Agora todos querem ser Latinos?

Por Gabriel Boaventura

Data de publicação: 14 de maio de 2026

No século XIX, Simón Bolívar sonhou, junto aos seus colegas revolucionários, uma realidade na qual os Estados recém-libertos da opressão colonial espanhola se uniriam, formando um grande país. A ideia, no entanto, não se concretizou e, ao longo das décadas, a América Latina fragmentou-se ainda mais, fosse por questões linguísticas, políticas, econômicas ou territoriais. Ainda assim, para amenizar esse afastamento, líderes latino-americanos tentaram formar organizações e acordos de cooperação, mesmo que limitados por um contexto de valorização da soberania estatal.

Ocorre que, no meio do caminho, havia uma potência: os Estados Unidos. Seja pela Doutrina Monroe, pela Operação Condor ou por estratégias mais recentes de projeção de poder e controle regional, o que se cristalizou foi uma relação assimétrica entre a potência norte-americana e os países latino-americanos, a qual contribuiu para a manutenção de dinâmicas de dependência, intervenção e influência política. Ao mesmo tempo, práticas discursivas foram evocadas associando a América Latina — e, sobretudo, seus migrantes — a problemas de segurança, ilegalidade e instabilidade.

Ao mesmo tempo, a cultura e a estética latino-americanas ganharam destaque nos últimos anos, especialmente no cinema e na música. No cinema, produções como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” destacaram o Brasil em circuitos internacionais, enquanto o filme francês “Emilia Pérez” gerou polêmica ao retratar o México com estereótipos, sendo criticado por sua abordagem externa e pouco sensível à realidade local. Já na música, o porto-riquenho Bad Bunny dominou premiações com seu álbum “Debí Tirar Más Fotos”, que incorpora elementos culturais latino-americanos e discute questões como identidade e transformações sociais.

Seria possível traçar um paralelo entre esses dois fenômenos? A valorização cultural de uma região tão fragmentada, embora unida por signos culturais fraternos, pode estar relacionada a um momento de inseguranças e ameaças de potências estrangeiras? O objetivo desta análise é entender se, de alguma maneira, a cultura latina está sendo usada como vetor de coesão frente às ingerências que assolaram e, aparentemente, continuarão assolando o continente. “Agora todos querem ser Latinos” é uma moda ou uma estratégia de resistência cultural?

Quando ser Latino torna-se um problema

Logo em seu primeiro mandato, Donald Trump afirmava que todo país precisava de uma fronteira e que a construção de um muro seria a forma mais eficaz de conter a “invasão” de drogas, gangues e pessoas na divisa entre os Estados Unidos e o México (Remarks…, 2019). Mais recentemente, em seu segundo mandato, durante seu discurso do Estado da União, Trump voltou a mobilizar essa narrativa ao apresentar casos de crianças e jovens assassinados por “estrangeiros ilegais” que teriam ingressado no país em razão de políticas de fronteiras abertas (Bobadilha, 2026).

A utilização do termo “invasão” e de narrativas sensacionalistas não é neutra: ela simplifica a dinâmica fronteiriça ao construir um antagonismo entre invasores — associados a traficantes, criminosos e migrantes — e um “nós” nacional a ser defendido. Essa construção recai majoritariamente sobre a América Latina, já que sete das dez nacionalidades mais frequentes na fronteira sul dos EUA são latino-americanas (Rosch; Oropeza, 2025).

A problemática não se restringe à dimensão discursiva. A construção de um inimigo externo que se internaliza — que invade — gera implicações políticas e materiais profundas. Dados recentes de Statista Research Department (2026) demonstram que, até julho de 2025, o Immigration and Customs Enforcement (ICE) deportou 157.365 pessoas, sendo os mexicanos o maior grupo, com 64.604 deportações, seguidos por guatemaltecos e hondurenhos. Além disso, a maioria das prisões não envolvia indivíduos com antecedentes criminais (New York Immigration Coalition, 2025), indicando que a estratégia se orienta menos por critérios de segurança pública e mais por uma lógica de seletividade baseada no “ser latino”.

Regionalmente, as manobras geopolíticas estadunidenses apontam para um diagnóstico semelhante. Desde a invasão dos Estados Unidos à Venezuela e a deposição — e consequente sequestro — de Nicolás Maduro, Donald Trump tem intensificado sua presença no continente (Zurcher, 2026). Nesse contexto, iniciativas como o chamado Escudo da América, voltado ao combate ao narcotráfico, ao crime organizado e à imigração irregular (Alonso, 2026), indicam uma ampliação da atuação estratégica no Hemisfério Ocidental.

O acordo firmado entre o Paraguai e os Estados Unidos também reforça essa lógica de aprofundamento da presença norte-americana na região. O pacto autoriza a atuação de militares e civis do Departamento de Defesa em território paraguaio, com amplos privilégios, isenções e imunidades, incluindo submissão à jurisdição penal dos EUA e dispensa de tributos locais (Taddeo, 2026). Tais dispositivos evidenciam uma assimetria jurídica significativa e contribuem para a percepção de ampliação da influência estadunidense no continente.

