Entre a Paz e a Anistia: “Ainda Estou Aqui” e a Credibilidade Internacional
Gabriel M. C. Boaventura
Ali estava um ícone da ditadura, prova bem articulada que contestava a versão oficial. Minha mãe viva negava a mentira criada.
(Marcelo Rubens Paiva, 2015)
Desde sua estreia na edição de 2024 do Festival Internacional de Cinema de Veneza, o filme “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles e estrelado por Fernanda Torres e por Selton Mello, tem provocado uma onda de reações em públicos nacionais e internacionais. Aclamado pela crítica, a obra foi indicada e venceu categorias importantes em premiações notórias. Entre os destaques, estão as indicações ao Oscar nas categorias Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz, além da vitória de Torres como Melhor Atriz em Filme de Drama no Globo de Ouro, um feito inédito para uma brasileira. Ao trazer para as telas dos cinemas a ditadura brasileira, uma parte crítica da história do país, o filme suscita reflexões sobre o papel político da arte, evidenciando seu potencial transformador. Contudo, no contexto atual, o filme – assim como o livro que o inspirou – não apenas narra os fatos da família Paiva, mas também revela os pontos críticos, reprimidos e, muitas vezes, ignorados pelos arquivos oficiais.
Em entrevista ao UOL Prime (2024), Fernanda Torres destaca que, ao apresentar o filme ao público internacional, ressalta: “O que o Brasil tem são soluções, meio ‘vamos varrer pra debaixo do tapete, deixar a casa bonita, arrumada, e seguir em frente’”. Concomitantemente, o Brasil foi reeleito para o Comitê Organizacional da Comissão para Consolidação da Paz das Nações Unidas (PBC), reafirmando sua atuação como mediador global e sua participação contínua no comitê desde 2010. A simultaneidade desses eventos evidencia a tensão entre o papel internacional do Brasil e sua dificuldade em lidar com questões domésticas, indicando uma incoerência entre a imagem projetada ao exterior e as contradições internas narradas pelo filme.
Nesse contexto, esta análise busca explorar como o cinema pode atuar como um mecanismo de pressão internacional, moldando concepções externas e estimulando a reestruturação de políticas internas. Para isso, será analisada a Teoria dos Papéis junto à ideia de Diplomacia Cultural, discutindo como esses conceitos são questionados pela produção cinematográfica. O objetivo é discutir como o destaque internacional de “Ainda Estou Aqui” desafia a imagem oficial do Brasil no cenário global, ao expor as controvérsias entre a narrativa de um país pacificador e os obstáculos para resolver os próprios conflitos históricos.
Roteiros de poder: o cinema e a Diplomacia Cultural
Para compreender o papel decisivo que a internacionalização do filme assume, é fundamental destacar a relevância do cinema e das demais atividades culturais na projeção internacional de um país. Nesse contexto, “a cultura de um país representa sua identidade, aquilo que o difere de outras nações, [...] o cartão de boas-vindas” (Bijos e Arruda, 2010, p. 38). Entretanto, além de sua função identitária, a cultura também “pode desempenhar um papel importante na superação de barreiras, na promoção da cooperação e na redução de desconfianças mútuas.” (Ibid., p. 36).
Considerando tais possibilidades, os Estados utilizam de sua cultura como um mecanismo que não apenas garante sua individualidade dentro da sociedade internacional, mas também, e principalmente, lhes conferem credibilidade para romper com o isolacionismo e ultrapassar as fronteiras nacionais. Esse papel estratégico, que compreende a utilização de valores culturais, ideológicos e políticos para conseguir a atratividade de outros Estados, sem a necessidade de utilizar a coerção, é denominado como soft power por Joseph Nye (2004, p.14).
Dentro desse espectro maior de atividades entendidas como instrumentos de soft power, está a Diplomacia Cultural. Essa prática é caracterizada pela execução de iniciativas que disseminam a cultura de um país, com o objetivo de fortalecer sua presença no cenário internacional (Bijos e Arruda, 2010, p. 37). Embora o conceito esteja, tradicionalmente, associado às ações estatais para projeção da imagem nacional, produções culturais privadas, como o filme “Ainda Estou Aqui”, também desempenham um papel significativo nesse processo. Devido à sua ampla repercussão global, "Ainda Estou Aqui" foi incorporado em diversos momentos à comunicação oficial do governo brasileiro. Um exemplo marcante ocorreu na solenidade que marcou os dois anos das invasões às sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023. Durante o evento, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez referência direta à obra ao declarar: “Hoje é dia de dizermos em alto e bom som: Ainda estamos aqui.” (G1, 2025), evidenciando o uso estratégico do filme como símbolo de resistência e resiliência democrática.
