por Daniel Cunha Rego
Data de publicação: 15 Outubro 2018
Durante sua entrevista no Jornal Nacional, o candidato à Presidência da República Jair
Bolsonaro afirmou que o livro “Aparelho Sexual e Cia.” estava sendo distribuído nas escolas
públicas como parte de um suposto “kit gay”, fato negado pela editora do livro e pelo
Ministério da Educação (O GLOBO, 2018). O mesmo candidato cita, em seu plano de
governo, o “marxismo cultural” que estaria se unindo a oligarquias para “destruir a família” (p.
8), além de sugerir uma conspiração totalitária por parte do Foro de São Paulo (p. 11).
Circulam, nas redes sociais, textos que alertam para uma “venezuelização” do Brasil caso o
candidato do PT, Fernando Haddad, ganhe as eleições.
Os fatos citados no último parágrafo são exemplos do que é aqui chamado de revisionismo
ideológico do presente. Assim como o revisionismo histórico negacionista do
holocausto[1] ou, mais próximo de nossa realidade, da ditadura civil-militar (LENTZ, 2018),
ganhou força a interpretação ideológica e personalíssima de fatos da história recente ou do
presente, concatenada a objetivos políticos explícitos. Mais do que apenas propagar fake
news, esse tipo de revisionismo cria uma realidade à par dos fatos e blindada de
contestação, prontamente rejeitada e estigmatizada como propaganda de adversários
políticos: a academia torna-se “comunista” ou “esquerdista” junto a outras instituições antes
reputadas como confiáveis (o jornalismo profissional ou a própria Justiça Eleitoral, por
exemplo), que caem em descrédito.
Exemplos não faltam, e não cabe aqui mencioná-los exaustivamente. O que interessa é a
espantosa fluidez com que essas narrativas são popularizadas através das mídias sociais
sem que percam sua credibilidade ao serem atacadas. Tal fenômeno aproxima-se do que se
convencionou a chamar de “pós-verdade”[2], porém diferente dela: o foco aqui é na narrativa
histórica, e não nas fake news pontuais ou nas versões sobre notícias. O revisionismo
ideológico, por exemplo, coloca num mesmo contínuo a criação do Foro de São Paulo (uma
união de partidos de esquerda latino-americanos iniciada na década de 1990), o “kit gay”
(expressão pejorativa para o material “Escola sem Homofobia”, proposta que nunca chegou
a ser executada pelo governo) e a crise econômica e política na Venezuela. Assim, apela-se
sobretudo para o medo (de ver seus filhos “doutrinados” na escola, de se ver numa situação
de crise, autoritarismo e emigração como no país vizinho) e para a capacidade de difusão e
de falsa credibilidade das mídias sociais.
Outra frente desse revisionismo é o negacionismo tácito: enfatiza-se, por exemplo, a
narrativa do PT como o partido mais corrupto da história e que pouco ou nada fez de bom
pelo país, negando o fato objetivo de que, por bem ou por mal, as instituições democráticas
de combate à corrupção estão relativamente sadias e atuantes. Nega-se, também, a
confiabilidade das urnas eletrônicas, que estariam sujeitas à manipulação para favorecer a
esquerda, ignorando o fato de que a missão observadora das eleições da Organização dos
Estados Americanos (OEA) não achou qualquer indício de fraude eleitoral no Brasil (FOLHA,
2018).
O uso político da história – inclusive de suas distorções – não é um fenômeno novo,
tampouco uma “jabuticaba”: está presente, por exemplo, no mito fundador histórico de toda
nação, ou nas diversas batalhas revisionistas ideológicas travadas ao longo do tempo. O que
chama atenção atualmente, entretanto, é que este revisionismo deslocou-se do passado
distante (ou até mesmo remoto, no caso dos mitos fundadores) para o tempo de vida da
maioria dos eleitores: são revisadas narrativas que se estendem até o presente, que foram
vistas e vividas por grande parte das pessoas vivas. Fica fácil afirmar, então, que o Brasil
virará uma Venezuela, descambando para o autoritarismo ditatorial socialista caso o PT
ganhe. Mesmo que ignore o fato ululante de que, nos últimos 14 anos, não virou.
[1] O negacionismo do holocausto atua principalmente em duas vertentes: ou nega que ele
sequer existiu, como o fez o ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao se colocar
contra o Estado de Israel ou nega sua dimensão e suas maiores atrocidades, como a
existência de câmaras de gás: ex-procurador e escritor estadunidense Edgar J. Steele chega
a afirmar que as fotos de corpos atribuídos a judeus mortos seriam na verdade de checos e
polacos que morreram de febre tifóide (HOLOCAUST, 2009). Chama atenção que grande
parte dos negacionistas não possuem formação acadêmica em história, sendo políticos ou
escritores “leigos”.
[2] Segundo o dicionário de Oxford, que elegeu pós-verdade como palavra do ano em 2016,
o termo é um substantivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos
objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a
crenças pessoais” (FÁBIO, 2016).
Referências bibliográficas
O GLOBO. É #FAKE que livro citado por Bolsonaro no JN é o que aparece com carimbo de escola de Maceió. G1, 04 set. 2018. Disponível em: <https://g1.globo.com/fato-ou-fake/noticia/2018/09/04/e-fake-que-livro-citado-por-bolsonaro-no-jn-e-o-que-aparece-com-carimbo-de-escola-de-maceio.ghtml>. Acesso em 13 out. 2018.
HOLOCAUST Revisionism. Time, 2009. Disponível em:<http://content.time.com/time/specials/packages/article/0,28804,1860871_1860876_1861026,00.html>.
Acesso em 13 out. 2018.
CATTINI, Giovanni C. Historical revisionism. Transfer: Journal of Contemporary Culture, v. 6,
p. 28-38, 2011.
LENTZ, Rodrigo. O STF e a “maldição autoritária” em andamento. Le Monde Diplomatique, 4 out. 2018. Disponível em: <https://diplomatique.org.br/o-stf-e-a-maldicao-autoritaria-em-andamento/>. Acesso em 13 out. 2018.
FÁBIO, André Cabette. O que é ‘pós-verdade’, a palavra do ano segundo a Universidade de
Oxford. Nexo, 16 nov. 2018. Disponível em:
<https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/11/16/O-que-%C3%A9-%E2%80%98p%C3%B3s-verdade%E2%80%99-a-palavra-do-ano-segundo-a-Universidade-de-Oxford>. Acesso em 13 out. 2018.
