Por Juliana Jaegger
Data de publicação: 11 de junho de 2026
A intensificação da transição energética global e a crescente disputa entre grandes potências pelo controle das cadeias produtivas estratégicas reposicionaram os minerais críticos como eixo central da geopolítica contemporânea. Nesse contexto, os minerais críticos tornam-se essenciais para viabilizar a transição energética e o cumprimento das metas do Acordo de Paris, onde os seus signatários se comprometeram a juntar esforços para conter o aumento da temperatura global (Reis; De Oliveira; De Pieri, 2025).
Diante desse cenário, a conjuntura atual é marcada por uma intensificação da demanda por esses recursos, impulsionada pela urgência da descarbonização das economias e pelos compromissos internacionais adotados no âmbito climático. Segundo a pesquisadora Maria Karas (2025), a transição energética, acordada no âmbito do Acordo de Paris e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), para que seja um processo de substituição progressiva de fontes fósseis por alternativas de baixo carbono, depende diretamente do fornecimento estável desses minerais, o que eleva seu valor estratégico no sistema internacional.
Paralelamente, eventos geopolíticos recentes como a guerra na Ucrânia e o conflito no Oriente Médio, reforçam a centralidade da segurança energética, demonstrando que choques no fornecimento de energia podem desencadear efeitos econômicos e políticos sistêmicos. Assim, a combinação entre transição energética e instabilidade geopolítica transforma os minerais críticos em elementos centrais para o desenvolvimento econômico, além de essencial para a segurança nacional dos Estados. Argumento que, embora o Sul Global detenha vantagens materiais relevantes, sua capacidade de convertê-las em autonomia depende do controle das cadeias de valor e da superação de limitações estruturais.
Distribuição geográfica dos minerais críticos e disputa geopolítica
Os minerais críticos possuem relevância estratégica por serem fundamentais para setores como defesa, alta tecnologia e transição energética. Sendo, fundamentais para a fabricação de produtos de alta tecnologia, na indústria de defesa, na fabricação de baterias e como matéria-prima em painéis solares e turbinas eólicas. Ainda que não exista uma definição internacionalmente acordada para a terminologia, cada país define a lista de minérios considerados críticos ou estratégicos com base em aspectos econômicos e de segurança nacional, levando em consideração a necessidade de suprimento de demanda interna ou o papel desses insumos em determinados processos produtivos.
A distribuição geográfica de recursos essenciais para a descarbonização — como lítio, cobre, cobalto, níquel, grafita e terras raras — mostra uma assimetria significativa que estrutura a atual disputa internacional (Karas, 2025). Sob essa perspectiva, os depósitos destes minerais críticos estão concentrados em poucos países, como o Triângulo do Lítio (Chile, Argentina e Bolívia) que detém 58% das reservas mundiais desse mineral, enquanto Chile e Peru concentram cerca de 30% das reservas globais de cobre. O Brasil detém 95% da produção mundial de nióbio e a República Democrática do Congo controla 70% das reservas de cobalto (Reis; De Oliveira; De Pieri, 2025). Essa concentração mostra uma assimetria estrutural que, enquanto o Sul Global detém a base material da transição energética, o controle sobre seu valor estratégico permanece deslocado para os países com capacidade industrial e tecnológica.
Nessa conjuntura, destacam-se como principais atores os Estados nacionais, especialmente China e Estados Unidos, que disputam o controle das cadeias produtivas de minerais críticos como parte de uma competição mais ampla por liderança tecnológica, segurança energética e autonomia industrial. Enquanto a China utiliza sua capacidade industrial e o domínio das etapas de refino como instrumento de poder estrutural, Washington busca reduzir sua dependência externa por meio de alianças estratégicas, como a Minerals Security Partnership (MSP), iniciativa liderada pelos Estados Unidos e parceiros ocidentais voltada à diversificação das cadeias de suprimento de minerais críticos e à redução da dependência do processamento chinês (Reis; Oliveira; Pieri, 2025).