O que se evidencia, a partir da análise tanto dos discursos quanto das políticas adotadas pelos Estados Unidos, é a construção de uma retórica que define a América Latina como fonte de instabilidade, enquanto os próprios Estados Unidos se apresentam como o agente estabilizador. Trata-se de um enquadramento que não apenas reduz dinâmicas complexas, mas também legitima intervenções, políticas de controle e a ampliação da influência estadunidense sobre o continente. Fica subentendido que o problema não reside nas desigualdades estruturais, nas relações de dependência, muitas vezes impostas pelo país norte-americano, ou nas fragilidades institucionais que marcam a trajetória da região, mas no próprio pertencimento. O problema reside em ser latino.

Ser Latino como denominador comum

Aplicando o entendimento de que “nenhuma coletividade se define como Uma sem colocar imediatamente a Outra diante de si” (Ribeiro, 2017, p. 22) ao caso em análise, observa-se que, como forma de reforçar o “ser americano/estadunidense”, tornou-se necessário cristalizar o “ser latino” como a identidade do outro. Mas e se essa estratégia de exclusão funcionasse, para os próprios latinos, como um vetor de coesão?

O britânico-jamaicano Stuart Hall (2005) compreende a identidade não como essência fixa, mas como construção histórica em constante transformação. No contexto pós-moderno, ela se torna politizada e atravessada por dinâmicas de diferença e exclusão, o que leva à formação de um “eixo comum de equivalência”: identidades distintas passam a ser tratadas como equivalentes pela cultura dominante. Nesse caso, as múltiplas identidades latino-americanas são reduzidas a uma categoria homogênea definida, sobretudo, por aquilo que não é — não estadunidense.

Assim, a multiplicidade de experiências nacionais, culturais e linguísticas contribui, em certa medida, para a emergência de uma identificação comum, construída a partir da articulação dessas diferenças: o Ser Latino. Em um mundo globalizado, essa identidade se concretiza, sobretudo, por meio de sua incorporação em produtos da indústria cultural, como cinema, música, literatura e moda.

As análises de tendências demonstram que a produção latino-americana, antes periférica, hoje é central para o entretenimento global, com projeções para crescer ainda mais em 2026 (Birke, 2025). A consequência desse fenômeno é a intensificação da circulação de signos, estéticas e narrativas que passam a ser reconhecidas como “latinas”, não mais em oposição ao outro, mas como uma identidade em si.

Esse movimento se evidenciou, por exemplo, na ampla torcida de latino-americanos pela consagração do filme “Ainda Estou Aqui”, bem como na rejeição a produções como “Emilia Pérez” (Vinha, 2025). A controvérsia foi intensificada por declarações do diretor Jacques Audiard, que classificou o espanhol como um “idioma de pobres e migrantes”, somadas a críticas quanto à superficialidade de sua pesquisa sobre o contexto mexicano (Diretor…, 2025). Essa situação revela como a identidade latino-americana é frequentemente construída a partir de um olhar externo que a posiciona como desvio em relação a uma norma implícita, ou seja, como o “outro”. Nesse sentido, a reação do público latino-americano pode ser interpretada como uma recusa às tentativas de definição do que é Ser Latino por aqueles que não o são, ao mesmo tempo em que afirma a construção dessa identidade a partir de seus próprios termos.

No campo musical, a identificação com artistas como Bad Bunny também expressa esse fenômeno. Suas temáticas, estética e escolhas linguísticas ressoam para além de Porto Rico, sendo apropriadas como expressão de uma experiência latino-americana compartilhada. Esse processo se evidencia de forma particularmente simbólica em sua apresentação no Super Bowl (Borges, 2026). Em determinado momento, ao proclamar “God bless America”, o artista subverte o sentido tradicional da expressão patriótica estadunidense ao, em seguida, mencionar países latino-americanos, ampliando o próprio significado de “América”. Na companhia de bandeiras de diversos países latino-americanos, a apresentação exibiu, no telão, a mensagem “Juntos, somos América” enquanto o artista afirmava “Seguimos aqui”, sintetizando uma narrativa de permanência, resistência e afirmação identitária coletiva diante do atual contexto de exclusão e perseguição.

Nesse sentido, a dimensão regional ganha centralidade como espaço privilegiado de identificação. Longe de desaparecer diante da globalização, as referências culturais regionais passam a assumir maior relevância, operando como eixo de articulação entre sujeitos diversos. Como observa Stuart Hall (2005, p. 73), os processos globais não apenas tensionam as identidades nacionais, mas também contribuem para o fortalecimento de identidades locais, regionais e comunitárias. Assim, o Ser Latino pode ser compreendido como resultado desse movimento, no qual o regional deixa de ocupar uma posição periférica e passa a estruturar formas de pertencimento compartilhado, conectando experiências, estéticas e narrativas em um cenário globalizado.