Usar o cinema como ferramenta de soft power não é uma novidade. Desde o início do século XX, países como os Estados Unidos e a antiga União Soviética utilizaram obras cinematográficas para projetar seus valores e influenciar percepções globais. Para além do entretenimento, essas produções exerceram papel fundamental na disseminação de ideologias e construção da imagem internacional dos Estados. Como afirma Mustafa, Noureen e Jabeen (2020, p. 12), o cinema foi o responsável por fomentar o senso comum entre as massas sobre as relações internacionais.
Ao utilizar "Ainda Estou Aqui" como um símbolo, o governo brasileiro reforça a narrativa da “democracia contra a ditadura”, mas evita aprofundar os elementos que ainda persistem desde os eventos iniciados em 1964. A declaração do Presidente Lula, ao afirmar que “seremos implacáveis contra quaisquer tentativas de golpe, [...] todos pagarão pelos crimes que cometeram, [...] porque a democracia venceu” (G1, 2025), destaca a responsabilização pelos ataques às instituições democráticas recentes. Entretanto, o discurso ignora a conexão entre a anistia concedida aos militares no passado e a perpetuação de práticas que ameaçam a democracia no presente. Nesse sentido, embora o filme seja utilizado como instrumento para fomentar o debate sobre o “ódio e nojo à ditadura”, o governo não reconhece seu próprio papel em sustentar a impunidade pelos crimes cometidos no período retratado.
Assim, a cultura, em especial as produções cinematográficas, são importantes instrumentos de promoção de um país no cenário global. O impacto desses materiais pode ser percebido na sua capacidade de destacar ou questionar a posição oficial assumida pelos Estados. Esse potencial resulta em questões importantes: qual o papel assumido pelo Brasil internacionalmente? Como a credibilidade do país pode ser afetada por uma narrativa cultural?
O Brasil como mediador global
Tal qual acontece no cinema, o sistema internacional funciona com base nos papeis desempenhados pelos atores que nele interagem. É esse o pressuposto central defendido pela Role Theory – ou Teoria dos Papéis - e será o eixo que sustentará a argumentação na presente seção.
Desse modo, Harnisch (2011) destaca que a Role Theory se baseia na ideia de que os atores do sistema internacional, sejam eles Estados ou não, desempenham papéis sociais definidos por expectativas internas (ego) e externas (alter). Enquanto a primeira é determinada pela autopercepção de um ator e suas ideias sobre o papel que exerce, a segunda refere-se às percepções de outros atores, no sistema. Essa dinâmica, por estar estruturada em fatores psicológicos, identitários e antropológicos, é constantemente questionada, resultando em conflitos intra e inter papéis, especialmente quando há incoerência entre as expectativas internas e externas. Por fim, a Role Theory entende que os papéis podem ser alterados, mas esse fenômeno molda a identidade dos atores, o que reflete, em última análise, na posição e relevância que eles assumem no sistema internacional.
O Brasil tem, historicamente, construído sua posição no plano internacional com base na ideia de ser um mediador global, alinhando-se aos princípios de solução pacífica de conflitos, cooperação multilateral e promoção do diálogo entre nações (Bellé, 2015, p.26). Pautado pelas concepções liberais e neo-institucionais, a diplomacia brasileira valoriza a institucionalização de normas internacionais e a interdependência como meio para se obter a estabilidade entre os Estados.
Teoricamente, a política externa brasileira pode ser interpretada como um exemplo de Smart Power, definido como um poder que irá “mesclar o uso estratégico da diplomacia ao mesmo tempo que possui como ferramentas seu poder econômico, militar, cultural e político” (Ibid., p.26). O objetivo, nesse contexto, deve ser entendido como a criação de um ambiente de confiança, no qual medidas coercitivas não são vistas como uma possibilidade. Esse ambiente é estrategicamente construído pelo Brasil por meio de suas políticas diplomáticas, ações de cooperação internacional e, singularmente, valores culturais.
Eventos recentes corroboram para o entendimento geral de que o Brasil atua como um verdadeiro mediador global. Durante a Reunião de Alto Nível de Países do Sul Global sobre o conflito na Ucrânia, a delegação brasileira desempenhou um papel de liderança na criação do “Grupo de Amigos da Paz” (Agência Gov, 2024). Tal iniciativa transmite a noção de que o compromisso do Brasil é buscar soluções diplomáticas para conflitos internacionais, garantindo o diálogo entre as partes e consolidando sua posição como ator neutro e confiável no sistema internacional. Além disso, a reeleição do Brasil para integrar o Comitê de Paz das Nações Unidas (Agência Brasil, 2024) destaca a movimentação do país como membro ativo em órgãos internacionais voltado à promoção da paz e segurança, ao mesmo tempo que evidencia o reconhecimento dos demais atores acerca da postura do Brasil em relação ao papel por ele assumido.
