O Colapso de Bashar al-Assad e o Futuro da Síria: O Impacto da Primavera Árabe
Yasmin Freitas Taia
A Primavera Árabe foi um movimento político de resistência aos governos autoritários iniciado na Tunísia¹ e disseminado nos países árabes presentes no Oriente Médio e no norte da África, buscando melhores condições de vida e reformas políticas — frente às crises financeiras, ao desemprego, à corrupção e às formas de violência. A exemplo de governos que solucionaram a Primavera Árabe com uma repressão violenta, está a Síria, país governado por Bashar al-Assad de 2000 até dezembro de 2024, quando ocorreu a tomada de poder pelas forças rebeldes do país.
Bashar al-Assad herdou a liderança de punho de ferro de seu pai Hafez al-Assad, que governou a Síria por 30 anos, reprimindo quaisquer formas de manifestações contrárias ao seu regime, em que mesmo as movimentações pacíficas estavam vulneráveis à força do governo (CNN, 2024).
No final de novembro de 2024, contudo, deu-se início uma nova ofensiva rebelde promovida pelo grupo Hay’at Tahrir al-Sham (HTS), liderada por Abu Mohammed al-Jawlani, a qual desencadeou na deposição de Assad. Nesse cenário, a presente análise traz luz sobre como essa mudança no contexto sírio afetará a Síria, compreendendo a influência de países, como Rússia e Israel, e os desafios humanitários. Seria essa uma nova etapa de conflitos ou somente o fim da Guerra Civil na Síria?
Síria Fragmentada e a Luta pelo Poder
Inspirados pela Primavera Árabe, a população síria, que deu início aos protestos pacíficos com algumas movimentações na capital, Damasco, e em Dara, foi reprimida com forte violência. Nesse sentido, o documentário “Syria: inside the secret revolution” produzido pela BBC em 2011 aborda o cenário da cidade de Dara, localizada no sudoeste da Síria, que estava sendo brutalmente repressiva aos movimentos ativistas pacíficos. No documentário, é possível ver a desproporcionalidade da violência durante a Guerra Civil Síria, visto que, enquanto os civis protestavam de forma pacífica, com crianças e mulheres junto aos homens, as forças armadas enfrentavam com armas, perseguições, torturas e mortes.
Para compreender a situação de outros países na região, especialmente o papel do exército nos conflitos que sucederam a Primavera Árabe, temos o Egito. O exército do Egito apoiou as reivindicações dos civis de seu país, dando força ao movimento com as suas capacidades militares, o que foi essencial para a deposição de Hosni Mubarak e para o posterior governo do país sem propostas de reformas democráticas na política (Ahmed, 2017). Por outro lado, o exército da Síria se contrapunha ao comportamento dos exércitos dos países árabes e forçava a permanência de Bashar al-Assad, sendo a maioria das forças leais ao chefe de Estado em contraste com uma insignificante minoria aliada aos protestantes.
O pesquisador do Centro Dayan da Universidade de Tel Aviv, Samuel Feldberg, aponta que surgiram vários grupos armados rebeldes, sendo alguns deles dissidentes do exército sírio, população curda, civis sírios, entre outros. Dessa forma, houve uma dificuldade na retirada de Assad do poder justamente pela pluralidade de interesses, culturas, etnias, alianças e uma falta de unidade das forças rebeldes (Andrade, 2021). Com isso, podemos perceber a importância do poder das Forças Armadas para a manutenção ou ruptura de uma liderança política no Oriente Médio. Ao compreender a importância política e militar das Forças Armadas no Oriente Médio, podemos analisar como a falta de uma aliança do exército sírio à sua população causou a permanência do líder político e a prolongação do conflito, das violências e do fortalecimento de grupos rebeldes.
Devido ao histórico do Oriente Médio de experiências não-democráticas, a atual ocupação de al-Jawlani na Síria torna o cenário mais instável do que estava durante a Guerra Civil. O duro e repressivo regime de Bashar al-Assad dava uma maior estabilidade à região justamente por reprimir os diferentes grupos rebeldes como Ahrar al-Sham, Jaysh al-Ahrar, e Suqour al-Sham (CSIS, 2018). A pluralidade de interesses — em conquistar territórios, influência e poder — levam instabilidade e incerteza em relação ao futuro político do país, uma vez que a multiplicidade de facções rebeldes, com suas lealdades e objetivos conflitantes, torna difícil alcançar uma solução diplomática ou uma estratégia unificada para a reconstrução e estabilidade.
