Projeto transnacional de repressão de gênero: articulações culturais e políticas

Por Carolina Bastos ¹

Data de publicação: 07 de julho de 2026

Em março de 2026, foi aprovado no Senado Federal o projeto de lei 896/2023, que equipara crimes motivados por misoginia ao crime de racismo, tipificado na lei 7.716/1989, como resposta institucional a uma onda de feminicídios, estupros e agressões de gênero tomarem os noticiários no país (Agência Brasil, 2026). Nas redes sociais, entretanto, a reação ao PL se materializou em campanhas de desinformação e teorias conspiratórias, que inflaram críticas e polarizaram o debate público (Agência Brasil, 2026). Em 2019, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) igualou homofobia e transfobia ao crime de racismo, reconhecendo omissão legislativa, e em 2023, quando enquadrou crimes contra a comunidade LGBTQIAPN+ como injúria racial (STF, 2019; STF, 2023), presenciou-se dinâmica similar de tensionamento político e ideológico.

A reação a essas tipificações legais indica forte correlação entre gênero, sexualidade e condução da prática política. Por envolverem questões tão intrínsecas à identidade, à relação grupal e à convenção social, tais disputas pouco teriam como escapar das arenas políticas, e isso transcende o cenário brasileiro, configurando um movimento global, transversal, supremacista e antidemocrático. Essa articulação combina práticas culturais e políticas a fim de manter hierarquias sociais que beneficiam grupos dominantes específicos, manifestada por uma massa crescente que repete discursos repressivos de pautas de gênero (Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025). Nesse ínterim, faz-se necessário entender essa tendência repressiva de gênero e suas ramificações, em vista de compreender a articulação do retrocesso democrático, do autoritarismo e do extremismo no âmbito internacional.

Gênero como construção social e categoria analítica

Segundo Juan-Torres, Livingston e Chandra (2025), diferente de sexo biológico, categoria baseada no dimorfismo corporal humano, gênero denota uma construção social, calcada em processos de formação, internalização, reprodução e reafirmação social de expectativas identitárias. O conceito, entretanto, é disputado na literatura feminista. Joan Scott (1989) aborda-o como um elemento constitutivo das relações sociais e uma forma inicial de relação de poder. Já Judith Butler (apud Ton, 2018) caracteriza-o a partir de performance e performatividade, demandando uma constante estabilização e recalibração, de forma que não há gênero antes de sua prática performática. Ainda, María Lugones (2020) descreve gênero como parte de um sistema colonial/moderno, construído em profunda interligação com a Colonialidade do Poder de Quijano.

Dada tal pluralidade e densidade simbólica, gênero situa-se no topo da escala de inexatidão conceitual e evoca normas sociais e culturais, expectativas de longa data, emoções fortes e tensões sociais e culturais. Dessa maneira, na medida em que sua fluidez conceitual é contrastada com hierarquias sociais rígidas, viabiliza-se sua instrumentalização política, com a propagação de narrativas que enquadram reivindicações de direitos relacionados a gênero e sexualidade como ameaças diretas aos privilégios do grupo hierárquico dominante. Ainda, tal amplitude possibilita sua segmentação conforme as conveniências de cada fim político e cada conjuntura nacional, tornando os ataques e o enrijecimento de hierarquias sociais e relações de poder específicos e direcionados (Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025).

Estabelece-se, portanto, “repressão de gênero” como um conceito que engloba mais do que o cerceamento de direitos femininos — inclui-se todo o arcabouço que oprime indivíduos e comunidades em razão de gênero e sexualidade, isto é, medidas que afetam a liberdade corporal e relacional desses grupos, tal como a rescisão de direitos reprodutivos e de autonomia sobre transições de gênero.

Articulação repressiva cultural e política

A repressão de gênero no âmbito internacional não opera de maneira isolada na esfera institucional. Pelo contrário, o processo se estrutura a partir de uma combinação calculada de mudanças culturais e instrumentalização política. Cultura, tal como gênero, é um conceito debatido, mas pode ser interpretada, entre outras perspectivas, como “um modo de vida — englobando ideias, atitudes, línguas, práticas, instituições e estruturas de poder” (Nelson; Treichler; Grossberg, 1992 apud Alvarez; Dagnino; Escobar, 2018). Nesse cerne, ao alterar-se a cultura, alteram-se também aspectos fundamentais da construção e manutenção política. A rigidez no ideário cultural se transforma em rigidez nas experiências sociais e políticas, tornando práticas normalizadas culturalmente passíveis de aceitação e institucionalização no fazer político, mesmo quando prejudiciais a um grupo ou à sociedade. Assim, cultura e política se reforçam mutuamente. Frente a isso, agentes políticos utilizam estrategicamente meios culturais para concretizar seus interesses, liderando processos que visam moldar o senso comum e alterar o imaginário social ao redor da política, da identidade e dos valores orientadores (Kooistra, 2024; Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025).

