetam o desenvolvimento econômico dos Estados (Borges, 2024), existem exemplos concretos do entrelaçamento entre pesquisa em defesa e desenvolvimento tecnológico.  Um exemplo emblemático é a internet, originalmente desenvolvida em projetos financiados pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (ARPA) durante a Guerra Fria (ARPANET, s.d.). Dinâmica semelhante persiste no século XXI, quando países como Índia e China ampliam investimentos em inteligência artificial, cibersegurança e outras tecnologias estratégicas com aplicações tanto militares quanto civis. Assim, o investimento em defesa passa a atuar também como vetor de inovação, competitividade e projeção internacional.  No caso brasileiro, observa-se a existência de iniciativas relevantes que evidenciam o potencial do setor de defesa como indutor de desenvolvimento tecnológico, ainda que marcadas por limitações estruturais. O desenvolvimento do submarino nuclear no âmbito do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (ProSub), em parceria com a França, representa um dos exemplos mais emblemáticos de transferência de tecnologia e capacitação industrial em áreas sensíveis, como engenharia naval e tecnologia nuclear (Borges, 2024). Além disso, projetos como o cargueiro militar KC-390, desenvolvido pela Embraer, e os avanços em sistemas de monitoramento territorial, como o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) desenvolvido pelo exército (Borges, 20204), demonstram a capacidade nacional de produzir inovação com aplicação dual (civil e militar) . No entanto, tais iniciativas enfrentam entraves recorrentes relacionados não apenas à limitação de recursos, mas sobretudo à descontinuidade de políticas públicas e à instabilidade no financiamento de longo prazo. Essa falta de continuidade compromete a consolidação de cadeias produtivas e a maturação tecnológica, restringindo o potencial do Brasil de converter investimentos em defesa em ganhos sustentados de desenvolvimento e relevância internacional. Nesse contexto, o deslocamento da agenda internacional também redefiniu os padrões de cooperação militar entre Estados. Durante o auge do multilateralismo, observou-se uma tendência de cooperação baseada em operações conjuntas sob mandato internacional, especialmente em missões de paz, a exemplo da atuação coordenada no Haiti (MINUSTAH). Ainda que alianças militares tradicionais, como a OTAN, tenham permanecido centrais, esse modelo de cooperação voltado à estabilização e à reconstrução institucional perdeu protagonismo diante da reconfiguração das prioridades globais. No cenário contemporâneo, emerge uma lógica mais pragmática e estratégica, marcada por parcerias entre países com diferentes níveis de desenvolvimento, orientadas tanto pelo acesso a recursos críticos, quanto pela diversificação de parceiros em um ambiente internacional mais volátil. Observa-se, por exemplo, a intensificação de cooperações entre a União Europeia e países asiáticos como Japão e Coreia do Sul, incluindo acordos em segurança marítima, cibersegurança e desenvolvimento tecnológico dual (Fiott, 2024). Tais iniciativas refletem não apenas a busca por complementaridade econômica e tecnológica, mas também a construção de novas bases de confiança estratégica em contextos onde não há histórico consolidado de alianças, evidenciando uma transformação qualitativa na cooperação internacional em defesa. Nesse cenário, o Brasil apresenta um futuro promissor em parcerias estratégicas, como ilustrado pelo lançamento do Gripen via Embraer com a empresa Sueca Saab, pela colaboração com a França no projeto do submarino nuclear e pelos inúmeros debates internacionais sobre cooperação envolvendo terras raras. Assim, a atual conjuntura demonstra-se extremamente propícia para o Brasil à medida que não abandona o desejo por cooperação, que sempre foi prioridade para a diplomacia brasileira e portanto cenário de atuação confortável para o país, mas também inova ao propiciar cooperação Norte-Sul global de forma mais auspiciosa. Em vista disso, cabe ao Brasil usufruir da nova tendência na qual se insere de forma natural ao mesmo tempo que fortalece setores estratégicos — como o de aviação e a indústria marítima — que podem propiciar uma inserção global efetiva e vantajosa.    