Além dos Estados, empresas mineradoras e industriais desempenham papel central nessa dinâmica. No caso brasileiro, a Vale mantém relevância estratégica pela capacidade de extração e exportação mineral em larga escala, enquanto a Sigma Lithium se destaca pela inserção do Brasil no mercado global de lítio voltado à produção de baterias para veículos elétricos (Karas, 2025). Essas empresas articulam interesses econômicos e tecnológicos diretamente ligados à expansão da transição energética global.
Ademais, instituições regulatórias e científicas, como a Agência Nacional de Mineração (ANM) e o Serviço Geológico do Brasil (SGB), atuam no mapeamento geológico, regulação da atividade minerária e formulação de diretrizes estratégicas para o setor (Karas, 2025). Em paralelo, coalizões internacionais como o BRICS buscam ampliar a coordenação política e econômica entre países do Sul Global, fortalecendo sua capacidade de barganha frente às potências centrais (de Tomi; Loredo; Russo, 2025). Dessa forma, esses diferentes atores mobilizam recursos econômicos, tecnológicos, institucionais e diplomáticos para influenciar a dinâmica das cadeias globais de minerais críticos e redefinir posições de poder no sistema internacional.
O controle das cadeias de valor e a centralidade chinesa
A assimetria não se limita à distribuição geológica das reservas. Além da extração, o processamento desses minerais apresenta um nível de concentração ainda mais elevado e assimétrico. A China ocupa a posição dominante, controlando quase todas as etapas de processamento de cobre, lítio, níquel, cobalto e terras raras (CEPAL, 2023). Dessa forma, esse domínio industrial e tecnológico configura um recurso de poder estrutural, permitindo à China influenciar preços, cadeias produtivas e decisões estratégicas no sistema internacional.
A partir dessa dinâmica de concentração industrial e tecnológica, o controle sobre as cadeias de valor é o principal determinante de poder na geopolítica contemporânea, traduzindo-se em soberania tecnológica, autonomia estratégica e influência diplomática. Embora os países do Sul Global concentrem recursos naturais, potências como China e Estados Unidos controlam etapas críticas das cadeias de valor, o que limita a capacidade de barganha dos primeiros. A necessidade desses materiais é urgente, pois tecnologias de energia limpa exigem até seis vezes mais minerais do que as convencionais, e estima-se que a demanda global por esses insumos cresça de quatro a seis vezes até 2040, conforme projeções da Agência Internacional de Energia (IEA, 2022).
Com essa dinâmica de reconfiguração das relações de poder e o fortalecimento do poder de barganha no sistema internacional, o Sul Global tem a oportunidade de desvincular-se da imagem de mero fornecedor de matérias-primas. Por meio de estratégias coordenadas, esses países podem desempenhar um papel central nas negociações, transformando seus ativos minerais em influência geopolítica e autonomia estratégica. Regiões da América Latina, que concentram reservas fundamentais tornam-se espaços centrais na disputa entre grandes potências. Essa disputa é alimentada pela rivalidade hegemônica e pela busca por autonomia tecnológica entre China e Estados Unidos, que competem pelo controle das cadeias de suprimento essenciais para os setores de defesa, energia limpa e mobilidade elétrica (Reis; De Oliveira; De Pieri, 2025). Entretanto, a posse desses recursos não significa autonomia imediata, ela representa uma janela estratégica para que os países negociem investimentos com contrapartidas tecnológicas e acordos de cooperação técnica que permitam o domínio das etapas de processamento e manufatura de alto valor agregado.
Podemos perceber que a posse de reservas minerais constitui uma vantagem inicial, mas não suficiente para garantir o protagonismo. A mineração exige infraestrutura logística, disponibilidade energética, capacidade industrial e conhecimento técnico especializado. Nesse sentido, a China consolidou seu poder hegemônico não apenas pelo controle de recursos, mas por dominar quase todas as etapas de processamento e refino de minerais críticos, integrando-os a sistemas industriais de ponta. Esse domínio é sustentado por uma política de décadas voltada à formação massiva de capital humano especializado, o país chega a formar cerca de 3,5 milhões de engenheiros anualmente (Rodrigues, 2025). Em contraste, muitos países do Sul Global enfrentam limitações na capacidade de transformar os recursos naturais em poder econômico e político.