Nessa conjuntura, a mudança cultural firma-se como uma estratégia intrínseca ao retrocesso democrático. Agentes autoritários, em forma de grupos de interesse, partidos, indivíduos e instituições, estabelecem referenciais, personalidades influentes e organizações intelectuais e educacionais que visam legitimar ideias extremistas. Nesse processo, mesmo em ambientes não tradicionalmente percebidos como políticos, ideias autoritárias são inseridas na vivência cotidiana, normalizando práticas opressivas no longo prazo. As estratégias conectadas às pautas de gênero, em especial, possuem grande alcance e efetividade, por inflarem afetos caros à população, de forma que se impulsionam internacionalmente movimentos culturais demandantes de hierarquias sociais e papéis de gênero rígidos (Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025).

No ambiente virtual, em que conversas íntimas com sentimentos individuais e recompensas instantâneas de engajamento são viabilizadas, a dinâmica se revela de maneira ainda mais direta. Por meio da divulgação midiática de conteúdos coordenados, são estabelecidos ideários que reforçam noções fixas de gênero, sua complementaridade e seu binarismo, que colocam a mulher em um papel social submisso e que relegam a comunidade LGBTQIAPN+ a um papel inexistente. Em consequência, apoiando-se em uma ótica construída de proteção da nação contra ameaças fabricadas midiaticamente, desestabiliza-se a democracia, justificam-se práticas repressivas contra grupos minoritários, oportunizam-se tomadas de poder desmedidas e eliminam-se mecanismos de controle do poder Executivo (Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025).

A chamada “machosfera”, subcultura online que apela para homens jovens e que difunde ideais misóginos, patriarcais, anti-feministas e supremacistas, ilustra essa engrenagem, mobilizando massivamente a submissão feminina a partir de afetos coletivos. Essa rede de perfis e influenciadores restringem perspectivas de masculinidade, retratando homens como vítimas de transformações sociais, normalizam violência contra mulheres e radicalizam ideologias extremistas e repressivas (UN Women, 2025). Seu alcance já é instrumentalizado por grandes atores políticos, como exemplificado pela participação do presidente estadunidense Donald Trump em podcasts da esfera durante sua campanha eleitoral e pela permissão de retorno aos Estados Unidos concedida aos influenciadores auto-denominados “ultra-masculinos” Andrew e Tristan Tate, investigados na Romênia por tráfico humano, coerção sexual e casos de estupro e agressão (Gilbert, 2025; Twohey; Kwai, 2025).

Paralelamente, o crescimento das plataformas de “trad wives”, do inglês “esposas tradicionais”, direciona os esforços autoritários ao público feminino. Ao documentar personas que performam uma feminilidade idílica, submissão a seus maridos e responsabilidade total dos cuidados dos filhos e da casa, os perfis rejeitam o feminismo contemporâneo e encorajam mudanças ideológicas e paradigmáticas, pedindo por um retorno da mulher aos limites da realidade doméstica. Omite-se os perigos documentados da dependência total civil e financeira de mulheres a seus maridos, que envolvem abusos e rigidez de obrigações de gênero (Allen et al., 2026). Ainda, o fenômeno enrijece noções sobre o controle sobre as mulheres, suas decisões e seus corpos, e possibilita a instrumentalização do feminino contra outros grupos marginalizados (Allen et al., 2026; Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025).

A partir da crescente expansão dessas redes, é possível perceber mudanças no ideário e no engajamento do público com perspectivas repressivas de gênero. Gradativamente, esses influenciadores, nacional e internacionalmente, moldam o pensamento de audiências jovens, que passam a repetir esses discursos, gerando ambientes de maior extremismo e cerceamento de direitos. Interligam-se, portanto, com a vida política da população, que passa a ser cada vez mais permissiva com práticas autoritárias.

Dessa maneira, apoiadas nas aberturas estabelecidas no meio cultural, lideranças autoritárias instrumentalizam discursos de gênero a fim de incitar reações determinadas na população. Segundo Bjarnegård e Zetterberg (2026), tal atuação varia entre a exploração de medos, ansiedades e inseguranças da população por meio do enquadramento de ativismo de gênero como contrário à tradição e à soberania nacional, de modo a justificar o retrocesso democrático e a repressão de gênero; e a cooptação de avanços em pautas de gênero como meio de transparecer progressismo e ideais liberais democráticos, enquanto diverge-se a atenção de práticas autoritárias. Nações se conectam e alinham estratégias, de forma que constroem uma tendência global de líderes autoritários que oprimem direitos de populações marginalizadas enquanto celebram quaisquer avanços em pautas superficialmente progressivas, tornando gênero símbolo e sinal a ser manipulado por atores internacionais.

O resultado prático dessa articulação é um retrocesso geral de garantias fundamentais de gênero conquistadas nas últimas décadas. Nos Estados Unidos, a derrubada do direito constitucional federal ao aborto pela Suprema Corte em 2022 relegou sua regulação ao nível estatal, o que levou a uma involução de legislações locais referentes a direitos reprodutivos, mas não diminuiu os casos de aborto reportados (Mascarenhas, 2024). Ainda, direitos de pessoas transgêneros vêm sendo cada vez mais cerceados no país, com a institucionalização de medidas como o banimento de pessoas trans do serviço militar e competições esportivas e a proibição de cuidados de afirmação de gênero para menores. No Reino Unido, a exclusão de mulheres trans de espaços exclusivamente femininos, como banheiros públicos, foi aprovada em 2025. Nos dois países, agentes políticos afirmam a existência de apenas dois gêneros no âmbito civil e legal, definidos pelo sexo designado ao nascimento, ignorando a experiência e a vivência trans e desenquadrando sua transição legal. Ainda, retratam essa comunidade como ameaça à nação, às mulheres e às crianças e de narrativas de medo e ansiedade alavancadas por transfobia, homofobia e desconhecimento (Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025; Sarmento, 2025).