Soberania Condicionada Além das questões contemporâneas supracitadas que trazem uma nova importância para os investimentos em defesa, observa-se também a prevalência de uma lógica que pode ser compreendida como “soberania condicional” (Fukuyama, 2004)  baseada na performance de segurança, na qual o reconhecimento pleno da soberania estatal passa a depender da capacidade do Estado de garantir controle territorial e efetividade no enfrentamento de ameaças transnacionais. Atualmente, a realidade brasileira é marcada pelo sucateamento das forças de segurança em razão de limitações orçamentárias, evidenciado pelo estado precário de equipamentos e materiais essenciais — muitos já obsoletos —, o que compromete diretamente a atuação das Forças Armadas (Guimarães, 20205). Soma-se a isso o recorrente adiamento e cancelamento de projetos de pesquisa na área, agravando ainda mais esse cenário (Camargo et al, 2016). Não obstante, apenas recentemente, notou-se um maior engajamento de membros do governo alertando para essa situação, com falas de Lula e de seu ministro da Defesa, José Múcio, apoiando uma maior centralidade da temática na agenda doméstica. Assim expressou-se o presidente: “Nós nunca levamos a sério essa questão da segurança. Eu fico brincando com meus militares que, daqui a pouco, um país menor resolve invadir o Brasil e nós vamos ter dificuldade” (Valor Econômico, 2026). Quando o presidente ironiza a possibilidade de uma nação menor invadir o Brasil, torna-se essencial ampliar esse entendimento, não o restringindo à noção clássica de invasão territorial, mas incorporando também formas indiretas de interferência, como a influência sobre o processo eleitoral brasileiro e a construção de narrativas externas acerca do país. Nesse contexto, faz-se necessário compreender o setor de defesa como articulado à noção ampliada de segurança. Esta, entendida contemporaneamente como a condição que permite ao Estado preservar sua soberania e integridade (Camargo et al, 2016) , passa a incluir não apenas ameaças militares diretas, mas também riscos informacionais e políticos. Assim, a defesa nacional, enquanto conjunto de medidas e ações estatais voltadas à proteção contra ameaças externas, expande seu escopo para abarcar essas novas dimensões, reforçando a necessidade de adaptação e fortalecimento das capacidades estatais. Declarações recentes de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, sobre a possibilidade de classificar facções do crime organizado brasileiro como organizações terroristas ilustram como essas narrativas securitárias podem gerar pressões externas e questionamentos sobre a capacidade estatal brasileira de enfrentar ameaças transnacionais. Nesse contexto, o fortalecimento do setor de defesa torna-se não apenas instrumento de dissuasão material, mas também mecanismo de validação internacional da capacidade do Estado de controlar seu território.   Considerações Finais Diante de todo o exposto, torna-se evidente que os últimos anos de reestruturação da ordem global, com o enfraquecimento do multilateralismo, reajustaram a agenda internacional para a priorização de pautas securitárias que condicionam a projeção de uma nação a sua participação ativa na temática. Acompanhando a mudança da agenda internacional, observa-se uma reorientação nos padrões de alinhamento entre os Estados. Diante do interesse em fortalecer seus setores de defesa e da crescente incerteza no cenário internacional , em que alianças baseadas na lógica ideológica hemisférica já não se mostram plenamente satisfatórias, os Estados passam a buscar novas formas de cooperação voltadas a setores estratégicos, diversificando seus parceiros para além das tradicionais divisões entre Ocidente e Oriente ou entre Norte e Sul Global.  Ademais, nota-se a tendência de atores do sistema, como o Presidente Trump, em emplacar discursos que condicionam o reconhecimento de soberania à capacidade estatal de gerenciamento de ameaças, como o terrorismo e o narcotráfico, atrelado à qualidade das suas forças de segurança.  Nesse contexto, observa-se uma possível marginalização da diplomacia brasileira à medida que se entende a perda de espaço e de influência pela debilitação do setor de defesa do Brasil proveniente de décadas de negligência que limitam sua capacidade de engajamento na nova ordem em estabelecimento. Ainda, é importante ressaltar que a conjuntura atual, marcada pela redefinição das prioridades globais e pela abertura de novas formas de cooperação, apresenta-se como uma janela de oportunidade singular para que o país revise sua trajetória histórica de subinvestimento e reposicione o setor de defesa como pilar central de sua projeção internacional, sem necessariamente abandonar as bases de sua política externa pautada no soft power, no desenvolvimento e na cooperação. Na lógica do brasileiro pai da aviação que “criou um aparelho para unir a humanidade, não para destruí-la” ao refletir sobre o uso dual de tecnologias, o Brasil possui agora a oportunidade de atualizar seu sistema de defesa de modo a priorizar a cooperação estratégica, o desenvolvimento tecnológico conjunto e aplicações de caráter dual, orientando sua inserção internacional para a construção de parcerias e a estabilidade, em vez de se vincular a narrativas centradas no conflito.    Referências Bibliográficas:   AREAL, P. Trump volta a criticar Otan: “aliado extremamente não confiável”. Metrópoles, Brasília, 4 abr. 2026. Disponível em:https://www.metropoles.com/mundo/trump-volta-a-criticar-otan-aliado-extremamente-nao-confiavel. Acesso em: 10 abr. 2026.   ARPANET. Encyclopaedia Britannica, ano. Disponível em:https://www.britannica.com/topic/ARPANET. Acesso em: 25 abr. 2026.    BORGES, D. G. 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