Por Raíssa Pankush
Data de publicação: 28 de maio de 2026
Em março de 2026, a repercussão do lançamento do primeiro caça supersônico produzido em solo brasileiro, o Gripen (Brasil, 2026), causou grande surpresa em parte da população. A causa de tal surpresa, contudo, não está relacionada à capacidade da indústria aeroespacial do país, que possui reconhecimento internacional, mas sim ao ineditismo de uma conquista sólida do setor de defesa no Brasil. À primeira vista, esse fato aparenta ser esperançoso e promissor, porém retrata uma defasagem brasileira na priorização de seu setor de defesa em comparação com potências globais que acumulam dezenas de conquistas sólidas há décadas.
Soma-se ao ineditismo tardio, como fator de agravamento da situação brasileira na pauta de securitização, um cenário internacional de reascensão da centralidade de conflitos armados, disputas geopolíticas e desconfiança generalizada entre as nações que recolocam a pauta da securitização como prioridade da agenda internacional. Sob essa premissa, nota-se o início de uma nova estratégia de inserção dos Estados como atores relevantes no sistema, pautada na cooperação em setores estratégicos. Enquanto ainda há certa resistência de alianças guiadas pela lógica da Guerra Fria de identificação hemisferial, sustentadas pela tentativa sobretudo norte-americana de reconstrução da ideia de “mal comunista” na figura chinesa, cada vez mais estabelecem-se parcerias orientadas pela busca de uma cooperação estratégica – como uma forma de alinhamento mais flexível baseado em segurança prática e funcionalidade econômica sob a percepção de que relacionamentos de alianças são desnecessários e impraticáveis. (Wilkins, 2026)
Além disso, percebe-se o estabelecimento de um discurso liderado pelos Estados Unidos de atrelamento da eficiência das forças de segurança nacionais como critério de confiabilidade e capacidade geracional de um Estado. Tal narrativa está sendo utilizada como justificativa para tensões entre aliados, como evidenciado nos recentes discursos de Trump e Rubio, que classificam a Otan como “aliado extremamente não confiável” (Areal, 2026) e intervenções, que colocam em risco a soberania de nações independentes, sob a justificativa de uma suposta incapacidade estrutural de combate ao narcotráfico e ao terrorismo em suas respectivas regiões.
Diante desse cenário, a capacidade brasileira de se impor como Estado confiável, gerenciamentalmente eficiente, atraente para cooperações e sobretudo relevante encontra-se debilitada. Isso porque, historicamente, o Brasil construiu sua projeção internacional por meio da diplomacia e do soft power, estratégia que se mostrou eficaz no auge do multilateralismo, quando o país figurava entre os quinze com maior presença global segundo o Real Instituto Elcano (Elcano, 2026). Contudo, essa trajetória foi acompanhada por uma atenção limitada ao setor de defesa, resultando em capacidades militares restritas que hoje condicionam sua inserção em agendas internacionais cada vez mais centradas em segurança e que ameaçam sua imagem de nação eficiente baseada na ideia de soberania condicionada de Francis Fukuyama, na qual a soberania e a legitimidade de um Estado na modernidade está pautada em sua governança interna (Fukuyama, 2004), enquadrando a atualidade em uma ideia de soberania condicionada como foco em baseada em performance securitária. Assim, a presente análise propõe examinar como essa lacuna no campo da defesa contribui para a redução da centralidade internacional do país, bem como discutir em que medida o cenário atual pode abrir espaço para uma reorientação dessa trajetória.
O lado soft de uma hegemonia armada
Se a tendência de alinhamento pautada na ideologia hemisférica típica da Guerra Fria demonstra-se em queda, a técnica, também desse período, de orientação da política externa de um Estado de acordo com as prioridades da agenda internacional, com vistas ao ganho de projeção por meio da participação nas discussões (Nye 2004), retoma relevância. Isto é, com a redefinição da agenda internacional nos últimos anos, observa-se que os Estados passam a ajustar suas políticas externas às prioridades do sistema internacional com o objetivo de ampliar sua projeção. Nesse contexto, o conceito de bandwagoning, reinterpretado por Randall Schweller (1994) — entendido como o alinhamento de Estados a potências dominantes para maximizar ganhos na distribuição de recursos, proteção e status — deixa de representar apenas uma resposta passiva a ameaças e passa a ser compreendido como estratégia voltada à obtenção de ganhos materiais e simbólicos. Assim, a adesão crescente à pauta securitária pode ser entendida como manifestação contemporânea desse processo.