Esse padrão repressivo de gênero se replica internacionalmente. Por exemplo, entende-se um efeito similar na saída da Turquia da Convenção de Istambul — Convenção do Conselho da Europa para a Prevenção e o Combate à Violência Contra as Mulheres e a Violência Doméstica — em 2021, sob a alegação de uma “incompatibilidade com valores tradicionais”, denúncia replicada por autoridades búlgaras, e de normalização da homossexualidade e ameaça aos papéis de gênero tradicionais e às estruturas familiares, acusações repetidas por lideranças húngaras (Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025; Bjarnegård; Zetterberg, 2026). A Bulgária e a Hungria, diferentemente da Turquia, que saiu, nunca ratificaram o acordo, assinado pelos países em 2016 e 2014 respectivamente (Treaty Office, 2026). Por fim, governos com tendências autoritárias expandem o controle estatal sobre os direitos identitários e reprodutivos da população por meio de medidas que marginalizam a comunidade LGBTQIAPN+ e grupos feministas. Tal processo é claro na Rússia, que baniu “propaganda homossexual” em 2012 e extendeu a proibição para discussões referentes à orientação sexual e à identidade de gênero em 2023 e para “propaganda childfree”, em 2024; e na Bulgária, que proibiu a “propaganda LGBTQIAPN+” em 2024 (Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025).

Em cenários recentes de polarização política e ascensão conservadora ao poder, presenciam-se fenômenos políticos mundiais de tendência à repressão de gênero e à relativização dos direitos de populações marginalizadas. Dessa forma, expande-se a fragilidade social, de modo que temáticas de gênero, em vez de consideradas fundamentais à saúde e à vivência de indivíduos, são retratadas como meras construções ideológicas de controle e doutrinação.

Repressão de gênero como retrocesso democrático

Finalmente, é importante entender gênero, em todas as suas facetas, interpretações e sensações efetivas, a partir de uma lente interseccional. Como afirma Lugones (2020), há uma exclusão histórica, teórica e prática da mulher não-branca de lutas feministas e, mesmo que na modernidade eurocêntrica e capitalista existam processos universais de racialização e generificação, estes processos são heterogêneos, dicotômicos e hierárquicos. Em vista disso, mulheres e membros da comunidade LGBTQIAPN+ de cor sofrem opressões estruturais sobrepostas, e a luta e conquista de direitos não é nivelada ou uniforme em todos os âmbitos de repressão.

Na construção de narrativas opressoras, a própria interseccionalidade entre gênero, raça, etnia, religião e cidadania torna-se ferramenta para fins autoritários. A transformação nos papéis de gênero tradicionais, os direitos reprodutivos e a diversidade de gênero são deliberadamente enquadrados como ameaças existenciais para a reprodução da raça e da religião (Juan-Torres; Livingston; Chandra, 2025). Sustenta-se, sob esse entendimento, que apenas a volta para papéis rígidos poderia assegurar o legado da nação e de seus valores.

As tendências culturais e políticas de instrumentalização do gênero, nesse meio, precisam ser compreendidas como vetores que abrem caminhos para uma repressão de direitos mais brandos de quaisquer grupos contrários ao projeto de nação daqueles dominantes e privilegiados. Por meio de normatizações e rearranjos culturais coordenados, estruturas autoritárias testam e expandem, progressivamente, os limites de tolerabilidade da prática antidemocrática. Ao mesmo tempo em que a machosfera e as “trad wives” pregam por uma submissão da mulher perante o homem, também propagam a superioridade racial branca, a legitimidade religiosa cristã e a inconformidade da população LGBTQIAPN+ e quaisquer indivíduos que desviem dos padrões estabelecidos como formas ideais de família e relação social.

A regressão massiva de garantias ligadas a gênero e a popularização na cultura mainstream de conteúdos que disseminam misoginia, homofobia e papéis de gênero enrijecidos indicam, pois, uma aceitação social e uma movimentação de coalizões políticas em prol da repressão de liberdades conquistadas, de uma mais profunda e definida divisão social e de uma mais imóvel hierarquia social. Em consequência, criam-se condições institucionais que favorecem práticas autoritárias de restrição de liberdades e de direitos em benefício a essa estrutura social. Essa dinâmica repressiva e articulada, longe de ser exclusiva de qualquer país, demonstra um projeto transnacional de desmoralização e retrocesso democrático, por meio da opressão sistêmica de grupos historicamente marginalizados.

Notas

[1] Esta análise utilizou a inteligência artificial Gemini do Google para revisão textual e auxílio na sintetização. Todo o conteúdo é de responsabilidade da autora.

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