Perspectivas dos Direitos Humanos
Segundo o documentário da BBC, um dos casos que mais causou revolta aos civis ocorreu com Tama, onde um menino de 15 anos que participava dos protestos junto de outros jovens e crianças, foi levado para a sede da inteligência em Damasco e foi torturado enquanto dizia “Deus, liberdade, Síria”. Seu corpo foi devolvido à família 5 semanas depois, com diversas mutilações, hematomas e fraturas. Este caso, por si só, expõe de forma clara a brutalidade das forças sírias e do regime de Bashar al-Assad.
A Guerra na Síria causou a migração de cerca de 11 milhões de habitantes civis e dissidentes do exército para países vizinhos, 6,8 milhões de deslocados internos, 12 milhões de sírios em condições de grave insegurança alimentar, entre outros (BBC, 2024). Além disso, o relatório da Anistia Internacional foi publicado em 2017 e constatou que entre 2011 e 2015, 13 mil pessoas foram enforcadas na Prisão de Saydnaya, sendo uma repressão invisibilizada para atingir os objetivos do governo de dar fim aos seus opositores políticos e aos movimentos rebeldes (CNN, 2024). Com a derrubada do regime de Assad, os rebeldes sírios libertaram ex-prisioneiros da Prisão de Sydnaya e estão no processo de oferecer cuidados médicos e localizar as famílias destes indivíduos (CNN, 2024).
Nesse contexto, a queda de Bashar al-Assad representa uma vitória e otimismo para alguns especialistas e líderes políticos sobre os direitos humanos. Segundo o Chefe de Direitos Humanos da ONU Volker Turk, espera-se um período de transição que “deve incluir prestação de contas e documentar abusos e violências de forma meticulosa” (ONU News, 2024). Entretanto, muitos acreditam que a Síria vai seguir o mesmo caminho de outros países do Oriente Médio: manter um grupo rebelde no poder após a deposição de regimes autoritários.
O grupo que tomou o poder, o HTS, foi afiliado à Al-Qaeda — organização terrorista fundamentalista islã — no início da Guerra Civil na Síria como oposição ao governo de Bashar al-Assad. Portanto, apesar de al-Jawlani alegar que o seu grupo é independente atualmente, há evidências de que ainda possuem uma relação secreta de orientações estratégicas (CSIS, 2018). Com isso, o futuro da Síria permanece incerto, mas a expectativa é que o país enfrente desafios significativos na busca por estabilidade, enquanto as dinâmicas de poder entre facções locais e interesses internacionais continuarão a moldar a situação do país.
Os grupos extremistas jihadistas possuem um longo histórico de violência, por acreditarem ser necessária uma luta contra os infiéis para promover um Estado Islâmico governado rigorosamente pela sharia — conjunto de leis do Islã — que desafiam os direitos humanos pelo seu tradicionalismo, como apedrejamento por adultério e amputação de membros por roubo (BBC, 2021). Apesar disso, o HTS afirma não ser um grupo extremista jihadista e demonstra certa esperança com as suas ações, como a libertação dos presos da prisão de Saydnaya. Porém, há dúvidas quanto a essa transformação e esse posicionamento menos extremista pode ser apenas uma estratégia para tomar o poder na Síria e não ser impedido por sírios, por grupos rebeldes de oposição ou organizações internacionais.
Interesses Geopolíticos e Necessidades Humanitárias
A obra “After Hegemony: Cooperation and Discord in World Political Economy,” de Robert Keohane, aborda a importância da cooperação dos países no sistema internacional, mesmo que de forma assimétrica, para alcançar objetivos comuns. Um dos principais objetivos das organizações internacionais é a paz mundial, sendo necessária sua atuação na tentativa de resolução de conflitos e promoção de meios diplomáticos para conciliar os diferentes interesses. Apesar disso, as tentativas de inserção de outros países e de organismos internacionais no Oriente Médio são insuficientes, sua falta de atuação nesses países é sentida na falta de ajuda humanitária e na falta de responsabilização por crimes contra o direito internacional humanitário. A exemplo disso está a prisão de Saydnaya, que foi palco das maiores formas de violência do governo Bashar al-Assad, e possui inúmeras documentações sobre o ocorrido durante os anos de Assad, mas não há nenhuma presença internacional para realizar as devidas documentações para posterior julgamento do ex-presidente (Bowen, 2024).
Tal descaso internacional é enfrentado pelos diversos sírios que, mesmo com poucas habilidades técnicas, buscam fazer os devidos registros e encontram informações sobre seus familiares (Bowen, 2024). Será que a cooperação internacional, conforme defendida por Keohane, é realmente possível em um cenário global onde os interesses geopolíticos realistas muitas vezes ultrapassam as necessidades humanitárias urgentes? As concepções de democracia e de valores pelos organismos, formados por sua maioria um pensamento ocidental, seriam eles eficazes se implementados no Oriente Médio, mais especificamente na Síria?
