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PET-REL

por Yasmin Freitas Taia    

 

Em agosto de 2025, foi aprovado, no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (CSNU, em inglês), o último mandato da Força Interina das Nações Unidas do Líbano (UNIFIL, em inglês), com permanência até dezembro de 2026 e retirada de pessoal durante o ano de 2027 (UNIFIL, 2026). Tal decisão ocorreu devido à escalada de conflitos entre Israel e o grupo armado Hezbollah no Líbano, passando a responsabilidade total para o exército libanês. No entanto, muitos fatores devem ser analisados para compreender as consequências do fim desta Missão de Paz da ONU para o Líbano e para o Oriente Médio como um todo.

A escalada do conflito no Líbano está diretamente ligada aos ataques realizados entre Israel e Estados Unidos contra o Irã em 2025, visto que o Hezbollah é um dos integrantes do chamado Eixo de Resistência do Irã e está estabelecido no sul do Líbano. Nesse contexto, a decisão do CSNU está vinculada aos interesses das grandes potências e à crise do multilateralismo que enfraquece a atuação da ONU e de suas missões de paz. Porém, a retirada dos capacetes azuis será um agravante da violência na região, retirando o único órgão internacional responsável por relatar infrações aos acordos de paz e de violação dos direitos humanos.

 

A Formação da UNIFIL e a Instabilidade Histórica do Sul do Líbano

A Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL), criada em 1978 após a invasão de Israel ao sul do Líbano para expulsar a Organização de Libertação da Palestina (OLP), é uma das missões de paz da ONU mais longevas, (Paes, 2018). Nesse sentido, seus principais objetivos são o apoio ao governo libanês para restaurar a sua autoridade, a desmobilização de grupos armados não estatais e o impedimento da entrada de armas ilegais (O Globo, 2025). Contudo, o encerramento do mandato sinaliza uma transição arriscada. Ao transferir a responsabilidade pela segurança para um exército libanês ainda limitado, a retirada da ONU ameaça reabrir o espaço para as mesmas lógicas de força que motivaram a criação da missão há quatro décadas

Paralelamente à instabilidade cíclica, o conceito de segurança “absolute security”, apresentado pelo ex-brigadeiro-general do exército israelense Udi Dekel, é atrelado à estratégia militar utilizada por Israel desde os ataques realizados no dia 7 de outubro pelo Hamas (Dekel, 2026). A partir desse conceito, o país busca eliminar de forma absoluta qualquer forma de ameaça, como a presença do Hamas na Palestina, as capacidades balísticas e nucleares do Irã e a permanência do Hezbollah no Líbano, sendo considerado um fracasso qualquer conquista parcial. Dessa forma, a busca por neutralizar ameaças através da força que justificou as invasões ao Líbano, evidenciando que a UNIFIL nasceu e permanece como um mecanismo multilateral para uma guerra contínua.

Como contrapeso direto à Israel e à influência dos EUA no Oriente Médio, o Irã formou o “Eixo de Resistência”, uma rede  composta por grupos armados — como Hezbollah (Líbano), Houthis (Iêmen) e milícias xiitas (Iraque) —, funcionando como um “polvo” (Day, 2025). Tal analogia explica-se pela independência de movimentos de cada tentáculo sem ser necessário consultar o cérebro de forma direta. Na aliança iraniana, essa dinâmica reflete-se na autoridade de cada grupo para realizar seus ataques e manobras políticas sem recorrer diretamente ao Irã (Day, 2025). Nesse contexto, a recente decisão, realizada no dia 2 de março de 2026 pelo Hezbollah, de abrir uma nova frente de conflito contra Israel, na fronteira com o Líbano, teve como um dos objetivos o comprometimento com o Irã de desestabilizar o inimigo comum. Logo, a escalada de conflitos no Líbano, que resultou no fim do apoio e pressão política para o encerramento da UNIFIL, está relacionada com a disputa entre Israel, junto aos EUA, e o Irã.

 

Raízes da Instabilidade: O Histórico de Invasões e a Necessidade de Mediação

Em 2000, foi estabelecido pela UNIFIL a “Linha Azul” a fim de delimitar uma área de 120 quilômetros que garantisse a retirada total das tropas israelenses (CNN Brasil, 2024), frente ao conflito fronteiriço histórico entre Israel e o Líbano. Nesse cenário, as tropas da Missão de Paz cumprem um papel fundamental de fiscalização das fronteiras e de manutenção da paz. Atualmente, a missão é composta por 7.478 peacekeepers de 47 países (UNIFIL, 2026) e as operações são realizadas em uma área de 1.060 km² entre a Linha Azul e o Rio Litani (CNN Brasi, 2024l). 

