Por Daniel Vianna
Data de publicação: 16 de julho de 2026
Há quem diga que sempre mudamos a forma de agir para nos adaptarmos ao ambiente em que estamos inseridos. Parece ser um mecanismo natural do ser humano, uma conduta inconsciente para preservação da sanidade.
O roteirista estadunidense Dan Erickson capturou essa tendência em seu extremo na série “Ruptura”, lançada em 2022. Na história, acompanhamos um grupo de funcionários da Lumon Industries, empresa que executa um método para isolar as memórias de seus empregados no ambiente do trabalho, fazendo com que esqueçam de suas vidas externas. Ao se submeterem ao processo, também chamado de ruptura, as memórias do ambiente de trabalho se esvaem assim que o expediente se encerra. A vida segue e as consequências de seus ofícios não se manifestam em suas consciências. Afinal, como se impactar por algo que não se vê e sobre o qual não se reflete?
A cinematografia se torna tão mais assustadora quanto bela à medida em que vemos a realidade emular o lúdico, ou mais precisamente, o distópico. A conjuntura observada no Irã não revela apenas o palco de uma tragédia humana, mas a profusão de novos métodos de planejamento e execução de movimentos militares.
O estado da arte: onde os cegos afiam suas lâminas.
O atual conflito no Irã se iniciou no dia 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel lançaram um ataque coordenado a vários alvos no território iraniano, incluindo líderes políticos e militares (CNN Brasil, 2026). O pretexto afirmado foi a necessidade de contenção do programa nuclear iraniano e a redução da influência militar do país na região. Após o ataque, o Irã retaliou com centenas de mísseis e drones contra Israel e bases estadunidenses no Golfo, transformando o que era um atrito limitado em um conflito aberto de impactos globais. Até meados de abril, a mídia estatal iraniana afirmou que mais de 3 mil pessoas — entre homens, mulheres e crianças — foram mortas em ataques(CNN Brasil, 2026).
Nessa arena, observa-se o progressivo distanciamento entre os executores e suas vítimas e, mais além, a artificialização de processos decisórios inteiros, a despeito de seus resultados potencialmente catastróficos. A partir de tal recorte, esta análise tem por objetivos examinar a utilização de inteligências artificiais nos aparatos bélicos estadunidenses, além de refletir sobre os futuros impactos da despersonalização das táticas de guerra no Oriente Médio.
Do conforto do lar, faço ruir suas estruturas: o caminho para a frieza.
A manipulação remota de aparatos militares não é novidade. Os primeiros drones² foram utilizados no início do século XX, às alturas da Primeira Guerra Mundial (Chamayou, 2015). Naquele contexto, o máximo que a tecnologia pôde realizar foi a construção de pequenas aeronaves controladas via rádio, incapazes de agregar na atuação operacional de conflitos (IWM, 2025). A partir desse episódio, o passar das décadas trouxe consigo a evolução frenética das possibilidades de utilização de drones e esgarçou, paulatinamente, o fio ético e humano que vinculava minimamente o executor a suas vítimas.
A virada de chave na cristalização do distanciamento operacional como método militar costumeiro dos Estados Unidos se deu na deflagração dos atentados de 11 de setembro de 2001(Adelman; Kieran, 2020). A partir de tal episódio, os EUA passaram a utilizar ferramentas de controle remoto de forma ostensiva em suas incursões militares, especialmente nas ocorridas no Oriente Médio. Iraque e Afeganistão, por exemplo, foram laboratórios para o refinamento de tecnologias de drones estadunidenses (BBC News, 2019).
Até esse ponto, a leitura realizada pelo filósofo francês Grégoire Chamayou dá conta de abarcar a extensão da ferida que a utilização de tais ferramentas abriu no tecido ético da humanidade. Em sua principal obra, “Teoria do Drone”, Chamayou identifica que a manipulação de tais artefatos permite “projetar poder sem projetar vulnerabilidade” (2015). Nesse recorte, a tecnologia converte o combate em uma caça unilateral, revestida por um conjunto de “amortecedores morais” que distorce as perspectivas éticas existentes em um conflito e constrói uma compartimentalização leviana do ofício de matar. Assim como ilustra Erickson e pontua Chamayou, os operadores de drones oscilam abruptamente entre um “eu-de-guerra” e um “eu-de-paz”(Chamayou, 2015). A ruptura torna-se, portanto, a única via para suportar um cenário tão atroz.