O Papel de Grupos Militantes e Potências Estrangeiras na Crise Síria
Em dezembro de 2024, o cenário na Síria se modificou completamente, voltando aos holofotes das mídias internacionais, quando uma nova, rápida e inesperada ofensiva atingiu os arredores de Aleppo e a cidade de Hama (CNN, 2024). O momento desse ataque rebelde foi muito estratégico devido aos outros dois grandes conflitos atuais entre Rússia x Ucrânia e Israel x Palestina. Por estarem enfraquecidos e com as suas capacidades militares voltadas a alcançar os objetivos nacionais, os exércitos russos não estão possibilitados de fortalecer as forças sírias que defendem o governo de Assad.
Por um lado, a Rússia foi a principal parceira de Assad, sendo uma forma estratégica de influência no Oriente Médio. O país possui duas bases militares na Síria, uma base naval em Tartous e uma base aérea em Khmeimim, de maneira que fortalecia militarmente a permanência de Bashar al-Assad no território e combatia os grupos terroristas (Rodionov, 2024). Porém, com a sua deposição, as relações entre Rússia e Oriente Médio ficam mais obscuras e instáveis, colocando em risco os interesses dos dois países.
Por outro lado, Israel é um adversário da Síria, tendo iniciado centenas de ataques aéreos em seu território após a deposição do presidente sírio, conquistando mais territórios para o seu controle e destruindo infraestruturas, centros de pesquisa e instalações militares (BBC, 2024).
De acordo com o ex-inspetor-chefe de Armas da ONU na Síria, a atuação israelense não seria uma busca por mais poder, como nas concepções clássicas do realismo, mas Israel realmente teria uma preocupação em relação à destruição de possíveis armas químicas na Síria. De acordo com Israel, a instabilidade política na Síria junto a grupos rebeldes competindo pelo poder traria ainda mais insegurança no contexto internacional.
De acordo com o editor Sebastian Usher, o grupo militante islâmico Hayat Tahrir al-Sham (HTS) tomou a cidade de Aleppo e, consequentemente, Damasco, levando o presidente a abandonar o país. O HTS é considerado um grupo terrorista pela Organização das Nações Unidas, pelos Estados Unidos, Turquia, entre outros, principalmente por ter sido filiado à Al-Qaeda, ter denúncias de violações dos direitos humanos e defender um governo fundamentalista na Síria, mais extremista.
Assim, a presença de grupos rebeldes no poder, como Hayat Tahrir al-Sham (HTS) na Síria, possuem forte influência na dinâmica geopolítica do Oriente Médio. Com isso, a possibilidade de um governo mais extremista pelo HTS representa riscos não só aos direitos humanos e à segurança regional, quanto à própria segurança global.
Considerações Finais
Além das profundas consequências da violenta repressão de Bashar al-Assad e das violações do direito internacional humanitário, muitos países e a própria Síria temiam a tomada do governo por um grupo extremista. Apesar do conservadorismo ditatorial de Assad, havia certa estabilidade na Síria com a ocupação do cargo político. Porém, essa vacância e instabilidade no poder, é atualmente composta pelo grupo terrorista jihadista, trazendo previsões pessimistas para os sírios, frente à sua pluralidade de etnias e a busca de poder por demais grupos rebeldes.
A recente ofensiva rebelde, que ocorreu em dezembro de 2024 na Síria, coloca não só a Síria e sua população, mas o Oriente todo em uma situação de vulnerabilidade e instabilidade, visto que os grupos jihadistas são extremamente radicais e não toleram a pluralidade de crenças, culturas e etnias no território. Dessa forma, apesar de o governo de Bashar al-Assad ser visto com maus olhos no âmbito internacional durante a Guerra Civil na Síria, por sua violenta repressão com a chegada da Primavera Árabe, a disputa pelo poder na Síria é vista como muito mais prejudicial não apenas para o sistema internacional, mas para a Síria. Infelizmente, com o grupo HTS no poder, todas as diversidades estão em risco, havendo um retrocesso nas lutas sociais e nos direitos humanos, por seguirem o Alcorão à risca e não serem tolerantes.
Notas
- A manifestação que deu início a esse momento ocorreu em dezembro de 2010, na Tunísia, quando Mohamed Bouazizi ateou combustível e fogo ao próprio corpo em frente ao prédio do governo da cidade de Sidi Bouzid, como forma de protesto contra o impedimento de trabalhar, intimidações da polícia e o consequente desemprego (BBC, 2021)
Referências Bibliográficas
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