O Brasil entre potencial estratégico e dependência estrutural
O Brasil exemplifica o desafio de transformar potencial geológico em poder econômico efetivo. Embora possua alguma infraestrutura logística, com corredores como a Estrada de Ferro Carajás e portos eficientes como Itaqui e Tubarão, o país ainda enfrenta um padrão de reprimarização da economia mineral (Castro et al., 2022). Atualmente, mais de 85% dos minerais críticos brasileiros são exportados em estado bruto ou com baixo beneficiamento, evidenciando gargalos como a ausência de refinarias para terras raras e a dependência tecnológica em etapas cruciais, como a purificação eletroquímica de lítio (De Souza Santos, 2023). Ademais, o foco dos investimentos ainda é desproporcional, no qual do volume previsto para 2025-2029, apenas cerca de 4,7% destina-se a minerais como lítio e terras raras, enquanto o grosso permanece concentrado no minério de ferro (IBRAM, 2024).
Com isso, essa divisão mostra a continuação dos padrões associados à divisão internacional do imperialismo, nos quais os países do Sul Global permanecem especializados em exportação de matérias primas, enquanto os países centrais dominam as etapas de maior valor agregado. Assim, apesar da aparente valorização estratégica dos recursos minerais, a inserção internacional do Sul Global ainda tende a reproduzir relações de dependência.
Através do artigo de Musa (2024), podemos observar uma tentativa de superação desse padrão histórico de reprimarização por meio da retomada de estratégias desenvolvimentistas voltadas para os minerais críticos. A busca por maior controle sobre as cadeias produtivas e o incentivo a políticas industriais ativas visam transformar o potencial geológico em soberania mineral, utilizando esses recursos não apenas como commodities, mas como base para a industrialização e a produção científica. Nesse cenário, a promoção de parcerias internacionais e a atração de investimentos estrangeiros são condicionadas a contrapartidas tecnológicas e acordos de cooperação técnica, essenciais para romper a dependência do refino e processamento externo. A possibilidade de transferência de tecnologia emerge, portanto, como uma das principais janelas de oportunidade, permitindo que países do Sul Global, como o Brasil, avancem na verticalização da produção, agreguem valor aos minérios brutos e consolidem capacidades industriais de ponta no novo paradigma energético.
No entanto, a concretização dessas oportunidades enfrenta obstáculos profundos que impedem a conversão automática da riqueza geológica em desenvolvimento socioeconômico. No Brasil, a falta de infraestrutura adequada é uma barreira, enquanto corredores como a Estrada de Ferro Carajás atendem ao minério de ferro, as novas fronteiras de minerais críticos no Norte e Nordeste sofrem com malhas viárias deficientes e logística fragmentada, elevando custos e desestimulando plantas industriais locais (IBRAM, 2024).
Por exemplo, o caso brasileiro demonstra as contradições entre potencial geológico e soberania industrial. O país possui uma das maiores diversidades minerais do mundo, com reservas estratégicas de lítio, grafita, níquel e terras raras, além de deter a hegemonia global na produção de nióbio com 95% da oferta mundial (Castro et al., 2022). Adicionalmente, o Brasil apresenta vantagens competitivas ímpares para a “mineração verde”, sustentada por uma matriz elétrica com 60% de fontes renováveis, patamar significativamente superior às médias globais (Musa, 2024).