O cessar-fogo que estava vigente até a recente escalada do conflito em março de 2026, teve mediação dos Estados Unidos e foi definido em 2024 (G1, 2024). O acordo envolve a retirada de tropas israelenses do sul do Líbano, o distanciamento do Hezbollah da fronteira com Israel, e o fim de qualquer tipo de ataque armado entre as partes (G1, 2024). Apesar deste suposto entendimento entre as partes, Israel violou o acordo e realizou o ataque mais mortal desde o último cessar-fogo, que resultou na morte de mais de 300 pessoas, incluindo ao menos 30 crianças, e em mais de 1.223 feridos (CNN, 2026). Assim, a contradição entre o discurso israelense de absolute security e a continuidade das operações militares representa um desfio para a estabilidade do Líbano. Apesar da retórica oficial de Israel ser de apoio ao Estado libanês contra o Hezbollah, a realidade operacional das agressões demonstra que a própria atuação israelense constitui o principal motor para a escalada de violência na região.

A ideia de “segurança absoluta” manifesta-se quando as Forças de Defesa Israelenses declaram que as operações tinham enfoque no Hezbollah, mas realizam ataques em áreas civis provocando danos e mortes (CNN, 2026). Diante disso, o presidente estadunidense Donald Trump se manifestou contrário à postura extremamente ofensiva de Israel, e solicitou maior discrição nas suas atuações (CNN, 2026). No entanto, a ausência de medidas coercitivas dos EUA demonstra a passividade estratégica e que o objetivo não era de fato barrar a atuação israelense, mas sim gerir a repercussão política internacional.

Diante dessa lacuna na mediação das grandes potências, a UNIFIL assume um papel indispensável no monitoramento do conflito. A proteção de civis constitui um dos mais relevantes papéis da missão, por meio da qual se realiza a vigilância diária de possíveis violações ao cessar-fogo, buscando a garantia de segurança das populações locais e a entrega de ajuda humanitária. Apesar do cessar-fogo ter sido acordado entre as partes, as forças armadas libanesas relataram violações diárias por Israel, que confirmou mais de 500 ataques aéreos sob o argumento de serem alvos do Hezbollah (OHCHR, 2025). Ademais, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos verificou, até outubro de 2025, 108 casualidades civis — sendo elas 71 homens, 21 mulheres e 16 crianças —, e o  sequestro de pelo menos 16 civis libaneses pelas forças armadas israelenses (OHCHR, 2025). Por outro lado, também houve violações pelo Líbano, que foi responsável pelo incidente de 4 projéteis disparados em direção ao Irã, que desencadeou o deslocamento de 30.000 civis do norte de Israel; no entanto, não houve vítimas (OHCHR, 2025). A partir desses dados, a UNIFIL consolida-se como o único pilar institucional capaz de atuar contra a violência no território, sendo indispensável para os relatórios imparciais de eventuais causalidades e proteção dos civis.

Diante da paralisia diplomática das grandes potências, a Força Interina das Nações Unidas no Líbano emerge como principal órgão neutro na região, que realiza multifunções para garantir o bem-estar da população local e para a manutenção da paz. Dessa forma, sua permanência é o que garante o suporte militar e a capacitação técnica necessária para que o exército libanês se fortaleça. Nesse sentido, a decisão do fim dessa missão de paz foi definida diante de um cenário de conflitos de interesses por parte das potências globais e da crise da ONU. Logo, a ausência dos peacekeepers no Líbano é uma variável preocupante para a estabilidade do Oriente Médio como um todo.

 

A UNIFIL como Instrumento de Mediação e Proteção Civil

A Resolução 2790 (2025) foi a mais recente renovação da UNIFIL, pelo Conselho de Segurança da ONU, que estabelece o fim de seu mandato em dezembro de 2026 e a retirada do pessoal a partir de 2027 (UNIFIL, 2025). Nesse sentido, a Resolução 1701 (2006), que estabelece a delimitação da Linha Azul, o suporte das partes e a cessação de hostilidades, deve continuar sendo implementada para a manutenção da paz até 2027 (UNIFIL, 2025). A decisão realizada no ano passado ocorreu em um cenário de forte pressão, principalmente pelos Estados Unidos, que vêm cortando os fundos destinados à missão e argumentando que o Líbano deve ser o único ator responsável pela sua própria segurança (Al Jazeera, 2025). Com isso, é possível ver que um dos principais propulsores para a crise do multilateralismo da ONU é o corte financeiro e a descredibilização de sua autoridade, principalmente pelos EUA.