Nesse sentido, observa-se que um conceito tradicionalmente associado ao hard power, como o bandwagoning, adapta-se à realidade contemporânea. Isso ocorre porque o alinhamento às pautas dominantes, particularmente à agenda securitária, não implica apenas adesão material ou militar, mas também a inserção ativa em espaços de debate e formulação normativa. Assim, a securitização, enquanto eixo central da agenda internacional, passa a oferecer oportunidades de projeção para Estados que conseguem participar, influenciar e se posicionar nessas discussões. Desse modo, o ganho de visibilidade, legitimidade e capacidade de articulação em torno desses temas configura uma forma indireta de soft power, baseada não na coerção, mas na presença e influência em arenas internacionais. Sob essa perspectiva, a realidade brasileira torna-se ainda mais alarmante, pois supera a esfera de fragilidade coercitiva e evidencia uma degradação de seu principal instrumento diplomático: o soft power derivado da participação qualificada nos debates internacionais.
Segundo dados do Stockholm International Peace Research Institute (Sipri), publicados no seu relatório “Trends in world military Expendure, 2024”, mais de 100 países aumentaram seus gastos militares em 2024. Apesar de praticamente 50% dos gastos militares serem provenientes dos EUA e da China, regiões como Ásia e América Central chamam atenção por aumentos respectivamente de 46% e 101% dos gastos relativos a 2015. Não obstante à tendência generalizada de aumento de investimentos aqui demonstrada, o Brasil foi uma das poucas nações que reduziram seus investimentos no setor, com uma redução de 14% em relação a 2015. Simultaneamente, o governo brasileiro apresenta-se ativo em fóruns como o Fórum de Alto Nível Celac-África, realizado em março deste ano com 50 países participantes, o qual contou com a participação de apenas quatro chefes de Estado, incluindo o presidente Lula. Enquanto isso, negligencia a participação em conferências como a Conferência de Segurança de Munique, na qual não enviou nem seu chefe de Estado, nem seu chanceler, enquanto nomes como Marco Rubio, Emmanuel Macron, Friedrich Merz e Keir Starmer estiveram presentes.
Assim, é evidente que a pauta da securitização, posta como prioridade na agenda internacional comprovada pelo aumento de investimentos generalizado e os engajamentos de alto nível em fóruns de segurança, anteriormente tratada exclusivamente sob a ótica de projeção de poder militar, adquiriu um caráter de soft power à medida que condiciona a influência de uma nação a sua participação nas discussões. Sob esse viés, a situação brasileira agrava-se, pois tem o pilar central de sua diplomacia — a influência e projeção global via engajamento — abalado pela sua ausência na trend global.
Cooperação e desenvolvimentos armados?
Quando se discute a questão dos investimentos em defesa, é comum atrelar o conceito ao patrocínio da guerra via crescimento numérico de material bélico. Contudo, o conceito de gastos militares não é o mesmo que gasto em armamento, conforme apontado pelo SIPRI. Despesa militar é o gasto em geral, ou seja, pagamento de funcionários e das tropas de segurança civil, operações e manutenção de armamentos militares e não militares, construções de base e pesquisas e desenvolvimento (Camargo et al., 2016). A despesa militar atual não armamentista tem como principais formas de expressão a pesquisa para desenvolvimento, sobretudo tecnológico, e a cooperação estratégica entre nações. Sob essa perspectiva, o aumento do investimento efetivo e contínuo no setor para o Brasil não acarretaria em uma mudança nos princípios que guiam sua política externa, como se poderia argumentar, pois o gasto militar, como supracitado, não se limita ao dispêndio em armamentos, mas abarca todo o setor — envolvendo, inclusive, pesquisas nas áreas tecnológicas e de saúde com aplicações à sociedade civil. Assim, a utilização da verba no setor de defesa, principalmente nas áreas de aplicação dual, significaria um aprofundamento de princípios como a cooperação entre os povos para o progresso da humanidade, presente no artigo 4º da Constituição Federal (Brasil, 1988), por meio de parcerias em pesquisa e de missões de paz realizadas por militares de diferentes nações, e contribuiria para a efetivação dos objetivos da República previstos no artigo 3º (Brasil, 1988), em especial a garantia do desenvolvimento nacional. Isso porque tais investimentos estimulam a inovação e ampliam a autonomia tecnológica do país, gerando impactos positivos sobre a competitividade econômica e o desenvolvimento sustentado.