E quando a equação recebe a incidência da inteligência artificial (IA), a automação se empodera e o processo decisório se distancia radicalmente de qualquer freio civilizatório. Os olhos se fecham radicalmente, as reflexões cessam e a morte se converte em um mero ativo estatístico.
Palco da artificialização extrema e testemunha da iniquidade.
A abordagem estratégica utilizada pelo Departamento de Guerra dos Estados Unidos é um dos pontos críticos do conflito insistentemente sustentado no Irã. Pete Hegseth, secretário de Guerra dos EUA e símbolo da pouca competência da administração de Donald Trump, veio a público para defender que as Forças Armadas estadunidenses se consolidem como uma força de combate “prioritariamente baseada em IA” (BBC, 2026). E é esse ímpeto inepto que se observa nos ataques às estruturas iranianas.
A imersão da Casa Branca no emprego de IA em ataques ao regime iraniano é resultado de um processo iniciado em 2017, quando o então Departamento de Defesa criou o “Projeto Maven”, uma parceria estreita entre o governo e as big techs estadunidenses para aplicar o aprendizado de máquina à operação de drones (Probasco, 2024). O aliado mais astuto da mesa é Peter Thiel, dono da empresa Palantir e um dos baluartes da utilização massiva de dados para fins militares. Nessa cadeia, as informações colhidas pelo império de Thiel são processadas e manipuladas por empresas de IA generativa, como Anthropic e OpenAI (Meireles, 2026).
Sob tal ótica, a celeridade operacional dos Estados Unidos observada no Irã, manifestada no alto volume de alvos atingidos em um curto período de tempo — aproximadamente mil em apenas 24 horas —, não está assentada na competência de oficiais norte-americanos (The Washington Post, 2026). O suporte de ferramentas de inteligência artificial atua como fator determinante no processo decisório, acelerando a análise de dados e, acima disso, a seleção de alvos(The Washington Post, 2026).
Ao se eximir da responsabilidade humana de identificar e localizar alvos, interpretar a legalidade da movimentação e orientar execuções, incumbências delegadas à IA a partir do Projeto Maven (Probasco, 2024), o agente assume uma função quase mecânica, fabril. Antes, oficiais precisariam identificar os alvos a olho nu em imagens captadas por satélites, cruzando-as com outras informações para evitar erros. Agora, nota-se a expansão do cinismo em relação à morte, catalisada pelo fato de que até mesmo a reflexão estratégica diante dos dados se faz cada vez mais inútil. Dessa forma, o “eu-de-paz” transita impassível entre os escombros da morbidez, encoberta pelas camadas de amortecimento moral fornecidas pela máquina.
A título de demonstração, os bombardeios de 28 de fevereiro a Teerã mataram ao menos 175 civis, a maioria crianças, ao atingir uma escola (The New York Times, 2026). Apesar do fato de que os Estados Unidos não tenham assumido a responsabilidade pelas mortes, o conjunto de evidências reunido pelo jornal The New York Times indica que o prédio foi alvo de um ataque de “precisão” (The New York Times, 2026).
Até 2013, o prédio da escola fazia parte da base naval da Guarda Revolucionária do Irã³, mas sua função é desvinculada da instituição política e militar desde então (The New York Times, 2026). As crianças e os professores da escola estavam em aula no momento em que suas vidas foram ceifadas. O articulador do plano dificilmente será identificado e punido. E o episódio retrata o resultado da despersonalização das táticas de guerra: a confiança cega em um algoritmo evidentemente incapaz de absorver lastros humanos e éticos; a conversão de vidas em elementos estatísticos.