Aliado aos Estados Unidos, Israel foi outro apoiador relevante para o fim da UNIFIL, acusando-a de falhar em impedir as ameaças do Hezbollah e a intensificação do conflito, principalmente após o ataque do Hamas à Israel em outubro de 2023 (Al Jazeera, 2025). Entretanto, longe de sinalizar uma estabilização, o fim próximo da Missão coincide com uma nova escalada de conflitos que expõe a fragilidade da segurança regional. De acordo com as autoridades do Líbano, os ataques israelenses desde 2 de março de 2026 resultaram na morte de 2.618 pessoas e forçaram o deslocamento de mais de um milhão de pessoas (Al Jazeera, 2026). Toda essa escalada do conflito, mesmo diante do anteparo institucional da UNIFIL, já é preocupante e mostra que agora não é o momento de retirar um ator tão relevante para a promoção da estabilidade no Líbano.

Nessa perspectiva, o Embaixador da China nos Estados Unidos, Fu Cong, reavaliou o cenário de inexistência de um cessar-fogo eficaz na região e defende a necessidade de uma reavaliação da decisão do CSNU sobre o fim do mandato da UNIFIL (Al Jazeera, 2026). Dessa forma, a relevância estratégica da China reside na busca para consolidar-se como uma potência global com influência para equilibrar as pressões apresentadas por Israel e pelos EUA no CSNU. Nesse contexto, Pequim compreende que a estabilidade do Oriente Médio é necessária para defesa de seus interesses econômicos, principalmente por causa das rotas de energia e comércio. 

Entretanto, apenas o estabelecimento de um novo acordo de paz ou de acordos bilaterais não será suficiente para o monitoramento das violações e de conflitos armados entre os países.Tal insuficiência justifica-se pelo fato de a UNIFIL constituir o único mecanismo internacional permanente capaz de documentar as infrações no terreno de forma neutra. Consequentemente, na ausência da fiscalização e prestação de contas pela ONU, os pactos careceriam de responsabilização e neutralidade, deixando a população civil vulnerável à constante violação dos acordos.

Por fim, os Estados Unidos vêm mediando negociações entre Israel e Líbano a fim de restabelecer o cessar-fogo, mas ainda não possuem relações diplomáticas formais (Folha de São Paulo, 2026). De acordo com o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, a visão de um acordo bilateral é “perfeitamente viável”, mas a culpa do conflito recai apenas sobre o Hezbollah, segundo ele (Folha de São Paulo, 2026). Após toda a análise da conjuntura, a complexidade da região demonstra que o Hezbollah não é o único ator envolvido no endurecimento do conflito, tampouco na decisão de encerramento da UNIFIL. Logo, a retirada dos capacetes-azuis é um reflexo dos atores que visam eliminar o aparato multilateral, para terem maior liberdade em suas ações militares, priorizando a lógica da força.

 

Conclusões

Em suma, a histórica disputa de interesses na fronteira entre o Líbano e Israel é um epicentro de insegurança regional, fomentado pelos interesses hegemônicos conflitantes e atuação de grupos armados, como o Hezbollah. Nesse contexto, o encerramento da Força Interina das Nações Unidas no Líbano, determinado pela Resolução 2790, criará um perigoso vácuo de segurança, pois retira um poder capaz que complementa as Forças Armadas Libanesas (LAF), que ainda não estão preparadas para lidar com esse conflito de forma independente. 

Além dessa necessidade militar, a presença dos peacekeepers é o único mecanismo de documentação e de acompanhamento local do conflito, que representa a resiliência do multilateralismo na região. Assim, a presença institucional da UNIFIL é uma barreira indispensável para a mentalidade de “segurança absoluta” adotada por Israel, que prioriza a liberdade de ação operacional acima de qualquer cessar-fogo. Portanto, sem o escudo institucional multilateral, a retirada dos capacetes-azuis sinaliza a vitória da força bruta sobre a diplomacia, permitindo que a busca por uma segurança absoluta transforme o sul do Líbano em um campo de batalha permanente 

 

Referências Bibliográficas

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G1. Retirada de tropas e fim de ataques: veja os detalhes do acordo de cessar-fogo entre Israel e Hezbollah. G1, 26 nov. 2024. Disponível em:https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/11/26/retirada-de-tropas-e-fim-de-ataques-veja-os-detalhes-do-acordo-de-cessar-fogo-entre-israel-e-hezbollah.ghtml. Acesso em: 8 maio 2026. 

 

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