Apesar de não haver motivo para crer que, no Brasil, ao se ampliar os investimentos em defesa nacional, o crescimento econômico e industrial seria estimulado, uma vez que não há consenso no meio acadêmico a respeito de como os gastos militares afetam o desenvolvimento econômico dos Estados (Borges, 2024), existem exemplos concretos do entrelaçamento entre pesquisa em defesa e desenvolvimento tecnológico.
Um exemplo emblemático é a internet, originalmente desenvolvida em projetos financiados pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (ARPA) durante a Guerra Fria (ARPANET, s.d.). Dinâmica semelhante persiste no século XXI, quando países como Índia e China ampliam investimentos em inteligência artificial, cibersegurança e outras tecnologias estratégicas com aplicações tanto militares quanto civis. Assim, o investimento em defesa passa a atuar também como vetor de inovação, competitividade e projeção internacional.
No caso brasileiro, observa-se a existência de iniciativas relevantes que evidenciam o potencial do setor de defesa como indutor de desenvolvimento tecnológico, ainda que marcadas por limitações estruturais. O desenvolvimento do submarino nuclear no âmbito do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (ProSub), em parceria com a França, representa um dos exemplos mais emblemáticos de transferência de tecnologia e capacitação industrial em áreas sensíveis, como engenharia naval e tecnologia nuclear (Borges, 2024). Além disso, projetos como o cargueiro militar KC-390, desenvolvido pela Embraer, e os avanços em sistemas de monitoramento territorial, como o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) desenvolvido pelo exército (Borges, 20204), demonstram a capacidade nacional de produzir inovação com aplicação dual (civil e militar) . No entanto, tais iniciativas enfrentam entraves recorrentes relacionados não apenas à limitação de recursos, mas sobretudo à descontinuidade de políticas públicas e à instabilidade no financiamento de longo prazo. Essa falta de continuidade compromete a consolidação de cadeias produtivas e a maturação tecnológica, restringindo o potencial do Brasil de converter investimentos em defesa em ganhos sustentados de desenvolvimento e relevância internacional.
Nesse contexto, o deslocamento da agenda internacional também redefiniu os padrões de cooperação militar entre Estados. Durante o auge do multilateralismo, observou-se uma tendência de cooperação baseada em operações conjuntas sob mandato internacional, especialmente em missões de paz, a exemplo da atuação coordenada no Haiti (MINUSTAH). Ainda que alianças militares tradicionais, como a OTAN, tenham permanecido centrais, esse modelo de cooperação voltado à estabilização e à reconstrução institucional perdeu protagonismo diante da reconfiguração das prioridades globais. No cenário contemporâneo, emerge uma lógica mais pragmática e estratégica, marcada por parcerias entre países com diferentes níveis de desenvolvimento, orientadas tanto pelo acesso a recursos críticos, quanto pela diversificação de parceiros em um ambiente internacional mais volátil. Observa-se, por exemplo, a intensificação de cooperações entre a União Europeia e países asiáticos como Japão e Coreia do Sul, incluindo acordos em segurança marítima, cibersegurança e desenvolvimento tecnológico dual (Fiott, 2024). Tais iniciativas refletem não apenas a busca por complementaridade econômica e tecnológica, mas também a construção de novas bases de confiança estratégica em contextos onde não há histórico consolidado de alianças, evidenciando uma transformação qualitativa na cooperação internacional em defesa.
Nesse cenário, o Brasil apresenta um futuro promissor em parcerias estratégicas, como ilustrado pelo lançamento do Gripen via Embraer com a empresa Sueca Saab, pela colaboração com a França no projeto do submarino nuclear e pelos inúmeros debates internacionais sobre cooperação envolvendo terras raras. Assim, a atual conjuntura demonstra-se extremamente propícia para o Brasil à medida que não abandona o desejo por cooperação, que sempre foi prioridade para a diplomacia brasileira e portanto cenário de atuação confortável para o país, mas também inova ao propiciar cooperação Norte-Sul global de forma mais auspiciosa. Em vista disso, cabe ao Brasil usufruir da nova tendência na qual se insere de forma natural ao mesmo tempo que fortalece setores estratégicos — como o de aviação e a indústria marítima — que podem propiciar uma inserção global efetiva e vantajosa.
Soberania Condicionada
Além das questões contemporâneas supracitadas que trazem uma nova importância para os investimentos em defesa, observa-se também a prevalência de uma lógica que pode ser compreendida como “soberania condicional” (Fukuyama, 2004) baseada na performance de segurança, na qual o reconhecimento pleno da soberania estatal passa a depender da capacidade do Estado de garantir controle territorial e efetividade no enfrentamento de ameaças transnacionais.