Uma vez estabelecida a confiança com os demais países, o próximo desafio é garantir sua manutenção e evitar rupturas. Assim como defendem Bijos e Arruda (2010, p. 48) “o país que almejar liderança política deverá buscá-la por meio da atração, da legitimidade e da credibilidade internacional”, no entanto, destacam também que “a consistência entre a política nacional e os projetos internacionais é o fator determinante da credibilidade de um país, inclusive no que se refere à sua autonomia.” (Ibid., p. 39). Nesse sentido, o sucesso internacional de “Ainda Estou Aqui” evidencia um ponto crítico: como o Brasil enfrenta a questão da coerência entre seu discurso global e suas práticas internas? Ou, talvez mais relevante, como ele lida com sua evidente falta de coerência?
Pode o Brasil sustentar sua credibilidade internacional?
Visando melhor compreender a importância de tais questionamentos, é necessário reforçar a narrativa tratada na obra em questão. Ambientada durante a ditadura militar brasileira, a história retrata como, após o desaparecimento de Rubens Paiva, ex-político e opositor do regime, sua esposa Eunice Paiva abandona sua rotina para se tornar uma ativa defensora dos direitos humanos. Apesar da democracia ter sido restabelecida no país, o que poderia reforçar a imagem internacional do Brasil como mediador de conflitos internos, o filme destaca um elemento importante: os perpetradores do crime contra Rubens Paiva jamais foram presos ou punidos.
Essa tensão entre a redemocratização e a anistia dos crimes do regime representam um tipo específico de conflito intra-papel, conhecido como person-role conflict. Segundo Harnisch (2012, p. 50), esse cenário ocorre quando um ator age de maneira incompatível tanto com as expectativas individuais quanto com as expectativas externas sobre o papel de uma nação nas relações internacionais. No caso em questão, a incoerência é evidente na contraposição entre a imagem do Brasil como promotor da democracia e mediador global e a negligência para resolver os conflitos domésticos, optando pela anistia, que deixou crimes cometidos durante a ditadura militar sem responsabilização.
A repercussão de “Ainda Estou Aqui”, nesse contexto, vai além de sua excelência artística. Ao tratar os silêncios do período ditatorial e como eles impactam a qualidade democrática do país, o filme difunde internacionalmente uma narrativa que questiona a credibilidade do Brasil, expondo feridas internas que ainda seguem abertas. A obra pode ser interpretada como um exemplo de diplomacia cultural crítica, já que, ao invés de reforçar uma imagem positiva da nação, analisa e reflete sobre a posição do país no enfrentamento de um trauma. Enquanto o faz, a obra também destaca valores como justiça e resiliência, contribuindo para o soft power brasileiro, mesmo que por meio de um enredo que questione a harmonia entre discurso e prática.
Medidas atuais implementadas pelo Estado brasileiro ilustram como o cinema interage com as dinâmicas políticas e promove uma pressão por realinhamento entre as expectativas internas e externas ao estimular debates sobre memória e justiça histórica. Em decisão divulgada em dezembro de 2024, o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino reconheceu a repercussão da matéria que questiona o alcance da Lei da Anistia em relação ao crime de ocultação de cadáver, considerado permanente por se prolongar no tempo enquanto os corpos não forem localizados. Na fundamentação de sua decisão, Dino destacou o impacto do filme "Ainda Estou Aqui", citando sua relevância ao abordar o desaparecimento de Rubens Paiva e a dor das famílias que jamais obtiveram respostas sobre o paradeiro de seus entes queridos (Agência Brasil, 2024).
Além disso, outra repercussão interna da visibilidade internacional do filme foi a criação do Prêmio Eunice Paiva. Destinado a reconhecer brasileiros e estrangeiros que tenham contribuído para a consolidação e defesa da democracia, bem como para o avanço dos valores democráticos, o prêmio se configura como um meio de reforçar a ligação entre cultura e política ao relembrar figuras que representam a luta pelos direitos humanos, como Eunice Paiva (G1, 2025).
Portanto, o sucesso de “Ainda Estou Aqui” se dá em um cenário ambíguo: embora contribua para a prospecção internacional do Brasil por meio de sua influência cultural, o filme se estrutura na crítica de que esse prestígio só pode ser sustentado com um enfrentamento mais eficaz das próprias lacunas históricas. A credibilidade internacional, por fim, não pode e nem deve ser sustentada apenas por discursos e representações artísticas, uma vez que são as ações que garantem a legitimidade dos valores defendidos no plano global.