Para enfrentar esse cenário, a Câmara dos Deputados aprovou, em 7 de maio de 2026, a Política Nacional de Minerais Críticos, um marco legal desenhado para converter o país em um protagonista industrial. O projeto inova ao associar a exploração mineral obrigatoriamente à sua transformação em produtos dentro do país, atacando o gargalo da dependência de processamento externo. A nova legislação busca mitigar barreiras financeiras e institucionais através da criação do Fundo Garantidor da Atividade Mineral (R$2 bilhões) e R$5 bilhões em créditos fiscais para incentivar a industrialização local. Essa coordenação entre fomento econômico e diretrizes nacionais visa dar a “previsibilidade” cobrada pelo setor para atrair os US$76 bilhões em investimentos previstos até 2029, consolidando o Brasil como um fornecedor soberano de soluções para a transição energética global (Minerais, 2026).
Para que o Estado brasileiro converta essa conjuntura em desenvolvimento, as orientações estratégicas passam obrigatoriamente pelo fortalecimento institucional da ANM e dos órgãos de pesquisa geológica. É imperativo reduzir o hiato entre a extração e o refino através da criação de um Balcão Digital Único para agilizar o licenciamento e o financiamento de projetos da MAPE (Mineração Artesanal e de Pequena Escala), que detém a maioria dos títulos de minerais críticos. Além disso, o país deve condicionar o acesso às suas reservas a joint ventures — associações empresariais voltadas ao compartilhamento de tecnologia e capacidades produtivas (Dahab; Guimarães; Dantas, 1994) — que garantam transferência de tecnologia para o refino de terras raras e a fabricação local de componentes de baterias, rompendo o ciclo de dependência do processamento externo (De Tome; Loredo; Russo, 2025).
Considerações finais
Diante desse cenário, é possível projetar três caminhos para a evolução da conjuntura mineral. No cenário de protagonismo soberano, o Brasil e outros países do Sul Global utilizam o seu poder de barganha para ampliar a participação nas cadeias de valor por meio de políticas industriais ativas, atração de investimentos, investimentos em pesquisa e desenvolvimento e parcerias internacionais com contrapartidas tecnológicas (Musa, 2024).
Em um cenário intermediário, os países manteriam sua posição predominantemente como exportadores, mas com maior capacidade de influenciar preços e normas internacionais através de blocos como o BRICS (De Tomi; Loredo; Santos, 2024). Nesse contexto, embora a dependência de tecnologias de refino externas persista, haveria uma melhoria na arrecadação e na governança socioambiental, mitigando crises reputacionais e garantindo uma transição justa para as comunidades locais (De Tomi; Loredo; Russo, 2025).
Já no cenário de dependência reforçada, a estrutura atual de reprimarização seria consolidada. A América Latina continuaria a exportar mais de 85% de seus minerais críticos em estado bruto, enquanto as etapas de processamento e manufatura de alto valor agregado permaneceram concentradas na China e em potências do Norte Global. Esse “neoextrativismo” perpetuaria a vulnerabilidade das economias periféricas às flutuações de preços e à autonomia estratégica das grandes potências (De Souza Santos, 2023).
Contudo, a geopolítica dos minerais críticos revela uma conjuntura marcada por oportunidades e limites. Se, por um lado, a centralidade desses recursos abre espaço para a reconfiguração da posição do Sul Global na ordem internacional, por outro lado, as restrições estruturais associadas à dependência tecnológica e industrial continuam a limitar sua autonomia.
Assim, o verdadeiro desafio não reside apenas na posse dos recursos, mas na capacidade de transformá-los em poder efetivo, redefinindo as bases da inserção internacional desses países em um contexto de transição energética global. Nesse sentido, a atual conjuntura não apenas reposiciona os minerais críticos como eixo central da geopolítica contemporânea, mas também inaugura uma disputa mais ampla sobre quem definirá os padrões tecnológicos, ambientais e produtivos da transição energética global.
Nota
A responsabilidade pelo conteúdo final desta análise de conjuntura é exclusivamente da autora. O uso de Inteligência Artificial Generativa restringiu-se ao apoio na comparação entre referências previamente selecionadas, por meio da ferramenta Google NotebookLM, e à revisão textual com auxílio do Google Gemini.
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