Atualmente, a realidade brasileira é marcada pelo sucateamento das forças de segurança em razão de limitações orçamentárias, evidenciado pelo estado precário de equipamentos e materiais essenciais — muitos já obsoletos —, o que compromete diretamente a atuação das Forças Armadas (Guimarães, 20205). Soma-se a isso o recorrente adiamento e cancelamento de projetos de pesquisa na área, agravando ainda mais esse cenário (Camargo et al, 2016). Não obstante, apenas recentemente, notou-se um maior engajamento de membros do governo alertando para essa situação, com falas de Lula e de seu ministro da Defesa, José Múcio, apoiando uma maior centralidade da temática na agenda doméstica. Assim expressou-se o presidente: “Nós nunca levamos a sério essa questão da segurança. Eu fico brincando com meus militares que, daqui a pouco, um país menor resolve invadir o Brasil e nós vamos ter dificuldade” (Valor Econômico, 2026).
Quando o presidente ironiza a possibilidade de uma nação menor invadir o Brasil, torna-se essencial ampliar esse entendimento, não o restringindo à noção clássica de invasão territorial, mas incorporando também formas indiretas de interferência, como a influência sobre o processo eleitoral brasileiro e a construção de narrativas externas acerca do país. Nesse contexto, faz-se necessário compreender o setor de defesa como articulado à noção ampliada de segurança. Esta, entendida contemporaneamente como a condição que permite ao Estado preservar sua soberania e integridade (Camargo et al, 2016), passa a incluir não apenas ameaças militares diretas, mas também riscos informacionais e políticos. Assim, a defesa nacional, enquanto conjunto de medidas e ações estatais voltadas à proteção contra ameaças externas, expande seu escopo para abarcar essas novas dimensões, reforçando a necessidade de adaptação e fortalecimento das capacidades estatais.
Declarações recentes de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, sobre a possibilidade de classificar facções do crime organizado brasileiro como organizações terroristas ilustram como essas narrativas securitárias podem gerar pressões externas e questionamentos sobre a capacidade estatal brasileira de enfrentar ameaças transnacionais. Nesse contexto, o fortalecimento do setor de defesa torna-se não apenas instrumento de dissuasão material, mas também mecanismo de validação internacional da capacidade do Estado de controlar seu território.
Considerações Finais
Diante de todo o exposto, torna-se evidente que os últimos anos de reestruturação da ordem global, com o enfraquecimento do multilateralismo, reajustaram a agenda internacional para a priorização de pautas securitárias que condicionam a projeção de uma nação a sua participação ativa na temática. Acompanhando a mudança da agenda internacional, observa-se uma reorientação nos padrões de alinhamento entre os Estados. Diante do interesse em fortalecer seus setores de defesa e da crescente incerteza no cenário internacional, em que alianças baseadas na lógica ideológica hemisférica já não se mostram plenamente satisfatórias, os Estados passam a buscar novas formas de cooperação voltadas a setores estratégicos, diversificando seus parceiros para além das tradicionais divisões entre Ocidente e Oriente ou entre Norte e Sul Global. Ademais, nota-se a tendência de atores do sistema, como o Presidente Trump, em emplacar discursos que condicionam o reconhecimento de soberania à capacidade estatal de gerenciamento de ameaças, como o terrorismo e o narcotráfico, atrelado à qualidade das suas forças de segurança.
Nesse contexto, observa-se uma possível marginalização da diplomacia brasileira à medida que se entende a perda de espaço e de influência pela debilitação do setor de defesa do Brasil proveniente de décadas de negligência que limitam sua capacidade de engajamento na nova ordem em estabelecimento. Ainda, é importante ressaltar que a conjuntura atual, marcada pela redefinição das prioridades globais e pela abertura de novas formas de cooperação, apresenta-se como uma janela de oportunidade singular para que o país revise sua trajetória histórica de subinvestimento e reposicione o setor de defesa como pilar central de sua projeção internacional, sem necessariamente abandonar as bases de sua política externa pautada no soft power, no desenvolvimento e na cooperação. Na lógica do brasileiro pai da aviação que “criou um aparelho para unir a humanidade, não para destruí-la” ao refletir sobre o uso dual de tecnologias, o Brasil possui agora a oportunidade de atualizar seu sistema de defesa de modo a priorizar a cooperação estratégica, o desenvolvimento tecnológico conjunto e aplicações de caráter dual, orientando sua inserção internacional para a construção de parcerias e a estabilidade, em vez de se vincular a narrativas centradas no conflito.
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