Considerações Finais
O lançamento de “Ainda Estou Aqui” e toda a sua reverberação internacional demonstram como a arte e a cultura são fortes o suficiente para questionar narrativas oficiais. A dualidade de um país preocupado com a paz no âmbito global, mas que negligencia a reparação efetiva de seus conflitos internos expõe a fragilidade da credibilidade internacional brasileira, no que tange a coerência do discurso que se propaga enquanto nação.
Em um dos momentos finais do filme, quando Eunice Paiva recebe a declaração de óbito do marido, 25 anos após o seu desaparecimento em 1971, uma jornalista pergunta à protagonista se, com a democracia restabelecida, o Brasil não teria pautas mais urgentes do que se preocupar com o passado. Eunice diz que não. Esse momento reflete toda a potencialidade da obra, ao demonstrar que a reparação dos erros cometidos, mesmo que em épocas já superadas, é essencial para a construção de uma democracia sólida e para evitar a repetição de tais fatos. Internacionalmente, a cena pode ser interpretada como um questionamento sobre a capacidade do Brasil de manter sua posição como mediador global, já que não se preocupa em enfrentar de forma eficaz seus próprios conflitos.
Em conclusão, para que o país consiga sustentar o seu papel global como defensor da paz e da democracia, é necessário que o discurso promovido para o exterior seja refletido em ações concretas no plano doméstico. Uma verdadeira liderança não se constrói apenas com o diálogo, mas com o compromisso de resolver as tensões sociais e políticas que ainda assombram os cidadãos dentro de suas próprias fronteiras.
Referências Bibliográficas
BELLÉ, Richeli Eliza. O papel do Brasil como mediador de conflitos no cenário internacional. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Direito Internacional) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015.
Brasil, China e mais países anunciam criação do “Grupo de Amigos da Paz”. Agência Gov. Brasil, 28 de set de 2024. Disponível em:https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202409/criacao-do-201cgrupo-de-amigos-da-paz201d-durante-reuniao-de-alto-nivel-de-paises-do-sul-global-sobre-o-conflito-na-ucrania. Acesso em: 13 de jan de 2025
Brasil é eleito para novo mandato no comitê da paz da ONU. Agência Brasil. Brasil, 21 de dez de 2024. Disponível em:https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2024-12/brasil-e-eleito-para-novo-mandato-no-comite-da-paz-da-onu. Acesso em: 13 de jan de 2025
BIJOS, Leila Maria DaJuda; ARRUDA, Verônica. A diplomacia cultural como instrumento de política externa brasileira. Revista Dialogos, v. 13, n. 1, 2010.
Dino propõe que Lei da Anistia não vale para ocultação de cadáver. Agência Brasil. Brasil, 15 de dez de 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2024-12/dino-propoe-que-lei-da-anistia-nao-vale-para-ocultacao-de-cadaver. Acesso em: 19 de jan de 2025.
FERNANDA Torres e a campanha exaustiva por indicação ao Oscar [direção de UOL Prime]. [S. l.: s. n.], 2024. 1 vídeo (13:25 min). Disponível em:https://www.youtube.com/watch?v=kyLetd2WY2k. Acesso em: 9 jan. 2025.
HARNISCH, Sebastian. Conceptualizing in the Minefield: Role Theory and Foreign Policy Learning: Role Theory and Foreign Policy Learning. Foreign Policy Analysis, v. 8, n. 1, p. 47-69, jan. 2012.
HARNISCH, S. Role Theory: Operationalization of Key Concepts. Role Theory in International Relations: Approaches and Analyses, London: Routledge, 7–15, 2011.
Lula assina decreto que cria prêmio Eunice Paiva de defesa da democracia. G1. Brasil, 8 de jan de 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/01/08/lula-assina-decreto-que-cria-premio-eunice-paiva-de-defesa-da-democracia.ghtml. Acesso em: 19 de jan de 2025
'Hoje é dia de dizermos em alto e bom som: ainda estamos aqui', diz Lula em evento que marca o 8 de janeiro. G1. Brasil, 8 de jan de 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/01/08/hoje-e-dia-de-dizermos-em-alto-e-bom-som-ainda-estamos-aqui-diz-lula-em-evento-que-marca-o-8-de-janeiro.ghtml. Acesso em: 18 de jan de 2025.
MUSTAFA, Nayyer; NOUREEN, Abida; JABEEN, Shehla. The Role of Cinema in Reflection of Political Ideologies. International Review of Social Sciences, v. 8, n. 7, p. 10-16, 2020.
NYE JR., Joseph S. The Benefits of Soft Power. In: Soft Power and leadership compass: a journal of leadership, Spring 2004. Center for Public Leadership, John F. Kennedy School of Government, Harvard University.