A despeito da testemunha dos fatos, o Pentágono sustenta que a atuação da máquina se limita à emissão de sugestões operacionais. No entanto, conflitos internos no governo estadunidense depõem contra essa narrativa.
Em seu contrato com o governo estadunidense, a Anthropic inseriu a condição de que suas ferramentas não fossem utilizadas para vigilância de civis ou aplicadas em armas totalmente autônomas (Meireles, 2026). Em contrapartida, o Departamento de Guerra exigiu que a empresa habilitasse o acesso irrestrito ao seu modelo de IA, o Claude. Caso contrário, o vínculo contratual seria suspenso.
E Donald Trump assim o fez. Os circuitos de defesa passaram a ser regidos pelos algoritmos da OpenAI, que se curvou diante dos planos de Hegseth e Trump para desumanizar os planos militares dos EUA no Irã e em outras frentes, como na Ucrânia e em Gaza. A empresa não é a única presente no novo acordo: o Pentágono também anunciou a inserção da SpaceX, da Microsoft, da Oracle, da Nvidia, entre outras, nos planos operacionais dos Estados Unidos (CNN Brasil, 2026).
Nos encontraremos entre os lados da ruptura?
Nesse cenário, é evidente que o Irã não apenas se consolidou como um elemento chave para as leituras geopolíticas atuais, mas também como terra fértil para as novas tendências das relações internacionais, especialmente no que diz respeito à natureza dos conflitos. A inteligência artificial passou a ditar o ritmo da guerra, e as agressões entre Estados Unidos, Israel e Irã nos sinalizam que a nova doutrina veio para ficar (Jornal Opção, 2026).
As novas tecnologias furaram velozmente a bolha dos EUA e se expandem diuturnamente por entre as estruturas de defesa de atores centrais. Na conjuntura em apreço, Israel e Irã também têm implementado, em menor escala, o aprendizado de máquina em suas operações. Como em uma corrida, a tendência é que as demais peças do tabuleiro internacional não se acomodem em suas novas desvantagens e busquem aplicar condutas semelhantes. Diante disso, surge um debate inadiável: quais são os freios necessários para mitigar a despersonalização da guerra?
A discussão atravessa primariamente a necessidade de pavimentar os caminhos para a identificação dos responsáveis morais e jurídicos por operações ilícitas regidas por inteligências artificiais. O vácuo de responsabilidade gerado pela autonomia da máquina exige que a comunidade internacional explore recursos para restabelecer o controle humano sobre o algoritmo e garantir que as consequências recaiam sobre os culpados (Boothby, 2025). Os olhos devem ver e o coração deve sentir.
Ademais, há de se reconhecer a complexidade de uma questão que não somente se expande, mas também se entremeia nas mais diversas fileiras da sociedade. A tática de guerra sobrepuja a dimensão político-militar e se atrela umbilicalmente no escopo de atuação de grandes empresas. Sob as batutas de donos de grandes big techs, a razão de ser do conflito supera os critérios geopolíticos e embarca em um novo tipo de mercado, mais sofisticado e sutil. Enquanto o mercado armamentista enfrenta problemas crônicos de discrição, o mercado algorítmico se manifesta tanto nas redes sociais que consumimos todos os dias, quanto na morte de crianças inocentes. As mesmas empresas que nos oferecem soluções revolucionárias, revelam a face mais miserável da humanidade.
Os lados da ruptura, o “eu-de-guerra” e o “eu-de-paz”, se encontram, mas não se reconhecem. A observação da conjuntura em questão indica que o combate à desumanização do outro passa pelo processo de compreensão de que, apesar de não haver imaculados entre as partes conflitantes, o respeito aos limites éticos e morais da guerra é inegociável. Sob esse ângulo, o futuro aponta para limites cada vez mais sensíveis, no Oriente Médio e no mundo, e a reflexão humana, por sua gradativa escassez, deve se tornar um ativo cada vez mais precioso na definição dos rumos que seguimos e da forma que enxergamos o outro.