Considerações Finais

A identidade latino-americana não é nova, mas ganha novos contornos no contexto atual, marcado por tensões, ameaças e enquadramentos externos que posicionam a região como um problema a ser enfrentado. Assim, a cultura ultrapassa a dimensão da expressão e se reconfigura na esfera da articulação identitária. Os signos, as narrativas e a estética do Ser Latino circulam construindo um denominador comum de pertencimento, apesar da diversidade de vivências envolvidas nesse processo.

Os latinos passam a se reconhecer não mais como o desvio da norma, mas como sujeitos de uma cultura e identidade próprias, construídas a partir de experiências compartilhadas. O Ser Latino passa a ser definido por elementos positivos, como a resiliência e a capacidade de enfrentamento, em contraste com a lógica anterior, que o reduzia a uma identidade marcada pela exclusão, concebida como objeto a ser controlado, domado e domesticado.

No entanto, é importante fazer uma ressalva: ainda que a cultura desempenhe papel relevante na construção e difusão de identidades, a política não pode ser reduzida às suas expressões simbólicas. A consolidação e a proteção do Ser Latino enquanto categoria de pertencimento e afirmação demandam, igualmente, a atuação de mecanismos institucionais, econômicos e jurídicos capazes de enfrentar as assimetrias estruturais que historicamente marcam a região.

Ainda assim, é fundamental destacar a função de coesão que a cultura exerce sobre o Ser Latino. Em meio a tentativas recorrentes de enquadramento, controle e domesticação, são justamente as expressões culturais que permitem a articulação de pertencimentos, a circulação de afetos e o reconhecimento mútuo entre sujeitos diversos. Não é fácil definir o que é Ser Latino, mas essa definição virá e partirá dos nossos termos.

Referências Bibliográficas

ALONSO, J. F. O que é o Escudo das Américas, a nova iniciativa de Trump para o continente, liderada por secretária demitida. BBC, 7 mar. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c15x24k0z5do. Acesso em: 28 mar. 2026.

BIRKE, S. The culture of Latin America will continue its global rise. The Economist, 12 nov. 2025. Disponível em: www.economist.com/the-world-ahead/2025/11/12/the-culture-of-latin-america-will-continue-its-global-rise. Acesso em: 29 mar. 2026.

BOBADILHA, D. Duração de 1h47: Leia na íntegra o discurso de Trump do Estado da União. CNN Brasil, 25 fev. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/duracao-de-1h47-leia-na-integra-o-discurso-de-trump-do-estado-da-uniao/. Acesso em: 28 mar. 2026.

BORGES, N. Bad Bunny está certo? O jogo de poder por trás da palavra ‘americano’. Veja, 10 fev. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/na-ponta-da-lingua/bad-bunny-esta-certo-o-jogo-de-poder-por-tras-da-palavra-americano/. Acesso em: 20 abr. 2026.

DIRETOR de Emilia Pérez levanta polêmica ao dizer que espanhol é ‘idioma de pobres e migrantes’. O Globo, 1 fev. 2025. Disponível em: https://oglobo.globo.com/ela/gente/coluna/2025/02/diretor-de-emilia-perez-levanta-polemica-ao-dizer-que-espanhol-e-idioma-de-pobres-e-migrantes.ghtml. Acesso em: 8 abr. 2026.

HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. 10a ed. Rio de janeiro: DP&A; 2005.

NEW YORK IMMIGRATION COALITION. Unmasking ICE’s Anti-Latino Practices – and What New York City Can Expect. New York: NYIC, 2025. Disponível em: https://www.nyic.org/wp-content/uploads/2025/12/NYC-Area-ICE-Arrests-v4-JV-12.8.25.pdf. Acesso em: 29 mar. 2026.

REMARKS by President Trump on the National Security and Humanitarian Crisis on our Southern Border. The White House, 15 fev. 2019. Disponível em: https://trumpwhitehouse.archives.gov/briefings-statements/remarks-president-trump-national-security-humanitarian-crisis-southern-border/. Acesso em 28 mar. 2026.

RIBEIRO, D. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento; Justificando, 2017.

ROSCH, C; OROPEZA, V. 7 gráficos que mostram quais imigrantes Trump quer deportar dos EUA. BBC, 30 mar. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c1d4v543yy3o. Acesso em: 28 mar. 2026.

STATISTA RESEARCH DEPARTMENT. Number of deportations by ICE by nationality in the U.S. 2025. Statista, 2026.

TADDEO, L. Senado paraguaio aprova presença de militares dos EUA no país. CNN Brasil, 4 mar. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/senado-paraguaio-aprova-presenca-de-militares-dos-eua-no-pais/#goog_rewarded. Acesso em: 28 mar. 2026.

VINHA, F. Emilia Pérez | TV mexicana comemora derrota no Oscar e vitória do Brasil. Omelete, 3 mar. 2025. Disponível em: https://www.omelete.com.br/filmes/emilia-perez-tv-mexicana-comemora-derrota-no-oscar-e-vitoria-do-brasil. Acesso em: 29 mar. 2026.

ZURCHER, A. Venezuela could now define Trump’s legacy – and America’s place in the world. BBC, 3 jan. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/cx2x70k2q26o. Acesso em: 28 mar. 2026.

Acessar o conteúdo