Notas
[1] Esta análise utilizou recursos de inteligência artificial para apoio na prospecção bibliográfica. O conteúdo do material é de inteira responsabilidade do autor.
[2] Termo utilizado no léxico militar estadunidense para se referir a qualquer objeto que pode ser controlado à distância, seja terrestre, marítimo ou aéreo.
[3] A Guarda Revolucionária do Irã (oficialmente, Corpo da Guarda da Revolução Islâmica – IRGC) é uma organização militar paralela às forças armadas regulares do país, estabelecida em 1979 após a Revolução Islâmica. Sua diretriz primordial é a defesa do sistema teocrático e a prevenção de dissidências internas ou de interferências estrangeiras. Atualmente, a organização exerce profunda influência não apenas no aparato de defesa governamental, controlando, a saber, o programa de mísseis balísticos e as operações navais no Golfo Pérsico, mas também nas esferas política e econômica iranianas.
Referências
ADELMAN, Rebecca A.; KIERAN, David. Remote warfare: new cultures of violence. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2020
BBC NEWS. Como o uso de drones mudou o cenário dos combates no Oriente Médio. BBC News Brasil, 18 set. 2019. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-49748760. Acesso em: 6 de maio de 2026.
BBC NEWS. Pentagon says US military will be an ‘AI-first’ fighting force. BBC News, 1 maio de 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/cy02gjq2987o. Acesso em: 9 maio 2026
BOOTHBY, Bill. AI warfare and the law. Newport, RI: Stockton Center for International Law, U.S. Naval War College, 2025. (International Law Studies, v. 104). ISBN/ISSN 2375-2831.
CHAMAYOU, Grégoire. Teoria do drone. Tradução de Célia Euvaldo. São Paulo: Cosac Naify, 2015.
CNN BRASIL. Mais de 3 mil iranianos foram mortos durante a guerra, diz mídia estatal. CNN Brasil, 11 abr. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/mais-de-3-mil-iranianos-foram-mortos-durante-a-guerra-diz-midia-estatal/. Acesso em: 6 de maio de 2026.
CNN BRASIL. Pentágono fecha acordo com 8 big techs após ter deixado de lado Anthropic. CNN Brasil, 3 maio 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/negocios/pentagono-fecha-acordo-com-8-big-techs-apos-ter-deixado-de-lado-anthropic/. Acesso em: 10 maio 2026.
FOLHA DE S.PAULO. Guerra no Irã consolida Oriente Médio como laboratório de uso de IA em conflitos. Folha de S.Paulo, 7 mar. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/03/guerra-no-ira-consolida-oriente-medio-como-laboratorio-de-uso-de-ia-em-conflitos.shtml. Acesso em: 6 maio 2026.
FOLHA DE S.PAULO. Análise do New York Times liga ataque a escola no Irã aos Estados Unidos. Folha de S.Paulo, mar. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/03/analise-do-new-york-times-liga-ataque-a-escola-no-ira-aos-estados-unidos.shtml. Acesso em: 9 maio 2026.
G1. Nos EUA, uso de inteligência artificial na guerra no Oriente Médio vira disputa na Justiça. G1 – Jornal Nacional, 11 mar. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/03/11/nos-eua-uso-de-inteligencia-artificial-na-guerra-no-oriente-medio-vira-disputa-na-justica.ghtml. Acesso em: 9 maio 2026.
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PROBASCO, Emelia S. Building the Tech Coalition: how Project Maven and the U.S. 18th Airborne Corps operationalized software and artificial intelligence for the Department of Defense. Washington, DC: Center for Security and Emerging Technology, ago. 2024. Disponível em: https://cset.georgetown.edu/publication/building-the-tech-coalition/. Acesso em: 9 maio 2026.
The Washington Post. Pentagon leverages AI in Iran strikes amid feud with Anthropic. Washington, D.C., 4 mar. 2026. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/technology/2026/03/04/anthropic-ai-iran-campaign/. Acesso em: 5 de maio de 2026.
